Sampaio defende que consenso só se consegue “num quadro de legitimidade democrática renovada"

Não esteve presente na Conferência, mas na mensagem que enviou, o ex-Presidente Jorge Sampaio foi claro na interpretação da situação política.

Jorge Sampaio diz estar preocupado mas não desanimado
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Jorge Sampaio acabou por dissolver a Assembleia da República Sérgio Azenha

O “consenso” a que o Presidente da República e o Governo têm apelado já só se atinge com eleições. No texto disponibilizado pela organização durante a iniciativa, Sampaio defendeu “um esforço sério e responsável de congregação nacional” para “superar o bloqueio e a desesperança que ameaçam o nosso futuro colectivo”.

Mas esse esforço, na opinião do socialista que ocupou o Palácio de Belém antes de Cavaco Silva, já só era possível “num quadro político de legitimidade democrática renovada”.

Mas não foi Sampaio o único a defender novas eleições. "Continuaremos a luta, absolutamente convictos de que só há um caminho - a ruptura com a política de direita, a convocação de eleições e uma política patriótica e de esquerda", afirmou o comunista Ruben de Carvalho. A actual presidente da Assembleia municipal de Lisboa, Helena Roseta, defendeu o mesmo, tendo empolgado a assistência ao instar os presentes a fazer “frente” ao Governo, através da “imaginação e criatividade”, assim os fazendo sair do poder.

Também Marisa Matias defendeu a queda do Governo: “Demitam-se, que já vão tarde. Utilizam a troika como álibi e o Tribunal Constitucional como bode expiatório do seu falhanço colossal", acusou.

O social-democrata Pacheco Pereira optou por destacar o que unia os presentes na iniciativa. Que era, afirmou, a disponibilidade para “atacar a iniquidade, a injustiça, o desprezo, o cinismo dos poderosos”.

Por seu turno, o presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz, Alfredo Bruto da Costa, acusou o Governo "abuso de poder". "Não basta a um Governo ter sido eleito para ser democrático. É condição necessária, mas não é suficiente. É preciso que seja democrático no modo de exercer o poder. O Governo movimenta-se como se tivesse caído de paraquedas numa selva, sem passado, memória, lei, nada. Sem nenhuma obrigação que não satisfazer os caprichos da troika. Infelizmente para os governantes e para a 'troika', escasseiam moedas e sobram pessoas", defendeu.

O general Pinto Ramalho – ex-Chefe de Estado Maior do Exército – focou o seu discurso nas Forças Armadas. Aludiu aos cortes para contrariar a ideia de que era possível fazer mais com menos. “Com menos faz-se menos, eventualmente pior”, disse antes de alertar que as medidas em curso na Defesa poderiam levar à “governamentalização da instituição militar”.

Mas a maior revolta e as mais sonoras vaias da noite estiveram, sobretudo, centradas em Cavaco Silva. Quando Mário Soares ousara “dizer, patrioticamente, senhor Presidente demita-se!”, já a Aula Magna apupara o actual Presidente várias vezes. E voltou a fazê-lo quando Ruben de Carvalho acusou o chefe de Estado de prestar “toda a colaboração” ao Governo.

Além de Jorge Sampaio, outras dez personalidades enviaram mensagens à conferência. Entre estes contavam-se o actual presidente da câmara do Porto, Rui Moreira, o general Loureiro dos Santos, o pai do actual ministro da Defesa, Fernando Aguiar-Branco e o social-democrata António Capucho, que afirmou identicar-se “no essencial, com os propósitos do evento”.