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Megafone

Letras não são "tretas"

Se ser de Letras faz de mim uma "tretas" então muito orgulhosamente assumo a grande "tretas" que sou, eu, que salvaria de bom grado e a nado a obra da minha vida se já a tivesse escrito

Confesso que esta expressão sempre me conseguiu revolver o interior como se de um "looping" de montanha russa se tratasse. Sinto-a carregada de desdém, de diminuição e de muita dor de cotovelo de quem não se envergonha de tratar assim uma das mais antigas formas de relato histórico, pessoal, de um povo, do eu. Chego a sentir “vergonha alheia” por quem não é capaz de reconhecer às “tretas” o mérito de, a par das gravuras rupestres, terem trazido aos nossos dias a possibilidade de saber o que em tempos aconteceu, visto que nem sempre existiram os "smartphones" e a internet só arrancou nos anos 80. Como já perceberam, esta é uma crónica zangada.

Por norma são os de Ciências a usar este “argumento” mas também são conhecidas as picardias entre Letras e Direito, qual "derby" da segunda circular. A maioria menosprezava a “malta que vai para Letras porque é mau a Matemática”. Antes fosse! Antes eu tivesse escolhido as Letras por falta de vocação Matemática e esta relação teria sido muito mais fácil de assumir e de justificar. Mas, como em tudo, o que não me dá luta não me cativa e perante a possibilidade de seguir uma engenharia ou um ramo científico (que conheci num ensino secundário em Ciências) eu escolhi as Letras e prometi ser-lhes fiel, amá-las e respeitá-las, sempre com alegria mas acima de tudo na tristeza, até que a morte ou a falta de capacidades em dar-lhes vida nos separe.

Já tentei por algumas vezes justificar tal afirmação, a das "tretas", mas não encontro sentido ou veracidade que me façam varrer para debaixo do tapete o meu desagrado. Se as Letras fossem tretas as obras de Pessoa, Camões, Saramago, Dickens ou Saint-Exupéry não seriam leccionadas no Programa Nacional de Ensino pois as "tretas" não se ensinam, ignoram-se. Se as Letras fossem tretas não teríamos um sem número de prémios e galardões destinados à fina nata da literatura e esses galardões nunca homenageariam numa mesma cerimónia quem é cientista e quem é das Letras. Sim, é-se das Letras, são elas que nos possuem e não o contrário, daí falar-se em musas, inspiração, dom. Escrever todos nós escrevemos, bem, só uns poucos, uns muito poucos.

Se as Letras fossem "tretas" não se recorreria a elas como forma de perpetuação da palavra falada ou do acontecimento histórico, com a intenção de salvaguardar aquilo que não pode ser esquecido e que para sempre deve ser relembrado. Tudo o que é importante está escrito, desde os planos do primeiro foguetão, passando pelas cartas de amor ou por um simples recado colado na porta no frigorífico. Disseram-me em tempos que “se não consegues dizer, escreve!” e assim encontrei maneira de dar vida ao que de outra forma ficaria remetido aos limites do discurso falado. Se ser de Letras faz de mim uma "tretas" então muito orgulhosamente assumo a grande "tretas" que sou, eu, que salvaria de bom grado e a nado a obra da minha vida se já a tivesse escrito. É que sabem, a malta das Letras tem destas coisas e antes morrer afogado a deixar que as nossas Letras se afoguem.