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J.F.K.: o príncipe imperfeito

Já se sabia da infidelidade, da doença, da corrupção, das hesitações e imperfeições políticas. Mas os bocadinhos de verdade que os historiadores e outros autores foram desvendando não deixaram mossa. Até agora: Kennedy já não vive no coração da América e já se pode dizer — mesmo que também não seja verdade — que não passou de um medíocre.

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Hoje, só 10% dos americanos disseram que Kennedy foi o melhor Presidente AFP

Para celebrar os 50 anos da morte de John F. Kennedy, uma boa parte da comunicação social americana optou por uma abordagem diferente. Deixou de lado as habituais elegias e elogios, fez uma “prova dos factos” e o Presidente assassinado passou de brilhante a medíocre.

Se, quando morreu, John F. Kennedy tinha “a grandeza de Thomas Jefferson, Abraham Lincoln e Franklin Roosevelt” (The New York Times), agora não passa de um Presidente “entre o suficiente e o medíocre” (The Washington Post).

Não há dados novos a sustentar esta viragem do olhar dos media sobre Kennedy. Os documentos históricos são os mesmos e os conteúdos conhecidos. Mas alguma coisa mudou, a começar pela memória pública do Presidente morto em Dallas no dia 22 de Novembro de 1963. Dois terços dos americanos não tinham nascido quando JFK desapareceu, ou eram tão novos que não se lembram desse dia e do trauma nacional dos anos seguintes. O que concorda com o resultado da sondagem publicada no início de Novembro pelo New York Times – só 10% dos inquiridos disseram que Kennedy foi o melhor Presidente (em 2000 eram 85%, segundo uma sondagem Gallup), atrás de Ronald Reagan, Abraham Lincoln e Bill Clinton.

“Há sempre um dia em que o nevoeiro através do qual olhamos [certas figuras] desaparece”, escreveu Larry Sabato no livro The Kennedy Half Century. “Estamos a chegar a esse momento no caso de John Kennedy”, diz o professor de Ciência Política na Universidade da Virgínia, que falou com o PÚBLICO por email. Para o aniversário, Sabato encomendou a sua própria sondagem e diz que J.F.K. ainda é um dos Presidentes mais queridos.

Um dado (o da qualidade da presidência) não invalida o outro (ter-se simpatia por este Presidente). Mas a existência destes dois níveis de olhar sobre um só homem pode ajudar a explicar este novo debate público sobre a herança Kennedy. Durante quase 50 anos, a maior parte do que se escreveu sobre JFK – só livros foram mais de 40 mil e da maior parte deles o historiador Robert Caro disse serem um grande “vazio” – insistiu na mitificação de uma figura que começou a ser idolatrada mal as balas lhe acertaram no corpo. Muitos dos novos textos sobre John Fitzgerald Kennedy procuram fazer exactamente o contrário. Uns são mais violentos e perguntam como foi que apareceu uma realidade alternativa. Os mais frios dizem que vão contar a verdade, tema a tema. Finalmente, há os nostálgicos, que lamentam, por exemplo, que o mito de Camelot se esteja a esfumar.

Larry Sabato sugere que este é um debate estéril. Porque desmontar o mito é também explicar e perceber o mito.

John F. Kennedy tinha 43 anos quando tomou posse e sucedeu ao que era na altura um Presidente velho, Dwight Eisenhower. A eleição de Kennedy foi uma viragem – a chegada ao poder de uma geração nova, moderna e que queria dar o fôlego do século XX a uma América que parecia parada e acomodada desde o fim da guerra.

“Kennedy foi o primeiro a usar, de uma forma brilhante e inédita, os meios de comunicação social e de propaganda para criar uma imagem que não correspondia à verdade”, diz o historiador Tiago Moreira de Sá, professor na Universidade Nova de Lisboa e investigador do Instituto Português de Relações Internacionais. Kennedy mostrava-se como homem novo, bonito e dinâmico, que ficava bem de fato escuro e gravata, mas também de pólo e caquis a jogar futebol com os irmãos ou a velejar nas águas do Massachusetts.

Sabe-se há muito, desde o tempo em que não se falava desses assuntos na comunicação social, que era um doente, que não tinha a família perfeita que aparecia nas fotografias e que trocava quando podia ou lhe apetecia a mulher elegante, Jackie, por outras – Marilyn Monroe foi apenas uma.

Dinamismo e progresso foi o que apresentou na campanha eleitoral de 1960, que ganhou. “Os quatro debates televisivos foram grandes inovações e a imagem impressionante de Kennedy deu à campanha uma injecção de energia”, escreveu Sabato no texto Five Myths about JFK (Cinco mitos sobre JFK). Porém, explica, o efeito foi efémero e, a dois meses da votação, Kennedy e Richard Nixon (o adversário republicano) estavam praticamente empatados nas intenções de voto. “Sim, os debates foram memoráveis, mas mal mexeram com o barómetro eleitoral”, diz Sabato.

