Crítica

Não podemos fugir do espelho

Alain Guiraudie cria um território especular onde se reflecte o mundo, hoje, o pós-sida, todos nós e o desejo.

E Alain Guiraudie imobilizou-se frente ao lago. Como se não pudesse mais continuar a fugir.


O filme anterior chamava-se O Rei da Evasão. Aí, um homossexual rural cansado dos engates chamava a si o papel de apaixonado de uma jovem em fuga. Mas a verdade falaria mais alto para a personagem. Pode dizer-se que o cineasta Guiraudie também tem sido mestre na fuga.

Tem sido assim desde que, depois da fábrica abandonada de Ce Vieux Rêve Qui Bouge (2001), um regionalista começou a dar a volta ao mundo nas terras de fantasia que os seus filmes inventavam a partir da ruralidade do sudoeste francês - em Pas de Repos pour les Braves (2003), por exemplo, as personagens tinham um pé em Buenauzeres e outro em Glasgaud. Tem sido um fogo de artifício para espantar fantasmas: não escondendo a angústia, e será por isso que as personagens não páram, partindo e regressando incessantemente, adiam o momento de verdade; mas assim nunca furam a claustrofobia. Por isso Du Soleil pour Les Gueux (2003) tanto se parece com uma versão western de O Anjo Exterminador (1962) de Luis Buñuel.O momento de verdade acontece agora, com O Desconhecido do Lago. Não é um duelo de cowboys ao sol. Na verdade as fantasias com os géneros, o jogo nos filmes anteriores, estão fora de questão aqui, no novo filme. (Nesse caso poderiam ser o melodrama ou o thriller passional). Tudo se joga na expectativa, na suspensão. As personagens estão nuas, sentadas na areia a olhar para a água - à espera de quê? -, desejando para além do desejo a ameaça. Guiraudie também se imobiliza frente ao lago para um frente-a-frente que não permite manobras de diversão. Nem a si próprio - é a primeira vez que se atreve a explicitar o sexo homossexual, não se refugiando na fantasia hetero; nem ao espectador, que também espera sentado na sala que a morte venha do ecrã.

Em Ce Vieux Rêve qui Bouge havia uma fábrica abandonada. Com a ideologia e com os símbolos em perda, o desejo era fundador, era o que ali mexia. Doce iconoclastia a desse filme em que o comunista Guiraudie propunha a sua revolução, juntando-se ao lema de uma Frente de Acção Homossexual Revolucionária: “Operários de todo o mundo, acariciem-se”. Acariciavam-se, todos eles mais barrigudos do que musculados, mais velhos do que novos - o mais novo que ali entrava, encarregado de desmontar uma máquina para a remontar noutro lado, poderia representar o cineasta nessa forma de destruir ortodoxias, de desejar o desejo e de derramar a utopia, a melancolia e a sua libido. Dez anos depois dessa fábrica que parecia uma catedral já sem culto o huis clos é agora a céu aberto: um lago, algo de mais letal do que o mar. É daí que vem o amor, é daí que vem a morte. Chama-se Michel (Christophe Paou), desembaraça-se na água do engate que o está a incomodar com amarras e é o objecto do desejo de Franck (Pierre Deladonchamps), que assim se apaixonou pelo serial-killer - criatura que parece vinda de outros tempos, do hedonismo dos 70s entretanto tornado quarto escuro, trevas onde permanece, por exemplo, Cruising de William Friedkin, a assombração que paira sobre este O Desconhecido do Lago. Henri (Patrick d''Assumçao) presencia tudo. Provavelmente deseja Franck mas é um corpo à margem na hierarquia dos espaços e dos estereótipos: olha a partir da praia ao lado, não é musculado, é barrigudo e ainda, como antigas personagens de Guiraudie; se calhar é um homossexual refugiado na heterossexualidade.

Dito isto, e apesar das interacções na areia e na mata, não há acção nem plot em O Desconhecido do Lago. Guiraudie silencia as manobras e as coreografias. Cria um território especular onde se reflecte o mundo, hoje, o pós-sida, todos nós, nus, e o nosso desejo. Como sempre, e isso mantém-se no caminho deste cineasta, um espaço físico contém uma vastidão metafísica. A memória que O Desconhecido do Lago deixa é a de um silêncio e de uma quietude vertiginosos.

Nascido em 1965 numa família de agricultores, comunista, cinéfilo e autodidacta, Alain Guiraudie imobilizou-se. O espectador não terá hipotese de fugir deste espelho.