Só aconselhável a aventureiros

O que pode motivar um leitor do século XXI a embarcar na leitura de um livro de mil páginas que não promete facilidades? Não se lê de um fôlego, exige paragens, recomenda recuos. Os leitores habituais de Thomas Pynchon (Long Island, 1937) já fizeram o cálculo do risco. Mais ou menos, sabem ao que vão. Os outros, os que só agora se aventuram nas páginas de um dos nomes mais “sagrados” — pela polémica ou pelo culto — da actual literatura norte-americana, ou confiam num instinto aventuroso que se revele às primeiras linhas ou na crítica, nem sempre unânime quando se trata de avaliar a obra de um escritor que encontrou na História e na paranóia, nas teorias do caos e da conspiração, no absurdo humano e na humana capacidade de auto-destruição a matéria para exercitar uma escrita que desafia regras, boicota convenções e se torna ela própria protagonista maior de uma pós-modernidade que não encontra paralelo a não ser nalguns dos seus mais fervorosos seguidores/inspirados como David Foster Wallace.

Mason & Dixon é mais um livro de grande dimensão, de uma energia imensa, centenas de personagens, em grande parte maníacas, uma enorme dispersão temática, múltiplas acções em volta da acção central. Mas há em toda esta teia uma desconcertante humanidade em nada sacrificada ao estilo. Por vezes é o desespero a dominar, mas há também a gargalhada, a angústia da solidão e dos seus disfarces não raro estridentes, o assombro ante o inexplicado da natureza e das suas manifestações, a procura de um sentido mesmo quando se intui a sua impossibilidade e então é novamente o desespero do homem na sua consciência de ter de ser (existir) em estado de abandono. Em Pynchon são quase sempre os homens sós e é daí que nascem todos os absurdos. Seja em ambiente pré-apocalíptico ou nos recuos históricos onde todos os apocalipses parecem possíveis a quem os vive. É assim em Arco-Íris da Gravidade (livro publicado em português em 2012), considerado uma das suas obras mais emblemáticas, mas também em V. (1961) Leilão do Lote 49 (1966) ou do psicadélico Vício Intrínseco (2009).

Publicado em 1997, Mason & Dixon parte de uma história cheia de factos reais. A começar pelos protagonistas, Charles Mason (1728-1786) e Jeremiah Dixon (1733-1779), os ingleses encarregues pela coroa britânica para traçar a linha de fronteira entre a Pensilvânia e Maryland, que divide simbolicamente a América branca da negra, o norte do sul, nos anos que antecederam a independência, uma época em que a ciência vai ganhando pontos em relação à religião numa síntese cheia de contradições que Pynchon aqui sublinha nas suas manifestações mais paradoxais.

A história é narrada pelo reverendo Wicks Cherrycoke, “memorialista indigno de confiança”, inglês deportado em Filadélfia, aos dois sobrinhos a quem tem a missão de entreter, numa alusão já notada a Sherazade e ao seu carrasco, procurando sempre o difícil equilíbrio, a dose certa de encantamento. Aqui, a eficácia da narrativa irá medir-se pela atenção que Cherrycoke vier a obter dos dois rapazes, o que lhe vale, em troca, um prolongamento de alimentação e alojamento. Ele conheceu Mason e Dixon num navio na sua primeira missão conjunta em direcção à Cidade do Cabo, quando Mason aconselhava a olhar o céu. “Nós só cá estamos para observar o Céu”, diz a um marinheiro holandês que lhe então o interroga. “Observar o Céu… em vez de quê, de rezar?”

Cherrycoke, conduzido por Pynchon, opta pelo estilo do contador de histórias tradicional, mas com recursos surrealistas; coloquial, digressivo, com boa dose de pícaro, convocando a imaginação e deixando-a dominar sobre os factos ditos reais. “Foi há cerca de vinte anos — recorda o Rev. — que atravessámos juntos os Montes Allegheny e do alto contemplámos o Território do Ohio… tão lindo, uma Revelação, pradarias a estenderem-se até ao Horizonte… Mason & Dixon, e todos os McClean, Darby e Cope, não, Darby não esteve lá em 66… mas estavam o velho Sr. Barnes e o jovem Tom Hynes, aquele patife… Não sei que fim tiveram… alguns lutaram na guerra, outros escolheram a paz a qualquer preço, uns ficaram beneficiados, outros perderam tudo. Uns partiram para o Kentucky e outros, como o pobre Mason… tornaram-se Pó. Foi alguns anos antes da Guerra… o que fazíamos juntos naquela Terra era uma coisa corajosa, científica, para lá da minha compreensão, em última instância uma coisa insensata… estávamos a traçar uma linha reta no meio daqueles Sertões, com oito jardas de largura e em direcção a oeste, a fim de separar duas Propriedades concedidas quando o Mundo ainda era feudal, concessão que seria anulada oito anos depois pela Guerra da Independência.”

Entre a biografia, a memória, o ensaio, com a ficção a entrar pelos factos que constam dos livros sobre a colonização e construção da América, a imaginação a permitir-se a ir a limites que não têm nada a ver com verosimilhança — como um queijo gigante com direito a ser personagem, um cão que se permite a devaneios e diálogos, um futuro (e primeiro) presidente da América a falar iídiche, um relógio falante. Reconstituindo com muitas liberdades literárias uma época decisiva na História americana, neste que foi o seu quinto romance e lhe levou cerca de 20 anos a concluir, Pynchon constrói uma dupla literária com a riqueza e a complexidade de outras grandes duplas como Quixote e Sancho Pança. Mason, o “cientista”, formado em astronomia, recém-viúvo que não recupera do luto e vive numa nostalgia permanente e silenciosa, e Dixon, o seu ajudante, homem de origens humildes, tagarela e fanfarrão, que gosta de copos e de mulheres, explora aventuras e que serve a Pynchon para alguns dos momentos mais divertidos do livro, onde pratica a sátira social, expõe vícios e feridas que permanecem abertas na sociedade americana, como o racismo.

Através de Mason e de Dixon e do que os distingue, Thomas Pynchon convoca o leitor para um universo onde entrar nunca é confortável. Continuar é um desafio, mas há a certeza, para quem se atrever a seguir, de que algo vai mudar. Isso só a grande literatura é capaz. Haja então fôlego.

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