O teatro das coisas perdidas

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Em 4 Ad Hoc, Luís Miguel Cintra encontra Eugéne Labiche, autor que ninguém faz, porque já não serve para nada. A não ser para contar histórias a quem as quiser ouvir. Até 15 Dezembro, no Teatro da Cornucópia.

Aos historiadores o que for da História, aos homens de teatro o que forem as histórias. A primeira peça após os festejos dos 40 anos do Teatro da Cornucópia pode aparentar um desvio do teatro de repertório que fez a vida da companhia. Mas, na verdade, estas peças "que não precisam de nada" porque parecem "coisas simplórias, das quais se tem vergonha" são peças que solicitam um outro discurso para o qual parece não haver tempo porque se perdeu já a razão para se ir ao teatro: "estar junto".

Por isso, nada de mais antigo, porque nada de mais actual, na nova encenação de Luís Miguel Cintra que juntou quatro peças ad hoc, ou seja, "para isto" - "isto" de estar junto, "isto" de desejar que quem venha, sempre por bem, possa ter a coragem de dizer o que lhe provocam estas peças de Eugéne Labiche. Escritas entre 1854 e 1869, A escolha de um genro, Dois refinados malandros, A viagem e A Dama com pernas côr-de-mar são peças curtas como já não se escrevem, daquelas que guardam dentro personagens que "não são senhores - nem sabem ou conhecem - da espécie de engrenagem social na qual vivem".

Personagens, por isso, sobre as quais o autor, exímio dramaturgo de uma França que entrava na Belle Époque com o panache, a soberba e a inocência que caracteriza os tempos de grandes mudanças, tinha "uma enorme ternura", à maneira de Tchekóv. E, por isso, Labiche não está longe, nada longe, de autores que a companhia já apresentou, como Karl Valentin com E Não Se Pode Exterminá-lo? (1979), Dario Fo com Não Se Paga! Não Se Paga! (1981), Joe Orton, com Apanhados no Divã (1992), bem como dos textos daqueles que foram reunidos por Tristan Rémy em Entrées Clownesques (Salada, 1990), e, naturalmente, dos portuguesíssimos textos de teatro de cordel que, já este ano, foram reunidos por Luís Miguel Cintra em Ai Amor Sem Pés Nem Cabeça.

Portanto, sim, a Cornucópia já quis rir connosco antes mas talvez agora, quando o futuro que se segue está ainda por definir, não exista melhor autor para falar sobre o que é essa profissão de actor, de encenador (de espectador?): "É uma profissão onde se vai vivendo e fazendo peças perguntando-nos, e também aos que nos vêem, se aqueles diálogos lhes são como para nós, também absurdos. Vamos caminhando e no, final para quê? Para vivermos uns com os outros".

Luís Miguel Cintra diz que 4 Ad Hoc - em cena até 15 de Dezembro - é "uma espécie de prova por abuso de humanidade do nosso ofício": "Estou a tornar as peças em objectos artísticos e a distanciá-las [do tempo no qual foram criadas], para que o espectador chegue à conclusão que esteve a conviver com aquelas pessoas [os actores] durante a noite. É isso que eu acho que é o teatro."

O comovente objectivo é simples de compreender: "simplificar todas as teorias que tenho dito até agora e, de certa maneira, voltar a poder comer chocolates". "Come chocolates! Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria", escreve Álvaro de Campos da janela com vista lançada sobre a Tabacaria.

A confeitaria é o teatro, só não há meninas de mãos sujas. Mas há chocolates, estas quatro algibeiradas que mostram "o teatro esvaziado da razão de ser." Na casa de um conde, num hotel de província, numa prisão e, por fim, claro, num teatro, o que Labiche revela, em tramas que parecem policiais mas a intriga é pouco perceptível, e outras que são equívocos sociais e abastardamentos do protocolo, "uma grande vontade de mostrar pessoas e relações humanas que reconhecemos na sua ingenuidade".

Viver afinal é divertido

Mas porque já passou muito tempo, a Luís Miguel Cintra importa o que o tempo empresta aos textos, muitas vezes escritos para o dia seguinte, nunca esquecendo a carpintaria que sustentava os diálogos, revelando, afinal, uma dependência das frases, das ideias e das intenções, como se fossem um e a mesma coisa, indivisível, ainda que as personagens pudessem parecer contradizer-se.

A função do tempo, e a distância por ele promovida, tem aqui um outro papel, uma outra função: "O tempo cria um enriquecimento de leitura, mas um empobrecimento do que elas teriam de imediato". Luís Miguel Cintra chama ao teatro de Labiche "um teatro de coisas perdidas". De um tempo que pergunta qual é "a relação com o real". E, por isso, o cenário de Cristina Reis, mais do que uma alegoria, é "um espaço poético pessoal" onde se misturam todas as peças sem servir a nenhuma, como a memória que confunde os tempos, as referências e alimenta ilusões. Como esta: uma floresta em Veneza. Porquê? "Porque está escrito na peça."

Apesar de serem peças "que tão habilmente manipulam a sua ilusão", a relação com a vida real perdeu-se "quase completamente", escreve o encenador no programa. Mas ficou "o retrato da relação dos homens uns com os outros, ficou o interesse da contracena, do viver em sociedade". E mais: "Ficou um retrato da alienação. Tudo gente que não se vê ao espelho, que não se identifica com o discurso que tem. A vida? Um enorme acaso, mas é o que há, e viver, sabe-se lá porquê, afinal é divertido".

Quatro peças, quatro pochades de Labiche, quatro desejos de Luís Miguel Cintra: "Não tenho que ter razão. Disponham de mim. Não quero afirmar coisa nenhuma, Quero ter a coragem de estar sem aldrabar ninguém. " No fundo, como Álvaro de Campos, que olhava pela janela e imaginava ser como a pequena que comia chocolates com as mãos: "Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes! Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho, deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida."