A Wit cria tecnologia para proteger os operadores das ameaças do Google, Facebook e Apple

A coimbrã Wit foi escolhida no ano passado por uma associação mundial do sector das telecomunicações para desenvolver aplicações. Acaba de ganhar um prémio de inovação da Cotec.

Luís Silva, presidente da Wit, dava aulas na Universidade de Coimbra quando fundou a empresa
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Luís Silva, presidente da Wit, dava aulas na Universidade de Coimbra quando fundou a empresa Adriano Miranda

É com indisfarçável orgulho que Luís Silva, de 46 anos, descreve como fundou e fez crescer uma empresa sem nunca pedir dinheiro emprestado. “Somos uma empresa de novas tecnologias com uma contabilidade à antiga, de contas certinhas”, diz o presidente, numa entrevista na sede da Wit, um edifício de aspecto industrial onde já funcionou uma garagem de automóveis e que fica num local isolado a poucos quilómetros do centro de Coimbra.

A Wit cria software para operadores de telecomunicações. No ano passado, foi seleccionada pela GSMA, uma associação de operadores de todo o mundo, para desenvolver aplicações para estes enfrentarem a ameaça dos serviços que permitem comunicar gratuitamente através da Internet, prejudicando as receitas das chamadas de voz e dos SMS. Ganhou a edição deste ano do prémio PME Inovação, atribuído pela associação empresarial Cotec (e de que o PÚBLICO é parceiro).

A história da empresa coimbrã não encaixa no percurso típico de uma start-up. No início, não havia sequer um plano para montar uma empresa. No final da década de 1990, doutorado há poucos anos em Engenharia Informática e a dar aulas na Universidade de Coimbra, Luís Silva achou que já tinha passado “muito tempo no laboratório” e queria “criar alguma coisa para o mundo real”. Com um grupo de “oito ou nove” alunos e investigadores, começou a desenvolver software para a área das telecomunicações. Na altura, o grupo funcionava no Instituto Pedro Nunes, um misto de laboratórios de investigação e de incubadora empresarial, criado pela universidade. Em 2001, por pressão de um dos clientes mais importantes, a Telecel (actual Vodafone), acabaram por criar a empresa: antes de nascer, a Wit já tinha receitas asseguradas.

Hoje, a empresa tem 173 pessoas, espalhadas por escritórios em Coimbra, Porto, Lisboa, Leiria e também nos EUA e no Reino Unido. Em 2009 eram menos de metade. Vai continuar a contratar: tem 30 a 40 vagas por preencher, tarefa que nem sempre é fácil, apesar dos números do desemprego. Na área da engenharia de software, “as universidades não estão a produzir um número suficiente de recursos”, observa Luís Silva.

Dos telemóveis à televisão
Este ano, a Wit espera facturar dez milhões de euros – será a primeira vez que a facturação atinge os dois dígitos. Portugal conta apenas para 20% das receitas e o gestor fala numa cultura de “obsessão pela exportação”. A fase de internacionalização começou em 2003, aproveitando o facto de a Vodafone ser um grupo multinacional. “Fomos levados ao colo pela Vodafone Portugal”, reconhece. Actualmente, trabalham para alguns dos maiores grupos de telecomunicações do mundo: o grupo Vodafone, a francesa Orange, a alemã Deutsche Telekom e a espanhola Telefónica, entre outros.

Serem escolhidos pela GSMA para criar as chamadas aplicações Joyn pôs a Wit no radar de muitas outras empresas, diz Luís Silva. A Joyn é uma marca criada para designar os serviços integrados de comunicações com que os operadores querem combater as ferramentas que permitem comunicar gratuitamente online, como o Skype, o Facebook e aplicações como o Viber e o WhatsApp – são aquilo a que na gíria do sector se chamam serviços over the top, por funcionarem sobre as infra-estruturas dos operadores. Confrontados com esta ameaça, alguns decidiram vender telemóveis com os seus próprios serviços de comunicação online já instalados. Por exemplo, a aplicação desenvolvida pela Wit permite a um utilizador enviar uma mensagem a outro – se o telemóvel estiver ligado à Internet, a mensagem segue por esta via; caso contrário, é enviada como um SMS. A adopção deste tipo de soluções por parte dos operadores está, porém, a ser lenta.

A Wit está também a trabalhar num produto para outra ameaça com que os operadores se deparam: as tentativas da Apple e, mais recentemente, do Google de mostrarem conteúdos na televisão, através da Internet. A tecnológica coimbrã está a desenvolver um aparelho semelhante ao Google Chromecast, que a multinacional americana lançou em Julho. O dispositivo da Wit tem o aspecto de uma grande pen USB e integra o sistema operativo Android. Foi concebido para substituir uma box televisiva tradicional. Uma das diferenças é que os conteúdos que o utilizador queira gravar não ficam no aparelho, mas antes na “nuvem” de servidores do fornecedor do serviço. Estão em curso negociações com operadores estrangeiros para a comercialização, algo que poderá acontecer já no próximo ano.