Águia-real, a história de um homem e da sua Rainha

Chamou-lhe “Rainha”. Ou a sua velhinha. Miguel Dantas da Gama acompanhou, durante anos na Peneda-Gerês, os voos da última águia-real que nidificava neste território. O seu último livro, mais do que uma obra sobre a quase extinção de um magnífico bicho alado, é um depoimento sobre os desafios do nosso único parque nacional.

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A Aquila chrysaetos em pleno voo Miguel Dantas da Gama
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Miguel Dantas da Gama Adriano Miranda
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Adriano Miranda
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Adriano Miranda

Na aldeia de Lordelo, no interior do Parque Nacional da Peneda-Gerês, começaram a chamar-lhe “o da águia”, de tanto o verem percorrer os mesmos caminhos, sábado após sábado, à procura dela. E ele era “o da águia”. Assim no singular, naqueles dias após o final de 2003 em que a Rainha, a sua velhinha, passou a sobrevoar sozinha aqueles céus, a caminho de uma extinção aparentemente inevitável.

Miguel Dantas da Gama, ambientalista, fundador do Fundo para a Protecção dos Animais Selvagens, acompanha estas aves imponentes desde 1986 no PNPG. O livro Uma longa caminhada com as Águias-Reais da Peneda-Gerês, agora lançado (edição Fapas e Canhões de Pedra), é o resultado desta paixão de um homem por uma das rapinas mais fascinantes do planeta. A maior entre as que nidificam em Portugal.

“O mundo das águias está a perder-se porque elas o exigem selvagem e o homem cada vez menos o consente”. Poderia ser uma conclusão. Mas é a frase que abre este livro que reflecte o profundo conhecimento que Miguel Dantas da Gama acumulou de décadas a percorrer caminhos nas serranias do Gerês. Um livro no qual se se escutam os tiros das caçadas e o uivo do lobo em fuga dos cães, um livro no qual se sente o cheiro dos incêndios, muitos deles provocados por queimadas, e se percebe, na desolação do autor, as consequências da atitude do homem perante a natureza. O Gerês já tem poucos espaços selvagens, e alguns deles, as matas do Ramiscal, da Albergaria, e do Cabril, foram, nos últimos anos, afectados pelo fogo e pela incapacidade das sucessivas direcções do PNPG, cada vez mais despojadas dos meios necessários para inverter a degradação deste espaço ímpar.

Nada disto ajudou à preservação dos habitats da águia-real. Quando Miguel por ali andava no início da década de 80, haveria, nos mais de 70 mil hectares do Parque, quatro casais. E apesar de a literatura referir sempre que a população estava “estabilizada” em torno daqueles números, ele testemunhou, e denunciou publicamente o definhar desta espécie, acompanhando já neste século, o desaparecimento do último casal. “O pressentimento da perda das águias-reais no parque nacional nunca me abandonou”, confessa este homem que percorreu, sozinho e a pé, milhares de quilómetros. Registando, numa dezena de volumes de anotações, em desenhos e gigas de fotografias, o seu voo, os seus pousos favoritos e até algumas aproximações que o levaram, em alguns momentos, a acreditar que a Rainha não só tolerava a sua presença, como o saudava, por vezes.

Foi a partir do final de 2003 que Miguel Dantas da Gama transformou este seu projecto de vida numa urgência. Quando deixou de ver o macho, e o contou ao jornalista Pedro Garcias, do PÚBLICO – jornal que então fez capa com a imagem desta rapina e o risco de extinção que apertava o cerco – percebeu que tinha de tinha dar ainda mais de si a esta “missão”.  Em 2004 e 2005, munido de uma nova câmara de vídeo, com melhor zoom óptico, poucos foram os fins-de-semana em que não procurou um encontro com a Rainha. E ela parecia fazer-lhe a vontade, nem que fosse pousando, várias vezes, num pinheiro seco, esbranquiçado pela morte, onde a sua penugem escura, sob a cabeça alva, se destacava. Um dia, chegou a permitir que ele, rastejando qual vassalo, se chegasse a uns cem metros de distância, deixando-se fotografar, assim imóvel. 

Mais difícil, mas nem sempre impossível, seria fotografar todos os animais que o surpreenderam, nestas caminhadas pela serra. Ao atraí-lo para ali, a Rainha ofereceu-lhe não apenas a graciosidade dos seus voos mas a possibilidade de enriquecer – e enriquecer-nos – com conhecimento sobre a flora e fauna destas montanhas, fazendo-cruzar com carvalhos e azevinhos centenários, e dando-lhe a ver a rara gralha-de-bico-vermelho, o falcão-abelheiro, a águia-de-Bonneli, a águia-cobreira, o gato-montez, o melro-de-peito-branco, entre muitos outros animais. E aproximaram-no claro, dos lobos. Esses que um dia, numa rara incursão em que estava acompanhado, responderam, em coro de alcateia, a um uivo que um amigo fez ecoar no vale. Esses que um dia lhe apareceram, no meio de uma estrada e cujos sinais de outras presenças furtivas ele aprendeu a reconhecer.

