Escrever contra o silêncio

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Depois de publicar o romance A Casa com Alpendre de Vidro Cego, Herbjørg Wassmo recebeu ameaças. A sua ousadia foi escrever sobre tabus. Hoje o livro é considerado um clássico da literatura norueguesa

O incesto e as “crianças do inimigo” (filhas de soldados alemães durante a Segunda Guerra) eram ainda, no começo dos anos 1980, dois tabus da literatura norueguesa. Herbjørg Wassmo (n. 1942) – poeta, dramaturga, autora de livros infantis e activista feminista – teve a coragem de os afrontar em A Casa com Alpendre de Vidro Cego (agora publicado pela Arkheion). Pagou um preço elevado pela ousadia, mas depressa se tornou numa das escritoras mais reconhecidas, traduzidas e premiadas da literatura escandinava. Nascida numa pequena aldeia piscatória, onde “as mulheres tinham a responsabilidade de tudo, pois os homens estavam sempre no mar”, cedo tomou consciência de que tinha que lutar pelos direitos das mulheres, que se tornaram nas figuras centrais de todos os seus romances. Num intervalo das viagens de promoção do seu último romance, recebeu o Ípsilon na sede do grupo editorial Gyldendal, um bonito palacete, bem no centro de Oslo.



A Casa com Alpendre de Vidro Cego [primeiro volume da ‘Trilogia de Tora’] foi o seu romance de estreia. Como surgiu a ideia para o escrever?

Tudo começou com uma imagem: uma menina em pé junto ao mar, o soprar do vento e o barulho do gelo a quebrar-se. Ela estava vestida com roupa antiga e usava sapatos como os das crianças dos anos 1940. Tinha o ar de quem tinha sido abandonada por todos. A paisagem em redor era a da minha infância, as montanhas escuras e por trás uma aldeia de pescadores. A curiosidade levou-me a querer entrar no coração daquela criança, a escrever a sua história. Como se houvesse há muito uma dor muda dentro dela que eu precisava conhecer. Foi um romance que me inundou de repente a cabeça, como se tudo estivesse já pronto. Foi escrito à medida que as palavras surgiam, sem planos. Talvez por isso seja o meu livro mais cru.

Essa menina é Tora, a protagonista, nascida da relação da mãe com um soldado ocupante alemão durante a Segunda Guerra Mundial.

Eu sentia e via a vergonha dessas crianças, eram da minha idade. Havia muito silêncio ao redor delas, era um assunto de que ninguém queria falar. Ignoravam quem eram os pais, nunca os conheceram. As famílias tratavam delas, claro, mas havia qualquer coisa na sua identidade que tinha sido amputada, perdida algures. Era uma dor terrível e profunda o que essas crianças sentiam, não apenas pelo facto em si, mas pela culpa e pela vergonha que isso as obrigava a carregar. Na escola da minha aldeia tínhamos um professor que não tolerava qualquer tipo de abuso contra elas, mas em muitos outros lugares, perto dali, não era assim. Passaram por coisas terríveis, vítimas de desprezo e de humilhação.

Quando o romance foi publicado, em 1981, o assunto ainda continuava a ser tabu?

Sim. Nunca se falou das mulheres que foram expulsas do país por essa razão, ou daquelas a quem o cabelo foi rapado em público. Nunca se falou disso, e os heróis continuaram a ser heróis. Esses – muitos fugiram para Inglaterra quando começou a guerra e só regressaram depois de os alemães terem sido derrotados – aplicaram depois a sua justiça de vencedores, e no mesmo saco meteram gente que tinha colaborado abertamente com os nazis e as jovens mulheres que, mais do que atraiçoar as suas ideias, apenas se apaixonaram, ou que, em muitos casos, foram vítimas de violação. A justiça popular, sobretudo nos lugares pequenos, pode ter uma mão muito pesada, e é difícil escapar-lhe, não há para onde fugir, ainda menos naquela época.

Mas Tora carregava uma outra vergonha, a do abuso sexual por parte do padrasto.

É o tema principal do romance. Tive problemas por causa disso. Depois do livro publicado fui obrigada a mudar de número de telefone, a esconder-me. Recebia telefonemas e cartas anónimas com ameaças. Ao mesmo tempo, também me chegavam solicitações de pessoas que me pediam conselhos. Mas o que é que eu lhes poderia dizer? Não sou psicóloga.

Esse assunto era também tabu?

Por essa altura, era o maior tabu na literatura norueguesa. As crianças que são vítimas de abusos tratam de os esconder para protegerem os pais – e mais tarde para protegerem a sua memória – e manterem uma ilusão de harmonia. Muitos anos depois, já na vida adulta, continuam a fazer o mesmo. Sobre isso sei muito, agora posso dizê-lo. Quando publiquei A Casa com Alpendre de Vidro Cego, houve gente que recusou aceitar esta realidade, e acusaram-me publicamente de ser mentirosa.

