Opinião

Hannah Arendt: a não-banalidade do bem

É a não-banalidade da actuação dos “Justos” que nunca devemos deixar de sublinhar.

O filme Hannah Arendt (HA) tem como suporte principal uma obra da própria filósofa, Eichmann in Jerusalem. A Report on the Banality of Evil (antes, uma reportagem no New Yorker).

Na minha opinião, quem o vir reterá sobretudo a noção de “banalidade do mal”. Por isso, limitar-me-ei a tecer algumas breves considerações sobre a suposta actuação “banal” de Adolf Eichmann (AE) de que aí se fala. AE foi responsável pela deportação e extermínio de milhões de judeus: como considerar a sua atitude banal?

Ao contrário do que se poderia pensar, ao longo do livro poucas vezes nos deparamos com a expressão “banality of evil”. E, quando aparece, as explicações são parcas.

Para HA, AE não era estúpido. Mas, incapaz de pensar verdadeiramente, limitara-se a cumprir ordens e nunca soubera ou sentira que estava a agir mal. Isto apesar de reclamar ter lido a Crítica da Razão Prática de Kant, afirmando que tinha tentado viver de acordo com o seu imperativo categórico, de que, para espanto do Tribunal, deu uma definição fundamentalmente correcta.

Embora HA tenha prometido que iria trabalhar melhor a noção de banalidade do mal, tal tarefa ficou por cumprir. Por isso, S. Benhabib considera que a expressão “banalidade do mal”, por remeter para questões não resolvidas sobre o pensar, o juízo e a acção moral, é uma “infelicidade terminológica”, acreditando que o conceito que fará mais justiça ao pensamento de HA no campo da reflexão moral e jurídica não será esse, mas o de “crimes contra a humanidade”.

Também para R. Bernstein, HA não chegou a dar uma resposta satisfatória sobre as relações que existiriam entre pensar, querer, ajuizar e mal, não tendo podido escrever o que seria a última parte de The Life of the Mind, precisamente sobre o ajuizar. Segundo ele, teria ficado por provar que o pensamento tem um efeito libertador sobre a faculdade do juízo e que deveríamos esperar tal inter-relação em momentos de crise.

No fundo, pergunta Bernstein, pode-se dizer que o pensamento de Heidegger (de quem HA foi aluna querida e amante) libertou a sua faculdade de julgar, quando afinal sabemos que obedeceu a certas ordens do regime nazi? O que falhou nesse pensamento? Por outro lado, como explicar a falta de pensamento de AE e a sua presença noutras pessoas, mesmo em momentos de crise? A conclusão de Bernstein é clara: HA nunca teria dado uma resposta satisfatória à questão de saber qual a relação intrínseca entre capacidade de pensar e mal, pois tão-pouco teria conseguido distinguir “o pensamento que pode impedir catástrofes do pensamento que não o pode”.

Aliás, se o pensar implica obrigatoriamente a capacidade de nos desdobrarmos em dois, “fazendo companhia a nós próprios”, através do historiador D. Cesarani dificilmente se fica convencido de estarmos perante um homem sem imaginação ou sem capacidade de pensar. Para ele, “E. teve de aprender o que significava ser genocida e então escolheu sê-lo”. Decisão terrível, diz o psicanalista D. Sibony, “de modo algum banal. Uma vez tomada, o resto segue-se sem emoção”. A própria HA, nesta reportagem, tem momentos em que implicitamente reconhece a AE esta capacidade de “desdobramento”.

Pela minha parte, considero a expressão “banalidade do mal” pedagogicamente perigosa, pois poder-se-á dar a impressão de que o mal é algo sem gravidade. Aliás, a própria HA teve de insistir em que este mal banal não era comum, correspondendo mesmo ao aparecimento de um novo tipo de crime. Mas precisamente por causa destas óbvias confusões, não penso que se deva insistir na suposta banalidade do mal, mas sim em que, nas mesmas circunstâncias em que viveu AE, houve quem se negasse a ser um/a Eichmann. Embora sabendo-se como o ser humano pode ceder à violência extrema, o que deve ser posto em relevo é a resistência a essa tentação, como mostra o respeito que temos por todos/as os/as “Justos/as”, por todas as Sophie Scholl e todos os Aristides de Sousa Mendes, que se recusaram a obedecer a ordens que implicavam o abandono dos mais vulneráveis a um destino que, por vezes, já se sabia ser um destino de morte. Sabemos que entre a gravidade e a graça (S. Weil), houve os/as que, em circunstâncias difíceis, escolheram a graça. É a sua não-banalidade que nunca devemos deixar de sublinhar.

Docente aposentada da Universidade do Minho ([email protected])