A Índia tinha uma vaga no Mundial mas recusou-a

Por não poderem jogar descalços, pelos custos elevados ou por falta de noção da importância do Mundial de futebol, os indianos disseram não à oportunidade de ir a fase final, em 1950.

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Selecção da Índia nos Jogos Olímpicos de 1948 DR

Quando se fala em desporto indiano o futebol não é a modalidade que surge imediatamente no pensamento. O subcontinente é uma potência no críquete e conta 11 medalhas olímpicas no hóquei em campo, das quais oito de ouro. Mas a relação da Índia com o futebol já tem mais de um século: a Durand Cup, a mais antiga competição futebolística indiana, foi iniciada em 1888 – está entre as mais duradouras do mundo. O mais antigo clube asiático também é indiano: o Mohun Bagan foi fundado em 1889 e tem como um dos pontos altos da sua história um jogo particular frente ao New York Cosmos de Pelé.

Apesar de todo este património histórico, o futebol indiano nunca conseguiu um grande feito como marcar presença numa fase final do Campeonato do Mundo. Num país cujo número de habitantes ultrapassa largamente os mil milhões, a prática de futebol federado não atrai mais do que 0,03% da população. As esperanças dos adeptos locais no apuramento para o Mundial têm vida curta: na qualificação para 2014 a Índia foi eliminada pelos Emirados Árabes Unidos. Há quatro anos tinha caído frente ao Líbano. Sempre na primeira eliminatória disputada.

Mas houve um ano em que a Índia, mesmo sem disputar qualquer jogo de qualificação, tinha garantida uma vaga no Mundial. Foi em 1950, no torneio que o Brasil organizou e acabaria por perder, em pleno Maracanã, para o rival Uruguai. Só que a selecção indiana não aproveitou a oportunidade. São várias as razões apontadas para tal decisão, numa história em que os mitos confundem-se com os factos.

A FIFA convidou quatro selecções asiáticas para disputar a qualificação para o Mundial 1950: Birmânia (actual Myanmar), Filipinas, Indonésia e Índia. O problema foi que, por uma ou outra razão, as três primeiras desistiram. Isso dava automaticamente um bilhete para o Brasil aos indianos. Mas a oportunidade foi recusada.

“A Índia disse não porque a FIFA não permitia que os jogadores competissem descalços”, pode ler-se na página oficial na Internet do organismo que tutela o futebol mundial.

Nos Jogos Olímpicos de 1948, naquela que foi a primeira participação de uma equipa indiana num grande torneio internacional desde a independência (no ano anterior), os indianos tinham dado nas vistas. Disputaram a partida com a França até perto do fim, acabando por perder 2-1. Mas o facto de terem jogado descalços ou de meias foi o mais falado, daí a associação com a recusa de participar no Mundial 1950.

O argumento dado pela federação indiana para não ir ao Brasil terão sido os custos, apesar de a FIFA se ter oferecido para pagar as despesas da viagem. Os responsáveis indianos também alegaram não ter tempo suficiente para preparar uma equipa para a competição.

Porém, numa entrevista à edição indiana da revista Sports Illustrated, o ex-internacional Sailen Manna – que seria o capitão da equipa se a Índia fosse ao Mundial – dizia em 2010 que o motivo para a ausência era outro: “Não havia noção do que era o Campeonato do Mundo. Se houvesse informação teríamos nós próprios tomado a iniciativa. Mas, para nós, os Jogos Olímpicos eram tudo. Não havia nada mais importante”. Como se veria em 1956, quando a Índia obteve um quarto lugar no torneio olímpico.

E assim os indianos continuam à espera de ver a selecção estrear-se em fases finais do Mundial.

Planisférico é uma rubrica semanal sobre histórias de futebol e campeonatos periféricos