Opinião

Portugal, Polónia e a Parceria de Leste em Lisboa

Seria útil que a convergência luso-polaca pudesse desenvolver-se numa estratégia comum em Bruxelas.

Na passada sexta-feira, os noticiários internacionais abriram com a notícia de que a Ucrânia decidira suspender as negociações com a União Europeia relativas à chamada Parceria de Leste. (Estas negociações deveriam conduzir à assinatura de um acordo na próxima quinta-feira, em Vilnius).

Naquela mesma sexta-feira, o embaixador da Polónia em Portugal, Bronsilaw Misztal, reunia em Lisboa altos representantes da Geórgia, Moldávia e Ucrânia - incluindo o Embaixador Valeriy Pyatnytskiy, chefe da comissão ucraniana nas negociações com a UE.

Não estou seguro de que tenhamos, em Portugal, avaliado a importância dos dois eventos: por um lado, a suspensão das negociações por parte da Ucrânia; por outro lado, o facto de no mesmo dia se reunirem em Lisboa, por iniciativa de Varsóvia, altos representantes de países envolvidos na Parceria de Leste.

Desde que chegou a Lisboa, há cerca de ano e meio, Bronsilaw Misztal tem insistido na sua visão de que a Polónia e Portugal podem potenciar a sua influência na União Europeia se souberem articular as políticas respectivas. Não se pode dizer que tenham sido meras palavras de cortesia. Misztal tem multiplicado iniciativas para aproximar Portugal e a Polónia - uma ideia que poderia ser útil à inércia da nossa embaixada em Varsóvia.

Tenho referido aqui apenas uma ínfima parte desse esforço notável do embaixador da Polónia. Mas o evento da passada sexta-feira ultrapassa tudo o que fora feito até agora, incluindo uma palestra do nosso secretário de estado dos assuntos europeus, Bruno Maçães, na Universidade de Varsóvia há cerca de um mês. O encontro da Parceria de Leste em Lisboa, na passada sexta-feira, é uma iniciativa tocante que merece a atenção dos portugueses.

Em primeiro lugar, ela deveria ajudar-nos a superar o entediante paroquialismo de grande parte dos nossos debates caseiros sobre a União Europeia. É penoso discutir sobretudo se nos pagam, se não pagam, e se evidentemente nos deviam pagar. Há mais Europa para além do défice, para parafrasear, em sentido potencialmente diferente, o célebre comentário de um antigo Presidente da República.

A Europa não é, com efeito, primordialmente acerca de transferências financeiras entre países membros, nem já agora, sobre sonhos de moedas únicas - matérias sobre as quais, aliás, nunca escondi aqui o meu moderado cepticismo. A Europa é uma comunidade de nações cujos valores desafiam autocratas e fundamentalistas por esse mundo fora. Foi por isso que a Rússia pressionou a Ucrânia para impedir o acordo sobre a parceria de Leste. Não foi por causa do euro, nem das directivas de Bruxelas sobre o tamanho das bananas. Em rigor, sabemos agora que, em matéria de políticas específicas, não havia desacordo de fundo entre a Ucrânia e a União Europeia. A suspensão das negociações foi política, não por desacordo sobre políticas.

A grande razão política que levou a Rússia a pressionar a Ucrânia é aliás euro-atlântica, não apenas europeia. A União Europeia é percepcionada como ameaça pela Rússia porque a Europa é berço da civilização da liberdade euro-americana. Separada da América, a Europa seria um jogador menor no xadrez mundial, como muitas vezes aconteceu no passado, para dizer o mínimo. Neste ponto crucial, os interesses de Portugal e da Polónia voltam a encontrar-se.

Sendo periféricos relativamente ao centro continental e dotados de vizinhos continentais poderosos, Portugal e Polónia têm interesse comum em evitar uma União Europeia excessivamente centralizada e uniforme. Simultaneamente, têm interesse comum em ancorar a comunidade europeia na grande aliança transatlântica com os EUA, e mais além. Os dois países têm por isso razões acrescidas para sustentar o ambicioso projecto de mercado comum entre a Europa e os EUA.

Ao realizar uma mini-cimeira de parceiros do Leste europeu em Lisboa, o embaixador da Polónia transformou Lisboa no centro improvável de um tema crucial para a Europa central e oriental. O lado português esteve presente e marcou a sua perspectiva, através de Carlos Moedas, Jorge Braga da Macedo e Luís Amado, bem como de professores e estudantes da Universidade Católica. Seria útil que esta manifestação de convergência luso-polaca pudesse desenvolver-se numa estratégia comum em Bruxelas.

Existem seguramente condições civis para essa convergência - basta observar como os cinco voos directos semanais entre Lisboa e Varsóvia, e vice-versa, estão invariavelmente cheios. A empresa portuguesa Jerónimo Martins é hoje um dos grande empregadores na Polónia, através da rede de lojas Biedronka. O banco português Millennium-BCP é também uma presença incontornável em Varsóvia. As condições existem. Resta esperar que a visão política acompanhe a oportunidade. Mas isso parece requerer que nos libertemos da percepção de que o futuro da União Europeia em nada de crucial pode depender de nós.

Professor universitário, IEP-UCP e Colégio da Europa, Varsóvia