A verdade ou a mentira na Terra de Ninguém, filme de Salomé Lamas

Sem ser uma investigação histórica e muito menos um tribunal, o filme é uma belíssima narrativa, que revela verdades da vida de um português, comando, mercenário, assassino a soldo e sem-abrigo.

Lembrei-me do começo do livro de Robert Musil O Homem sem Qualidades, também iniciado com uma visão cósmica, neste caso meteorológica, de um belo dia de Agosto de 1913, de “pressão barométrica mínima” a pairar no Atlântico. Daí, as linhas escritas aproximam o leitor de uma cidade, no caso Viena, com bairros, uma rua, a casa do homem sem qualidades e, finalmente, este último. No filme Terra de Ninguém, de Salomé Lamasque agora chega às salas de cinema (estreado no Doclisboa 2012, recebeu então quatro prémios), uma sala escura, com paredes carcomidas, uma cadeira, pano preto, quase aprisionada, vazia, é o cenário. Ouvem-se vozes, a sala ilumina-se e começa a “função”, como se a verdade e o conhecimento de uma pessoa, de um homem, se iluminasse gradualmente à medida que o tempo do filme passa.

Depois há três dias, divididos por quadros, entre 2011 e 2012, que remetem para um relato do tempo passado, entre 1966 e os anos 90, com um recuo à infância, e ao presente de então do homem. O olhar e a curiosidade, quase de voyeur, do espectador, tentam aprisionar a verdade do homem, acalentando uma vontade irreprimível de o conhecer, através das histórias relatadas no contexto de Portugal ditatorial e colonial, na segunda metade do século XX, e da democracia (?) em Espanha. O homem diz chamar-se José Paulo Sobral de Figueiredo, ter sido engenheiro electrotécnico e começa a contar episódios da sua vida. Sabe e quer contar. Por quê? Não se sabe.

Talvez queira deixar um rasto da sua passagem, procure o contacto e a empatia de quem o ouve e filma, apesar de saber que o que tem para contar não resulte em simpatia, porque as suas histórias revelam um soldado-comando, um mercenário e um killer, cuja profissão é matar. Empatia encontra em Salomé Lamas, de quem não há simpatia, nem julgamento, embora este esteja presente através das perguntas, que não ouvimos mas que intuímos. Poderá existir simpatia para com um homem que foi comando na guerra colonial, entre 1966 e 1980/81, em Angola e Moçambique, que menciona os pretos como macacos ou saguins a saltarem da sanzala, desfeitos pelas granadas? “Cada sanzala, cada granada”, conta o homem. Tratava-se do “reembolso”, diz ele, embora reconhecendo que talvez houvesse um pouco de sadismo. “Mas para grandes males grandes remédios.” Paulo Figueiredo gosta de utilizar provérbios portugueses, e este é repetido à saciedade.

O espectador já está então envolvido na história, seguindo-a sofregamente, para tentar saber mais e conhecer melhor Paulo Figueiredo, a(s) verdade(s) e mentira(s) de um homem no contexto – errado – da História da segunda metade do século XX português ditatorial e colonial. Afirma nunca ter eliminado “pessoas”, mas só “aqueles que não prestam”. Paulo Figueiredo reconhece que o “cheiro do sangue e da pólvora” é viciante, tal como o são a coca e a heroína. A “adrenalina” provocada por esse cheiro foi certamente provada por ele, pois até confessa – e talvez seja das partes mais genuínas, pois seria pouco provável inventar tal facto – que, em época de paz, se deslocava à Urgência do Hospital de S. José para ver, sentir e cheirar de novo esse sangue. Nessa passagem particularmente impressionante do filme, Paulo parece querer provocar uma reacção de nojo ou repugnância na interlocutora, que o filma.

O segundo dia decorre do primeiro, pois é o relato da vida de mercenário. E, assim se chega ao terceiro dia, o de Paulo Figueiredo como assassino a soldo dos Grupos Antiterroristas de Liberación (GAL). Por breves momentos, o filme torna-se documental e a cineasta passa a investigadora, contextualizando a actuação, entre 1981 e 1987, do grupo terrorista, criado pelo Estado espanhol, durante a vigência do Governo Felipe Gonzalez, do PSOE, que deixou a democracia espanhola em xeque. Democracia que se autodestrói cada vez que utiliza a tortura e o assassinato. Terror de Estado justificado pelo terror dos “terroristas”. Quase tudo o que Paulo conta do GAL pode ser comprovado pela investigação feita pela imprensa espanhola. Ou viveu tudo o que conta, ou apropriou-se da identidade de alguém que o viveu e lhe contou e/ou ele próprio investigou. À pergunta de quanto vale a vida de um Homem, responde com outra: “Homem como eu ou como eles?”

Em voz off, ouvimos que Paulo não tem quaisquer documentos ou registos oficiais. “Quem é Paulo de Figueiredo?” – pergunta Salomé Lamas, dando pistas, sem respostas, e deixando o próprio espectador, com a sua curiosidade atiçada, decidir por ele próprio e investigar por sua conta. Mas há uma verdade – essa sim – que ainda nos falta. O tal local ermo mostrado de cima, no início, é agora calcorreado por um homem que transporta água, bebe, canta e ri com os seus companheiros de vida de sem-abrigo, dois africanos. Paulo é de facto um dos muitos sem-abrigo, sem cara, sem existência reconhecida, aos quais se vira as costas para não se saber que existem, e cuja ténue pertença à humanidade comum passa pelos contactos com a realizadora, que conta o resto da vida breve deste homem, do qual sabe muito, sem nada poder provar da sua veracidade através de documentos.

O resto é quase tudo e está no filme, não se deixando aprisionar por qualquer comentário que dele se faça. No fim do documentário, que aqui não se desvenda, a realizadora revela “a aflição” e a urgência de dar a conhecer Paulo, que todos devem conhecer e, se não o conhecem, é por culpa deles. Essa urgência foi cumprida. O filme aí está, como obra de invulgar maturidade, colocando questões sobre o relacionamento da memória com a História, contribuindo para o conhecimento de um (do) ser humano, na sua complexidade. Sem ser uma investigação histórica – e muito menos um tribunal –, pois faltam documentos/fontes que provem e contextualizem o que Paulo relatou, o filme é uma belíssima narrativa, que revela verdades da vida de um português, comando, mercenário, assassino a soldo e sem-abrigo. Tudo isso, de tudo um pouco ou nada disso, pois nenhum ser humano se deixa verdadeiramente encarcerar numa definição. Paulo existiu. Daí a necessidade de o filmar. Graças a Salomé Lamas, colocando-se no lugar do outro, por mais repugnante que seja a sua vida, não para julgar, nem perdoar, abre-se uma nesga de oportunidade para compreender como foi (é) possível este homem.

Historiadora