Na sua outra trilogia, inédita em português, volta ao assunto das crianças abusadas, negligenciadas…

Como os músicos que compõem sempre à volta de um mesmo tema, volto em diferentes modulações ao assunto das crianças abusadas. Muitas vezes elas são deixadas a si próprias, e isto quando não têm de ser uma espécie de pais dos seus próprios pais. Uma criança negligenciada exprimirá sempre a falta da infância com a violência, física ou psicológica, na vida adulta.

As mulheres têm sempre um papel central nos seus romances.

Não vejo a minha escrita como um lugar em que os problemas estão orientados numa determinada direcção. Os problemas e os desafios existem para toda a gente, para homens e mulheres. Todos vivemos as nossas vidas tentando cumprir da melhor maneira os nossos sonhos. É normal que numa sociedade civilizada homens e mulheres discordem em alguns assuntos, mas não têm que tornar isso numa catástrofe. O que tento mostrar é que o mundo é um bom lugar para todos os enfrentarem, mas como iguais.

Tornou-se também conhecida pela sua militância feminista.

No início não sabia o que isso era, nunca entrei numa manifestação. Mas nos anos 1970, quando os movimentos de defesa dos direitos das mulheres começaram a sair à rua, tomei consciência de que era parte disso. Na época, era professora e senti que tinha uma grande responsabilidade de passar essas ideias para os meus alunos, sobretudo para as raparigas, para as jovens mulheres. Eu escrevia, era mãe, e participava activamente na sociedade, sentindo-me responsável por alertar as mulheres para os seus direitos. Apoiei ainda a discriminação positiva promovida na época pelo Ministério da Igualdade. Participei em quase tudo o que aconteceu nessa altura. Essa foi a minha forma de ser feminista.

Fez parte dos movimentos da esquerda radical onde militaram outros escritores da sua geração? Estou a pensar em Dag Solstad, Per Peterson, Edvard Hoem…

Estava muito longe desses movimentos políticos e ideológicos maoístas. A minha ideologia nada tinha a ver com revoluções. Achava que era ridículo defender que se deveria viver de acordo com os ensinamentos de Mao. Aquilo era um jogo de rapazes [risos]… A minha luta era outra.

Faz sentido, na Noruega, um dos países mais abertos e democráticos do mundo, continuar a ser feminista? Há ainda algo por que lutar?

Sim, há. Mas noutros sentidos que não os dos anos 70 e 80. Há que continuar a transmitir a rapazes e raparigas que são iguais, por uma questão de prevenção do retrocesso. Mas não interessa apenas falar, há que aplicar as convicções na vida do dia-a-dia. O feminismo tem que ser encarado de uma forma diferente daquilo que foi, pois hoje uma mulher já pode ser primeira-ministro ou a chefe máxima da polícia.

Quais foram as suas influências literárias?

Li muito, comecei a interessar-me por literatura quando era muito nova. A minha mãe e as minhas avós encheram-me de histórias, elas foram a minha maior influência. Depois delas vieram as escritoras Sigrid Undset [Nobel da literatura em 1928] e Amalie Skram [1846-1905]. Mais tarde li Crime e Castigo, de Dostoievski, e fiquei fascinada. E, claro, todos os romances de Knut Hamsun. O Farol, de Virginia Woolf, foi uma revelação ao mostrar-me que se podia escrever daquela maneira. O meu marido costumava ler-me passagens de Em Busca do Tempo Perdido, do Marcel Proust, e aí percebi que a mentira e a literatura são um só [risos].

A melancolia está sempre presente na literatura dos autores nórdicos, como se fosse algo imanente à vida, à própria escrita…

Acho que gostamos de escrever histórias melancólicas, é provavelmente parte da nossa natureza nórdica. É difícil não se ser tomado pela melancolia quando se vive com tão pouca luz durante metade do ano, e depois há a paisagem que, quer seja Inverno ou Verão, é muito melancólica. Mas os jovens autores nórdicos têm já um espectro muito mais largo de influências literárias e talvez por isso não se deixam tomar tão facilmente por esse sentimento. O humor está a ganhar um grande espaço na literatura nórdica. Acho que vem da influência da literatura inglesa, pois já se nota por vezes um “British tone” que nunca existiu nas nossas histórias.

Para uma língua com cerca de cinco milhões de falantes, a literatura norueguesa tem uma projecção singular. Isso deve-se apenas a uma questão de política cultural ou o número de bons escritores é realmente elevado?

Há de facto muitos bons escritores, mas talvez isso também se deva às condições oferecidas. De cada novo livro que aparece, o Estado compra cerca de mil exemplares para distribuir pela rede de bibliotecas públicas. Depois há o trabalho de promoção das obras no estrangeiro. Isso permite que a qualidade possa ser facilmente apreciada por editores de outros países. O Estado tem de ser o primeiro a reconhecer que os artistas têm o direito de trabalhar e de viver com dignidade, não têm de passar fome. Isso é essencial. Não vale a pena viver num país em que o Estado não proteja a identidade cultural do seu povo.



O Ípsilon viajou a convite do NORLA