A economia está outra vez a crescer. Mas será que é para durar?

Medidas de austeridade em 2014 e dependência do consumo ainda preocupam.

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O regresso a taxas de crescimento positivas, iniciado no segundo trimestre do ano e agora confirmado no terceiro, aumenta as esperanças de que a economia portuguesa possa já ter batido no fundo, iniciando a desejada recuperação. No entanto, ainda há dúvidas que esta retoma possa ser sustentável. A maior causa para incerteza está no impacto que as novas medidas de austeridade do OE podem vir a ter no consumo das famílias.

De acordo com os dados publicados esta quinta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), no terceiro trimestre deste ano, o PIB cresceu 0,2%. No trimestre anterior já tinha interrompido dois anos e meio de recessão técnica, com um crescimento de 1%. Em comparação com o mesmo período do ano anterior, a variação do PIB continua a ser negativa, mas regista melhorias significativas, com a contracção homóloga da economia a passar de 2% no segundo trimestre para 1% no terceiro.

A estimativa de crescimento de 1,8% do Governo e da troika está praticamente assegurada. Mas em relação à previsão de uma taxa de crescimento positiva em 2014, as certezas ainda não são tantas.

Entre os economistas, há quem aposte na continuação da retoma e quem antecipe uma nova quebra. Todos, apontam para a existência de factores de risco.

Paula Carvalho, economista do departamento de estudos económicos do BPI, está entre as mais optimistas. "Estamos à espera que a tendência se mantenha", afirma, destacando o facto de, em alguns indicadores importantes, como o consumo de bens duradouros (como os automóveis) e o investimento, o nível ter caído tanto nos últimos anos que agora uma subida se torna mais provável. "O efeito base já começou a ser decisivo", diz.

No entanto, assinala, há dois factores a que se tem que estar atento. "É preciso ver se as exportações mantenham o bom desempenho e, principalmente, perceber qual será a reacção das famílias às medidas de consolidação orçamental. É possível que haja um aumento da poupança"' diz.

O economista Pedro Laíns está especialmente preocupado com este ponto. "Um dos factores mais importantes por trás desta ligeira recuperação da economia deverá ser a paragem momentânea na implementação de novas medidas de austeridade. É possível que a recuperação venha a ser interrompida pelas novas medidas de austeridade que vão retirar mais de 1% do PIB, em 2014”, afirma.

Em 2013, a menor queda do consumo está a acontecer depois de, em Abril, o Tribunal Constitucional ter chumbado o corte de um subsídio a uma parte importante dos funcionários públicos e dos pensionistas. Esse subsídio será recebido no final do ano, mas pode ter levado a uma melhoria das expectativas.

A grande questão agora é de que forma, as medidas de austeridade do orçamento de 2014, com novos cortes nos salários e pensões do sector público, podem influenciar o andamento do consumo e da economia. É a questão dos multiplicadores orçamentais: quanto é que um euro de austeridade faz cair a economia.

Subir Lall, chefe de missão do FMI em Portugal, questionado na conferência de imprensa em que apresentou o relatório das oitava e nona avaliações do programa português sobre quais os multiplicadores orçamentais implícitos nas previsões da troika, recusou-se a apresentar um número.

Para o futuro, Luís Campos e Cunha também tem outro tipo de preocupação. O professor da Nova assinala que "a sustentabilidade da recuperação económica depende da sua qualidade". E traça um perfil do que pode ser uma retoma económica: "deve, depois do excelente resultado nas exportações, seguir-se a recuperação do investimento e só depois do consumo privado". "A inversão deste padrão levanta grandes dúvidas na sustentabilidade dos resultados do PIB, a somar ao impacto da política orçamental para 2014", afirma.

Aquilo que o INE diz sobre esta matéria não é animador. Embora ainda só tenha sido apresentada uma estimativa rápida da variação do PIB, sem detalhes sobre a evolução das suas componentes, o relatório do INE diz que o principal contributo para a melhoria da variação homóloga do PIB vem da procura interna e, em especial do consumo das famílias. A "regra" que diz que o investimento deve vir primeiro parece não estar a acontecer, algo que torna a evolução de indicadores como as exportações menos promissora no futuro.