“É mais difícil deixar a ironia do que a heroína ou os cigarros.” Edward St. Aubyn

Os críticos comparam o estilo de Edward St. Aubyn a Oscar Wilde, Evelyn Waugh ou mesmo Jane Austen. O aristocrata inglês foi um heroinómano antes de começar a escrever
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Os críticos comparam o estilo de Edward St. Aubyn a Oscar Wilde, Evelyn Waugh ou mesmo Jane Austen. O aristocrata inglês foi um heroinómano antes de começar a escrever Colin McPherson

Com os dois primeiros volumes da saga Melrose chega finalmente a português a prosa de um dos mais celebrados autores ingleses da sua geração. Uma fotografia a negro da aristocracia inglesa onde não falta o rasgo do comediante que sabe o truque da frase lapidar. Edward St. Aubyn pode ser um vício

“Se alguém me quiser fazer voar até aí, eu vou.” O aristocrata reservado, avesso a entrevistas, tido como um arrogante que não dá confiança a não ser a um círculo muito fechado de amigos, que faz convergir a atenção dos mais exigentes leitores e da audiência mais sensacionalista, diz-se lisonjeado com o início da tradução para português da saga que dedicou à família Melrose, um quinteto que começou a publicar em 1992 e ficou concluído em 2011.

A obra tem como figura central Patrick Melrose, filho do casamento entre a velha aristocracia inglesa e a fortuna americana, violado pelo pai a partir dos cinco anos. David Melrose é um “snobe sem alma”. Educado em Eton, é um homem falhado nas suas ambições, sádico, sórdido e desocupado, cujo lema de vida é “ou o melhor, ou nada”, desde que, como nota o narrador, “o nada não acontecesse realmente”. Prepara o filho para ser um adulto distante. “Observar tudo” é o maior legado que quer deixar a Patrick que, por sua vez, irá conduzir a sua existência no sentido oposto ao da pesada herança paterna sem no entanto se conseguir livrar dela nem da injúria que ela representa. Carrega ainda a ausência da mãe a quem David dedicara o mesmo desprezo que tinha pela classe média, e a quem Patrick olha como cúmplice da crueldade do pai pelo silêncio com que se resigna a viver nela. Eleanor, 20 anos mais nova que David, vulnerável, evade-se no álcool e mais tarde nas profecias da New Age, deserdando o filho a favor de uma das “seitas” que persegue depois de se separar de David.

É um modo simplista de resumir uma obra que deve ser celebrada como um dos acontecimentos literários do ano em Portugal. Os dois primeiros livros, Deixa Lá e Más Novas (originais de 1992), acabam de sair num único volume, uma edição da Sextante com tradução de Daniel Jonas, e são a estreia por cá de um dos mais refinados e brilhantes escritores ingleses da sua geração.

Aos 53 anos, Edward St. Aubyn, a quem os críticos comparam no estilo da prosa a Oscar Wilde, Evelyn Waugh ou mesmo Jane Austen, cresceu com Patrick, o seu alter-ego ficcional, que aparece aos leitores em Deixa Lá, numa mansão do sul da Provença, com apenas cinco anos e que reencontramos aos 22, em Más Novas, a caminho de Nova Iorque, para ir buscar as cinzas do pai que acabara de morrer. Viciado em todo o tipo de drogas, Patrick perde-se por Manhattan nessa evasão obsessiva e revelando um cinismo apurado com que aprendeu a defender-se do seu sentimento de falhanço em relação ao mundo. Era o excesso ou nada.

Também Edward, (a quem os amigos tratam por Teddy), natural da Cornualha onde nasceu a 14 de Janeiro de 1960, educado na Westminster School e em Oxford, onde estudou literatura, herdeiro de um apelido que remonta ao século XVII, foi um heroinómano a partir dos 16 e viveu os anos seguintes numa espiral de destruição que quase o matou. Fechou-se então a escrever. Nessa altura, aos 27, era a escrita ou nada. Cinco anos depois saía Deixa Lá, seguiu-se Más Novas; Some Hope, em 1994; Mother’s Milk, em 2006 (finalista do Man Booker Prize e vencedor do Femina para melhor romance estrangeiro em 2007), e At Last (2011).

