Salmond apresenta a visão para uma Escócia independente "mais próspera"

Chefe do Governo autónomo apresentou "livro branco" com os argumentos a favor da independência. Referendo histórico está marcado para 18 de Setembro.

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Apenas um terço dos quatro milhões de eleitores escoceses apoia sem reservas a independência ANDY BUCHANAN/AFP

Em contagem decrescente para o referendo, o governo autónomo da Escócia apresentou nesta terça-feira os seus argumentos a favor da independência, num livro em que condensa os planos para a eventual saída do Reino Unido e as suas propostas para “uma sociedade mais democrática, próspera e justa”. A credibilidade do documento, com 670 páginas, é decisiva para determinar as hipóteses (até agora magras) de sucesso da campanha pelo “sim”.

Na apresentação do “livro branco” – que alguns definiram como o documento mais importante da história da nação desde a Declaração Arbroath, que em 1320 proclamou a independência escocesa –, o primeiro-ministro Alex Salmond sublinhou que estão ali reunidas respostas a 650 perguntas, mas, “em última análise, o debate vai resumir-se a uma única”: “Acreditam as pessoas que vivem e trabalham na Escócia que é a elas que cabe tomar as decisões sobre o seu futuro?”

O documento tem o duplo objectivo de mobilizar o campo independentista, fornecendo-lhe argumentos na campanha para o referendo de 18 de Setembro, e cativar a maioria da população que continua céptica sobre os benefícios de romper a ligação de três séculos com Londres. “Nós temos as pessoas, as competências e os recursos para fazer da Escócia um país mais bem sucedido”, disse o líder do Partido Nacional Escocês (SNP) que forçou o Governo britânico a aceitar o referendo depois de, em 2011, ter vencido com maioria absoluta as eleições para o parlamento local.

Salmond reafirmou que uma Escócia independente manterá a libra como moeda – ainda que Londres assegure que esse não é um dado adquirido e que, a concretizar-se, forçará Edimburgo a respeitar as regras fiscais –, a rainha como chefe de Estado e assumirá o controlo de 90% das receitas petrolíferas do mar do Norte – uma reivindicação geográfica que o Governo britânico não reconhece.

Mas a visão de futuro que tem para a Escócia diverge em quase tudo o resto do rumo seguido pelo Governo conservador britânico, no que será um importante trunfo junto dos eleitores escoceses, tradicionalmente de esquerda, ainda que os analistas avisem que se trata de uma receita gasta e sem sustentabilidade económica. Entre as suas promessas está a redução dos impostos para as empresas em três pontos percentuais, uma rede de pré-escolar gratuita e universal, a garantia do aumento do salário mínimo em linha com a inflação e a manutenção do actual sistema sem custos no ensino superior e nos cuidados aos idosos.

Salmond mantém também a promessa de retirar o quanto antes os submarinos nucleares Trident das bases escocesas e, em alternativa ao Exército britânico, criar uma força de defesa de 15 mil efectivos. Sobre a política externa o primeiro-ministro escocês admitiu que muito dependerá das negociações que se seguirem a uma vitória no referendo, mas insistiu que Edimburgo pretende manter-se na União Europeia (embora rejeite à partida o compromisso, exigido a todos os candidatos, de aderir ao euro) e na NATO. Anunciou ainda que planeia abrir 70 a 90 embaixadas pelo mundo.

“A nossa visão é a de uma Escócia independente que reconquiste o seu lugar enquanto membro igual na família das nações. Contudo, não queremos a independência como um fim em si só, mas como um meio para mudar a Escócia para melhor”, resumiu o primeiro-ministro escocês.

Alistair Darling, líder da campanha pelo “não”, não precisou de ler as 670 páginas do livro para acusar o SNP de não ter respondido a questões que são cruciais para o debate. “Que moeda vamos usar [se Londres rejeitar a união monetária]? Quem vai definir as nossas taxas de juro ou quanto terão os impostos de aumentar [para cobrir os novos gastos]”, questionou o líder da campanha Melhor Juntos numa reacção à BBC.

Para Darling, que foi ministro das Finanças do Governo trabalhista de Gordon Brown, “é uma fantasia acreditar que a Escócia pode deixar o Reino Unido e manter todos benefícios que lhe estão associados” e reafirmou que, a bem da credibilidade das suas propostas, o SNP explique como pretende financiar o aumento da despesa e apresente um “plano B” para a sua futura moeda.

A dez meses da consulta, as sondagens indicam que apenas um terço dos quatro milhões de eleitores escoceses apoia sem reservas a independência, mas há números divergentes sobre a percentagem de indecisos: a maioria aponta para 16% do eleitorado, mas um estudo recente admite que poderão ser o dobro. É nesta faixa que as duas campanhas vão jogar tudo nos próximos meses, na contagem decrescente para um referendo em que além das reivindicações históricas dos independentistas escoceses se jogará a redefinição política do Reino Unido.