Miguel não é biólogo. Aliás, enquanto engenheiro electrotécnico, aguentou a tensão de trabalhar para empresas ligadas ao ramo energético, cujos projectos, como por exemplo os parques eólicos, conflituam, algumas vezes, com a sua defesa de espaços naturais livres de qualquer presença humana permanente. Antes de deixar este emprego, aos sábados, manhã bem cedo, vestia o fato de ambientalista, e punha-se a caminho, solitário como a sua Rainha. Na aldeia por onde passou muitas vezes, a caminho do Ramiscal, de tal modo se habituaram a ele que, um dia, lhe ofereceram “um vidro” (frasco) de mel. Mas aquilo que o impressionou mais foi perceber que, passados alguns anos de contacto, e de muitas informações trocadas, a população começou a admirar, também ela, aquele bicho de asas amplas que aqui e ali lhe roubava uma galinha, um galo ou até gatos, e do qual se dizia que tirava os olhos aos cabritos, para estes não encontrarem os progenitores.

Influenciado que foi, nesta paixão, pelo espanhol Félix Rodríguez de La Fuente, que na década de 70 apresentava o programa El Hombre Y La Tierra, acima de tudo, Miguel Dantas da Gama não desiste do seu papel como divulgador. As suas obras sobre as árvores da Peneda-Gerês sobre espécies, animais e vegetais, características do nosso parque nacional, disfarçam a ausência de obras acessíveis ao grande público sobre este espaço natural ímpar. “O que não ajuda a população a desenvolver o gosto pela natureza”, avisa o fundador do Fapas. Quando a SIC visitou Lordelo, numa reportagem com o homem da águia, a gente da aldeia deixou-o orgulhoso, pois viu ali mesmo, no discurso deles perante as câmaras, que, em poucos anos, o seu esforço mudara uma percepção negativa que persistira durante gerações.

Apesar de situadas no topo da cadeia alimentar, as águias sofreram sempre com o homem. Pelo fogo – como o de Agosto de 2006, no Ramiscal, cujos efeitos foram denunciados publicamente por Miguel Dantas da Gama – que lhes encurtou habitats e lhes roubou comida; pela pilhagem dos ninhos, mesmo em escarpas aparentemente mais inacessíveis; e pelo envenenamento. Neste caso, se o alvo foi sempre o lobo, atraído para a morte por uma peça de gado com veneno, as rapinas que partilhavam esta caça fácil acabaram sempre por sofrer. A isto somam-se problemas no ciclo reprodutivo destes animais, a morte de um macho, e eis o que sobra: um parque dependente de que os esforços de reintrodução que estão a ser feitos na Galiza, lhe tragam, com o vento, a “reincarnação” da águia-real.

E poderá acontecer com a águia o que se passou com a cabra-montês? A 20 de Fevereiro de 1990, enquanto caminhava para mais uma jornada com as águias, Miguel Dantas da Gama teve uma visão que deixara de ser possível durante praticamente todo o século XX, por causa dos excessos da caça. Cabras selvagens. Uma, e outra e outra. Decidiu contá-lo. Ao PÚBLICO, e ao Expresso. No parque não gostaram. Estas Capra pyrenaica tinham atravessado a fronteira, e não se sabia se por cá ficariam. Mas não só ficaram, como são hoje em dia às centenas. Entusiasmados, alguns, ao longo dos anos, chegaram a pedir que se encetasse um esforço de reintrodução do urso pardo, que teve aqui um dos seus últimos espaços em Portugal. Seria complicado, nota Miguel. Que equilíbrio poderia um animal destes encontrar num sítio onde o lobo, protegido por lei, ainda é morto a tiro, como aconteceu com uma fêmea de uma alcateia, há poucas semanas?

Miguel chegou a ver uma águia-real jovem, imatura, dessas com sotaque galego, na companhia da sua Rainha. Mas foi sol de pouca-dura. A Velhinha não estava para flirts, por mais graciosos, e imponentes, que possam ser os voos de acasalamento destas aves. E em 2009, ela desapareceu. A sua luta tornou-se um luto. E voz ainda lhe cai, quando recorda esses dias de Verão em que, sábado após sábado, foi percebendo que a deixaria, definitivamente, de ver. Entretanto, um desses casais vindos de Espanha ocupou um dos antigos ninhos, e o ambientalista, de olhos ainda a brilhar, garantiu, agora, ao PÚBLICO, que um aguioto que ali nasceu, já este ano, sobreviveu aos primeiros meses, preparando-se para tomar o seu lugar nos céus da serrania. Ele, “o da águia”, estará lá para os seguir.