Estava completa a série Melrose. Mais do que um quinteto sobre o trauma ou uma crítica feroz à aristocracia inglesa, aqui exposta nos seus vícios ou vacuidade, é uma obra sobre a procura da identidade após a sua desintegração violenta, um conjunto de livros marcado por referências clássicas onde a grande inovação está no modo como intercala na narrativa a experiência da primeira e da terceira pessoas. Observador e observado apresentam-se de forma avassaladora para os nervos de quem lê. A pulsão de Patrick contagia e torna a leitura tão viciante quanto a ironia que autor e protagonista concordam ser mais aditiva do que os cigarros ou a heroína. Lidos os primeiros dois romances da saga, pede-se urgência na tradução dos restantes.

Ao telefone com o Ípsilon, Edward St. Aubyn diz desconhecer a agenda editorial portuguesa, e, contrariando a tal arrogância a que quase sempre surge associado, mostra-se satisfeito com esta tradução numa conversa a partir da confissão que mudou muita coisa, no dia em que disse a um jornalista que era verdade que, como Patrick, também ele tinha sido violado pelo pai. Do outro lado do telefone, a voz oscila entre o humor e a memória do inferno que foi escrever a saga Melrose.



Há 20 anos fez a si mesmo um ultimato: ou escrevo um romance que valha a pena ou morro…

Nunca tinha posto as coisas dessa forma, mas foi mais ou menos isso. Conseguir terminar um livro tornou-se o desafio mais importante da minha vida e coloquei nessa tarefa toda a minha energia.

De tal modo que chegou a tentar o suicídio a meio do processo.

É verdade.

O que o “salvou”, isto é, quando sentiu que o romance seria conseguido?

Quando encontrei Patrick Melrose.

O protagonista do que sabia ser uma saga. Um alter-ego?

No princípio não sabia bem que forma teria. Pensei primeiro em três livros. Mas nada estava decidido. Era um romance de crescimento. E encontrei em Patrick o meu alter-ego, a forma de avançar e sair de um bloqueio que me consumia. Mas eu não sou ele.

Tem sublinhado isso nas entrevistas. Mas, como ele, nasceu e cresceu numa família da aristocracia inglesa, foi violado na infância pelo pai, viciado em drogas… Há um ódio filial que alastra da família para a sociedade de onde vem. É corrosivo com as classes mais altas.

Sim. Quando se passa por experiências tão violentas quanto essas é preciso fazer qualquer coisa para continuar. Eu precisava de escrever e quis escrever sobre isso sem ser sobre mim. Mas era inevitável. Não sabia que iria passar tanto tempo com isto, nem como é que resultaria em livro. E não gosto de falar em catarse. Prefiro falar na busca de uma identidade. Claro que há aqui um lado patológico, o olhar para este “eu” de fora. Como olhar para os que o rodeiam e que de certa forma têm elementos ou características próximas dos que me envolveram. Satirizar as upper classes inglesas é inevitável, pelo menos a mim parece-me. Não pretendo fazer nenhuma leitura ou ensaio sociológico, mas como em qualquer categoria social (não só nas classes privilegiadas) onde estão mais do que três pessoas há uma variedade muito atraente para quem escreve: os espertalhões, os bêbados, os perversos, os tristes, os gordos, os frustrados. Quando transporto isso para um romance tenho de dar a esta variedade uma certa unidade. Nestes livros, isso aparece no quadro das relações ou manifestações de poder, aqui no seu lado mais grotesco e ao mesmo tempo apelativo; muito em concreto, o poder parental. Esse é o meu ponto. É a partir dessa ideia que monto o romance. O modo como David exerce esse poder em Patrick e como isso vai determinar todo um comportamento individual e social. Eles vivem num ambiente privilegiado povoado por figuras, cada uma a desempenhar um papel concreto para conseguir essa unidade. Não significa, portanto, que a minha leitura seja a mais completa sobre essa sociedade. As pessoas de que falo conquistaram um lugar num romance sobre o poder paternal exercido de modo disfuncional. Todas as pessoas têm um contexto. A alta sociedade é aqui um facto e não o sujeito. A história tem de acontecer em algum lugar e acontece ter lugar neste.

