Mário Soares desafia Cavaco Silva à demissão

A conferência organizada pelo ex-Presidente da República pretende ser, desta vez, mais abrangente do que a de Maio. Além das esquerdas, conta com figuras de centro-direita.

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Mário Soares na conferência das esquerdas, em Maio Miguel Manso

Cinco meses depois de na iniciativa “Libertar Portugal da Austeridade” ter alertado Cavaco Silva para “a perda de pacifismo” dos portugueses, o ex-Presidente da República sobe um degrau: vai desafiar Cavaco à demissão.

A intervenção de dez minutos não está redigida. Será com o apoio de notas que Mário Soares pronuncia na noite desta quinta-feira, na aula Magna da Reitoria da Universidade de Lisboa, o discurso de abertura da Conferência “Em defesa da Constituição, da Democracia e do Estado Social”.

“É preciso que o Presidente da República cumpra o juramento de cumprir e fazer cumprir a Constituição, senão é Presidente de uma minoria”, disse Mário Soares ao PÚBLICO. Soares considera que o Governo ignora o texto constitucional, ao ponto de o trivializar quando afirma que, apesar de estar consagrado o direito ao trabalho, a Constituição não dá emprego. Também segundo o ex-Presidente, as privatizações são a venda do país a retalho, e os cortes nas pensões põem o Estado Social em causa. Pelo que, para Mário Soares, ao caucionar esta política Cavaco está a ser parcial e a defender as políticas do executivo liderado pelo seu partido.

“Faça o que deve: demita-se enquanto pode ir para casa sossegado”. Foi este o conselho que Soares deu a Cavaco em artigo de opinião publicado na terça-feira no DN. Em entrevista à TVI24, insistiu: “Naturalmente, eu acho que o Presidente da República devia demitir-se porque está numa situação impossível, à partida só fala com um partido e isso não tem sentido nenhum.”

Deste modo, o desafio da demissão é o corolário lógico de sucessivas intervenções. Pronunciado, sim, na solenidade de uma conferência que, ao contrário da iniciativa de Maio, é mais abrangente. Então, foi a esquerda a ser convocada para um ponto de encontro. Esta noite, o debate centra-se na defesa da Constituição e do Estado Social. Por isso, congregou mais vontades.

A iniciativa concitou diversos apoios. Entre os promotores, para além de Soares, estão António Arnaut, os sindicalistas Carlos Silva (UGT) e Armando Farias (CGTP), Manuel Alegre, Boaventura Sousa Santos, Maria do Rosário Gama, da APRE! (Associação de Pensionistas, Reformados e Aposentados), Pacheco Pereira e Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa. “Estamos num período difícil da democracia que passa por um ataque à Constituição e às instituições que a defendem, como o Tribunal Constitucional”, comentou Sousa Santos ao PÚBLICO. “A Constituição foi o patamar comum, é preciso manter esse património a partir do qual construímos as nossas divergências”, salientou.

Serão lidas mensagens de Jorge Sampaio, dos generais Loureiro dos Santos, Pires Veloso, Lemos Ferreira e Manuel Monge, de António Capucho e Basílio Horta. “É uma iniciativa abrangente, ao contrário da anterior, apanha uma área que vai até ao centro-direita”, afirmou Loureiro dos Santos ao PÚBLICO. O ex-ministro da Defesa Nacional de Mota Pinto e Lurdes Pintassilgo manifesta preocupação pela manutenção do Estado Social e pelo desmantelamento das estruturas de soberania nacional, como as Forças Armadas. Foi enviado um convite ao presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira que, ao meio da tarde desta quarta-feira, ainda não tinha confirmado o envio de mensagem.

Presentes vão estar personalidades como António Costa, Alberto Martins, líder da bancada socialista, o que representa uma promoção pois, em Maio, o representante do PS foi o deputado Ramos Preto. De acordo com os promotores, o secretário-geral do PS esteve desde início ao corrente da iniciativa. Entre as presenças confirmadas destaque, ainda, para Don Januário Torgal Ferreira, antigo bispo das Forças Armadas, o dominicano Frei Bento Domingues e o general Melo Gomes.

Se Mário Soares abre as intervenções, o ex-Chefe do Estado-Maior do Exército, general Pinto Ramalho encerra a sessão. Haverá também intervenções de Pacheco Pereira, Carlos do Carmo, Alfredo Bruto da Costa, Helena Roseta, Marisa Matias e Ruben de Carvalho. “Trata-se de uma iniciativa que se esgota no mesmo dia e, tendo em conta os objectivos, naturalmente que estaremos presentes”, disse esta quarta-feira Jerónimo de Sousa. “Os debates em torno da defesa da Constituição e do combate a estas políticas de austeridade são matérias que hoje inquietam a maioria dos portugueses”, destacou o secretário-geral do PCP.

“Esta é uma questão de puro patriotismo, espero que o Presidente da República tenha consciência que há muita gente que já fala de violência, eu estou aqui para lutar contra a violência”, referiu Mário Soares ao PÚBLICO. “Este Governo está a destruir o país, espero que caia”, concluiu.