Kennedy ganhou e com ele emergiu a geração que queria acelerar, inovar e romper a ordem estabelecida. “Ele é associado a um tempo em que a América vivia uma grande prosperidade interna e atingia o seu auge de influência na política externa”, diz Sabato. Os americanos, diz o professor da Virgínia, vibravam com as palavras – e com a retórica – que falavam de prosperidade e progresso. “O seu discurso ainda ecoa no século XXI e a sua abordagem serviu de modelo a outros presidentes, por exemplo Ronald Reagan e Barack Obama”, diz Sabato.

Sim, Kennedy fez promessas, responde Robert Samuelson no Washington Post, mas deve um Presidente ser avaliado pelo que poderia fazer ou pelo que realmente fez? Foi Samuelson, que escreveu três livros sobre a política económica americana, quem disse: “Ele está algures entre o suficiente e o medíocre”. “Ele deu sempre passos hesitantes na causa dos direitos cívicos [dos negros] e não há uma única legislação importante que tenha o seu nome”, considera o professor da Thomas Jefferson School of Law Richard Winchester na revista American Thinker.

“Os autores que vão surgindo procuram contrariar o que os outros disseram ou procuram dizer o que ainda não foi dito”, diz Tiago Moreira de Sá, que estuda as relações contemporâneas entre Portugal e os EUA (escreveu Carlucci vs Kissinger – Os EUA e a Revolução Portuguesa, ed. Dom Quixote). “A minha opinião é que não dá para ver as coisas assim. A maioria das grandes transformações foram de facto feitas (votadas e aprovadas) quando Lyndon Johnson era Presidente, mas surgem de uma linha iniciada por Kennedy já desde a sua campanha eleitoral”, explica.

Tiago Moreira de Sá, que ressalva que há um debate mais lúcido sobre a herança Kennedy que já estava a ser feito pela historiografia, vê nesta viragem de ponteiro no discurso dos media outro motivo: à medida que Kennedy perde impacte emocional junto dos americanos, olha-se para trás e percebe-se que há outro homem na fotografia, Lyndon Byrd Johnson (LBJ), o Presidente esquecido. Foi Johnson, que era vice-presidente, quem terminou o mandato de Kennedy. Foi eleito em 1964 e não se recandidatou a um segundo mandato. E na voragem da criação do mito, desapareceu.

Kennedy rodeou-se de uma elite que foi buscar às melhores universidades da costa Leste e que levou para a sua Administração. Dessa elite comprometida – a ela pertenceram o historiador liberal Arthur Schlesinger, que escreveu o livro A Thousand Days – saíram muitos dos textos que definiram a presidência Kennedy. Começaram a ser publicados escassas semanas depois de Dallas, com uma clara intenção política e com o pano de fundo do choque do assassínio brutal de um Presidente em funções – uma geração de intelectuais fazia o luto pela morte mártir de um sonho, o sonho do que podia ter sido.

Houve “um exagero”, uma “omissão de defeitos” e de erros, diz o historiador português. “Não foi dada a L.B.J. a verdadeira importância que teve na transformação da sociedade americana dos anos 60. Houve uma tendência para dar os créditos a Kennedy e diminuir a sua importância” – ajudou que os dois homens, ambos democratas e eleitos com a mesma plataforma, se odiassem, e os intelectuais de Kennedy interiorizaram o antagonismo. “A balança [entre as presidências Kennedy e LBJ] estava muito desequilibrada e procura-se equilibrá-la. E sobretudo demonstrar que Johnson foi muito mais importante do que se diz”.

Ou seja, não há que retirar importância a um, há que também dá-la ao outro. Como diz Moreira de Sá, estão em sequência e eles, que se odiavam, fizeram “a mais importante transformação na sociedade americana no século XX desde o New Deal de Franklin Delano Roosevelt”. À sua ambição, Kennedy chamou A Nova Fronteira; à que lhe deu sequência chamou-se A Grande Sociedade.

“Estamos hoje no limitar de uma Nova Fronteira, a fronteira da década de 1960, uma fronteira de oportunidades e de perigos desconhecidos, uma fronteira de esperanças e de potenciais ameaças, mas a Nova Fronteira de que vos falo não é uma série de promessas, é uma série de desafios. Nela não está o que pretendo oferecer ao povo americano, está o que lhe pretendo pedir. A Nova Fronteira está aqui, quer queiramos, quer não”, disse Kennedy, que não chegou a ver aprovada a legislação que faria a América passar a fronteira e entrar noutra era.

Moreira de Sá sublinha uma das iniciativas legislativas da presidência Kennedy: o 24.ª aditamento da Constituição, que aboliu milhentos obstáculos ao voto da população negra, aprovada logo a seguir ao fim da Guerra Civil (que acabou em 1865). Proposta em 1962, foi aprovada em 1964, na presidência Johnson.

A lei dos direitos civis, que faz desaparecer as restrições no acesso à vida normal da população negra – acesso a empregos públicos, às universidades e até a qualquer lugar num autocarro (antes, só podiam sentar-se nos lugares de trás) –, também só é aprovada em 1964. O Estado social – a protecção dos mais pobres e dos pobres mais velhos na saúde, por exemplo – que começou a ser concebido por Kennedy, é ratificado em 65.

Houve outras políticas, e os princípios de algumas perduram até hoje: o investimento na modernização tecnológica e o investimento no programa aeroespacial (a primeira aterragem na Lua será em 1969), e a agora muito criticada política económica de grandes investimentos federais e de aumento substancial da dívida pública.

J.F.K. tomou posse em Janeiro de 1961 e foi assassinado em Novembro de 1963. Foram mil dias de governo num ambiente político parecido com o actual – com hostilidade no Capitólio.

É no campo da política externa que as decisões de Kennedy devem ser analisadas do ponto de vista mais crítico, diz Moreira de Sá. A intervenção em Cuba – a invasão dos exilados cubanos na baía dos Porcos que queriam derrubar Fidel Castro –, que herdou de Eisenhower, foi um fracasso. Se o plano dos serviços secretos já era fraco, Kennedy fragilizou-o mais, ao retirar o apoio aéreo aos anticastristas. E num artigo longo e muito pormenorizado sobre a crise dos mísseis soviéticos em Cuba no número especial sobre J.F.K. da revista Atlantic é dito que Kennedy foi tão responsável por ela como Nikita Khrutchov – aos mísseis americanos na Turquia apontados para Moscovo, os soviéticos responderam com mísseis apontados à América. A revista põe a balança a favor de Moscovo: os americanos retiraram os mísseis da Turquia e prometeram não derrubar Castro.

Kennedy é também acusado de ter comprometido irremediavelmente os EUA com o conflito no Vietname. Washington apoiava materialmente há anos as lutas na região (os franceses na Indochina e depois os grupos anticomunistas no  Vietname) e foi de facto Kennedy quem enviou as primeiras tropas, 17 mil homens. Mas a escalada só acontece a seguir, com Johnson – em 1965 são 500 mil os soldados americanos no terreno.

Um tema marginal no debate público americano é o Muro de Berlim, a cuja construção J.F.K. quase não reagiu, irritando a República Federal Alemã, que viu os sinais do fim da aliança entre os dois lados do Atlântico. “Na historiografia, este é um dos aspectos mais criticados, mas, quanto a mim, mal. O que o Muro de Berlim vem significar é que a URSS estava a adoptar uma política de reconhecimento do statu quo e isso, para o Governo americano, era uma boa notícia. Representava a divisão da Alemanha em duas, mas dizia que a URSS não queria progredir para além dele”, explica o historiador português.

“Kennedy”, escreveu o jornalista de esquerda Seymour Hersh, “foi o mais corrupto dos Presidentes do pós-guerra. Foi o mais manipulador. (...) Penso que Nixon, ao lado de Kennedy, era um amador”. Hersh publicou em 1997 o livro The Dark Side of Camelot e disse ter-se sentido ludibriado durante as décadas em que, como tantos, acreditou no mito Kennedy.

O mito. Algumas semanas depois de Dallas, Jackie Kennedy convidou o jornalista Theodore White – um “amigo” – para escrever sobre o marido para a Life, que era uma revista semanal que centenas de milhares de americanos assinavam. Contou ela que John gostava de ouvir, antes de dormir, um tema do musical da Broadway sobre Artur – “Não deixem que se esqueçam, que uma vez houve um lugar, que brilhou por um breve instante, Camelot”. “Voltaremos a ter grandes Presidentes", disse Jackie, "mas nunca mais haverá Camelot”. A Casa Branca de luto insistiu que Camelot seria o título do artigo. E John F. Kennedy passou para o plano da transcendência política.

“Talvez não possamos continuar a louvar Kennedy. Mas também não podemos enterrá-lo”, diz a Atlantic. Larry Sabato concorda: “Tinha muitos defeitos? Pois tinha. Mas encantava as pessoas com as palavras e as pessoas seguiam-no. Antes de mais, ele é hoje um legado estilístico”.

Correcção: Onde se lia que LBJ não se recandidatou a um segundo mandato não estava claro que vencera um primeiro, em 1964.
 
 

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