E este é o seu contexto?

Refere-se a agora?

Ou antes. É neste ambiente que a sua história pessoal tem acontecido?

Do ponto de vista literário sim, mas o meu romance que vai sair em breve tem um contexto diferente que talvez tenha mais a ver com o meu contexto pessoal agora. A minha vida é passada sobretudo na minha condição de escritor. A maioria dos meus amigos são escritores ou estão ligados ao meio literário. Gosto das conversas, do estímulo criativo. Mas acontece por vezes ir parar a grandes festas como muitas das que descrevo nos meus livros, só que agora a conversa é diferente porque essas pessoas já não estão nos meus romances, não sou eu quem os comanda, agora podem decidir o que dizer [risos].

Não o temem enquanto observador impiedoso?

Acho que não. Muitas pedem para estar nos meus romances e lamentam que eu não tenha pensado nelas enquanto escrevia. Lutam para ver qual delas vai aparecer no retrato [risos]. Agora a sério, não sou completamente rejeitado por ter um olhar tão feroz sobre elas.

Os seus livros estão cheios de considerações filosóficas, aforismos. Em Deixa Lá tem a personagem de Victor Eisen que lhe serve para desenvolver conceitos como o da identidade, o amor, a dor, o erro, a autoconsciência, a crueldade, o bem e o mal ou mesmo a justiça. Faz isso exercitando a síntese.

Simplesmente avanço com a escrita. Tento ser muito preciso e tudo decorre dessa tentativa. Por vezes funciona. Não creio que tenha um segredo. Victor é um pouco uma brincadeira. Ele vem da tradição anglo-americana da filosofia analítica no modo como trata a questão da identidade. Quer descrever o que é isso de se saber quem somos. O dilema da mente e do corpo. Todo o romance é baseado no modo como a identidade de alguém é moldada pelo trauma, pelo medo. O importante do trabalho de Victor tem a ver com o “e então?”. E então se eu tivesse lido aquele livro? E se não tivesse lido aquele livro? O verdadeiro filósofo, se assim lhe posso chamar, vem no último livro do quinteto. Esse está muito preocupado com a questão da autoconsciência, mais do que com a identidade. Chama-se Erasmus Price. O pensamento dele é mais construtivo do que o de Victor. Mas o meu interesse pela filosofia é indiscutível. Muitos dos meus amigos mais próximos são filósofos, como Colin McGinn [n. 1950, professor em Oxford], ajudaram-me na escrita, a resolver alguns mal-entendidos [risos]. Mas não penso em mim como um filósofo. A filosofia é uma disciplina altamente especializada, uma ocupação total. Esses aforismos que me surgem ocasionalmente são apenas um resultado natural do modo como a minha mente funciona, sempre à procura de uma forma comprimida. Acho que tudo nos meus livros mostra como sou obcecado com isso, essa compressão, o mínimo de tempo e lugar, dizer o máximo no mínimo de palavras, eliminar tudo o que não seja essencial, focar-me num detalhe preciso em vez de andar por dois ou três. Espero com isso ser capaz de potenciar a imaginação do leitor. E se tudo é sobre compressão, o aforismo acaba por ser um produto natural, um marcador de intensidade.

A saga Melrose levou-lhe mais de 20 anos de escrita. Como foi esse processo? Teve uma rotina sempre igual?

