Opinião

Cartas à directora

Não é possível o Natal assim...

Como se poderá ter Natal se há tantos, tantos e tantos que não o vão ter... As crianças a quem roubam os sonhos, lhes tiram a infância...

Uma profunda tristeza com a desumanidade e violência nos cortes e mais cortes, nos subsídios, numa lista infindável e sempre inventada nos bolsos dos mais fracos. Uma profunda impotência...

Rostos fechados, desespero nos olhos e a esperança que fugiu das mãos que agora se estendem a pedir esmola.

Não, não é possível um Natal assim! Nem para os autênticos cristãos!

Como é possível destruir o que de mais sagrado existe em cada ser humano, que é a dignidade e o direito ao pão?

Tudo está bem e, para nós, tudo cada vez pior! Em que país vivem? Quem são as pessoas? O que significa respeito e dignidade? O que enxergam nos seus horizontes? O coração fugiu? Se calhar, sim, com medo dos cortes também!

Não vai restar pedra sobre pedra nem nenhum sorriso se atreverá a aparecer nos rostos dos que ainda sentem, porque alguns até deixaram de sentir – foram apanhados por tudo o que lhes dão a ver e a ouvir, e acreditam, o que é mais grave.

Não, não vai haver Natal assim...

Haverá encenações para nos convencerem que sim. O pior é este cansaço de pensar ou já não querer pensar no amanhã.

Tudo se vai tornando em apatia e as vozes que tanto gritaram e cantaram a Grândola, Vila Morena estão roucas, os pés que foram às manifestações perguntam-se para quê. Será que o cansaço os venceu?

O Tribunal Constitucional, que ainda vai travando esta loucura, perdeu o respeito que lhe é devido e pretendem calá-lo, abafá-lo, destruí-lo, para livremente escravizarem quem ainda tem o descaramento de lhes dizer não.

Não é possível dar num dia e, no ano inteiro, recusar e tirar. A hipocrisia tem limites!

A palavra solidariedade está banalizada, esvaziada, perdeu a sua profundidade e força e não lhe cabe a ela resolver o problema das carências quando se demitem os verdadeiros responsáveis pelos direitos humanos.

Escrevo para quê? Escrevo apenas porque sim, porque dói, porque dói muito e cada vez mais...

Já não consigo ouvi-los nem vê-los, apenas sonho viver sem eles.

Se Natal é dar, com quem aprenderam eles a tirar? (…)

Lídia Menezes, Porto

A infância distante

Recordo, quando criança, ver regressar o meu avô e os meus tios, depois de um dia de trabalho, e todos comentarem, ao jantar, as tarefas realizadas, o estado das searas, a falta ou não de pasto para o gado, o prolongamento angustiante da seca ou o excesso de chuva.

Eram tempos difíceis, não havia emprego para todos, emigrava-se, o que se produzia quase não dava para uma vida minimamente digna, mas havia esperança numa mudança política e razões para acreditar num futuro melhor, não longínquo.

Como a vida se alterou desde então! O serviço militar obrigatório ainda obrigou a ir combater nas colónias, porém, depois, foi a explosão de liberdade, a paz e o reconhecimento de direitos mais que justos, mais igualitários.

Mas eis que a ambição pessoal, aliada à incompetência, alcançou o poder, financeiro, económico e político. O que temos então hoje? Pobreza, miséria, desemprego, atraso, de novo, e absoluta falta de esperança no futuro. Será preciso ressuscitar soluções?

António Catita, Lisboa