A minha rotina divergiu. Deixa Lá foi uma tortura para mim. Não era capaz de ler o que estava a escrever. Tinha uma namorada muito generosa que me recolhia as páginas que eu atirava para o chão e passava-as à máquina e então afinavam-se coisas. Eu escrevia numa sala e ela teclava na outra e eu tinha a noção do progresso à medida que a ouvia bater nas teclas. Era esse o ritmo. Foi um momento de grande sofrimento, em que eu tinha ataques de pânico. Coincidiu com um período muito confuso da minha vida, em 1989 ou 90... Depois era o processo de reescrita. Levantava-me muito cedo e escrevia até à hora de almoço. Começava e parava a escrita até chegar à frase de que gostava e só então avançava para a próxima frase. Foi o meu momento mais duro de escrita. Tendo a reescrever à medida que avanço. Então reescrevo e torno a reescrever a mesma página e quando sinto que está resolvida avanço no primeiro rascunho. Posso chegar ao 14º, 15º rascunhos ou esboço. O meu estúdio está repleto de páginas rejeitadas, um pequeno bungalow de páginas rejeitadas. Más Novas foi também uma excepção porque o escrevi à noite, é um romance nocturno. A minha generosa namorada já não estava comigo. Vivia sozinho e escrevia à noite. Foi escrito numa espécie de estilo a la Proust, dormindo de dia e escrevendo à noite. Gosto da ironia de estar vivo sozinho, quando o resto do mundo dorme e quando o mundo acorda eu retiro-me dele e vou para a cama. Os dois primeiros romances foram atípicos no seu modo de escrita. A partir daí tenho uma rotina mais ou menos certa de escrever a partir das três ou quatro da manhã, até à hora de almoço.

Diz que Más Novas é o seu romance mais nocturno. Nessa vertigem das drogas, Patrick elege o Coração das Trevas, de Joseph Conrad, como o seu grande livro de sobretudo. Porquê Conrad e porquê a literatura à medida de um bolso de casaco?

A vida de Patrick tinha de ser feita de livros pequenos, transportáveis e com sombras. O lado negro de Conrad parecia-me perfeito para ele. Lembro a frase mais famosa de Coração das Trevas, quando Kurtz está a morrer e diz “O horror, o horror” e tudo acaba. É subir o rio e nessa subida voltar atrás no tempo e ir até ao lado mais bárbaro e terrífico. Era o caminho de Patrick.

Más Novas é, aliás, um livro cheio de alusões e referências literárias.

Porque Patrick tem um sentido de si tão fraco que se deixa possuir pelas vozes dos outros. Veja-se o capítulo central em que é assaltado por frases de muita gente, citações. Ele consegue falar em qualquer voz excepto na própria. Fala facilmente através das palavras dos outros e está constantemente a fazer isso. Creio que é o capítulo 8, que começa com: “Patrick estava deitado na cama como uma coisa morta. Afastou por um momento as cortinas e viu o Sol a levantar-se sobre o rio East, o que o encheu de aversão e autocensura.” [Diz a frase de cor, certa]. Fui buscar a frase a [Samuel] Beckett, a morte como uma espécie de escolha, alguém que gostaria de estar em dois lugares e não apenas num. Ele não é mais do que uma citação naquele momento da morte do seu pai. Vai ter de correr em busca de um significado. Descende de alguém que o impede de viver em paz, de perseguir o conhecimento e a virtude.

Numa entrevista ouvi-o citar Patrick para falar da sua opção pela ironia. Ela é uma constante e uma marca indissociável da sua escrita. Lá mais para a frente da vida de Patrick, no derradeiro livro que ainda não foi traduzido para português, At Last, refere-se à ironia como mais viciante do que a heroína.

Sim, há uma conversa em que Patrick diz que a ironia é a adição mais difícil de deixar, mais do que a heroína ou os cigarros. A ironia é o desejo de se ser duas coisas em simultâneo. Psicologicamente consegue-se estar dos dois lados da cortina; há uma espécie de capacidade mágica de sair do próprio corpo e ao mesmo tempo sentir o corpo. Ele sente que tem de dizer duas coisas porque sente duas coisas. O progresso de Patrick faz-se também ao nível da retórica e a esse nível a questão que se coloca é a da renúncia à ironia, mas a ironia não é senão a versão retórica de uma fenda psicológica. Ele deixou a heroína mas não consegue deixar a ironia. No fim de toda esta saga, e sem querer retirar uma ponta de entusiasmo a quem ainda não a leu, Patrick pode dizer o que pretende e pretender o que diz, ser uma e outra coisa ao mesmo tempo. Se quiser ser irónico, pode, mas não tem de ser. Há uma diferença.

Como é que lida com Patrick agora, enquanto personagem e alter-ego? Cresceu com ele enquanto escritor?

Não sei bem. Ele vai viver sempre comigo. Estou muito grato a quem gosta de me ler. Mas não leio as críticas, nunca vou ver o que escrevem sobre mim online.

Porquê?

Porque penso que a minha missão é ver além da personalidade e não me fixar nela. A reputação é apenas uma extensão da personalidade. A ideia de saber se acham que estou ou não na direcção certa ou o modo como essa personalidade é exposta distrai-me do essencial. Ser lido para mim é a questão central. E não se consegue escrever se ficamos totalmente expostos ou dependentes do que os outros pensam. Aí, não há esperança. Mas, por outro lado, gosto da comunicação. É por isso que escrevo. Vejo a literatura como entretenimento, pelo menos quero que a minha seja e não vejo nessa ideia nada de menor. Não tratem mal essa palavra. Tento não esquecer isso quando escrevo. Gosto do feedback, quero que os meus romances sejam lidos. A comunicação não está terminada antes de acontecer a relação entre o escritor e o leitor. Quando era mais novo ninguém sabia a verdade sobre a minha vida. Depois criou-se uma relação mais íntima. Isso é bom e é mau. Mas é assim.

Sentiu alguma espécie de alívio quando revelou a tal verdade sobre a sua vida?

Não. Tive muito medo de ser rejeitado. Fiquei muito, muito assustado. Isto pode parecer tonto, mas o que gosto mais no acto de escrever é quando alguém de um modo muito particular se dirige a mim depois de ler um livro e me fala dessa experiência. Isso é fantástico. Mas não tem nada a ver com reputação ou prestígio, tem a ver com resposta. Recebo uma resposta, tenho reacção. Não tenho de me armar, ou ficar inchado com essa história de ser um escritor bem reputado, ter o culto da personalidade.

Escolheu para os seus livros uma estrutura clássica, cheia de referências à cultura clássica. Não lhe interessa experimentar novas formas de romance.

É verdade que este conjunto de romances obedece a um conjunto de normas clássicas. Há uma unidade de tempo e de lugar que tem uma assinatura clássica óbvia e algo muito transparente no estilo. A compressão, a transparência, a lucidez. Não é o Finnegan’s Wake, não pode haver qualquer confusão com isso, espero. Não há aqui experimentalismo, mas há uma razão para isso.

Qual?

O assunto. É tão perturbante, incómodo, que teria perdido impacto se me pusesse a experimentar fórmulas. Eu precisava da simplicidade, da força da narrativa clássica de modo a conter esse material explosivo que tinha em mãos.

Há, no entanto, um olhar que oscila entre a primeira e a terceira pessoas.

A razão para isso é a da consciência e autoconsciência, a experiência da primeira pessoa. Mas não quero distrair o leitor do assunto com questões formais. Se se consegue pôr isso em palavras claras e simples e se faz qualquer coisa mais complicada que não enriquece... De outra forma é pensar que estamos a ser espertos. Gosto de pensar que fui esperto ao escolher esse método em vez de mostrar um método que me possa fazer passar por esperto. “Olhem como eu fiz esta pirueta!” Tentar persuadir alguém, convencer alguém de que se é esperto é patético. E não é a minha ambição estética.

Falou num novo romance quase a sair.

É sobre prémios literários [risos[.

Temos outra vez um alter-ego?

Não creio. Interessa-me tentar perceber ou explorar os meandros da decisão sobre a atribuição de um prémio. Porque se esquecem grandes livros e se louvam outros que não têm qualquer valor literário. Como concordamos e discordamos de julgamentos de júris. Estou a caricaturar, claro. É um livro satírico que pretendo divertido. Depois de terminar os Melrose, quis fazer uma revolução na metodologia. Pelo menos tentei. Foram anos a escrever. Cada página reescrita dezenas de vezes. Foi realmente doloroso. E pensei: “Estarei bloqueado, ou terei emperrado neste método?” Tentei mandar todo o meu sofrimento para o inferno. Quem disse que tem de ser dessa maneira? Talvez eu me pudesse divertir a escrever. Deixar-me levar pelo prazer da escrita, escrever rápido, colaborar com os meus editores em vez de os fazer desesperar. Espero que seja apreciado como foram os romances da saga Melrose, mas não da mesma forma pungente. Em suma, é uma sátira sobre prémios literários.