O escritor e o mar

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Jon Fosse gostaria de continuar em paz no jardim. Mas o seu teatro é um sobressalto místico. Reencontro com o dramaturgo norueguês a propósito da estreia de Sou o Vento na Culturgest, em Lisboa.

Da janela da casa de Jon Fosse vê-se o Mar do Norte. Em Bergen, onde o autor norueguês contempla os fiordes, escreve peças cuja carga mística aprendeu a reconhecer com o tempo. Sou o Vento (2007), que a Culturgest de Lisboa apresenta a partir da próxima quinta-feira, 30, com Manuel Wiborg e Diogo Dória, é um retrato pungente de dois homens num barco. Mas podem ser também as duas vozes de um autor que um dia descobriu que escrever era como uma casa contra a enorme deriva do mundo.

Lemos este texto, imaginamos o Mar do Norte e, contudo, é das pinturas do britânico J. M. Turner que nos lembramos. Um mar antes ou depois da tragédia...

Curioso. Quando era mais novo não conseguia compreender como trabalhava um pintor. Cada quadro parecia estar decidido desde o início. E, achava eu, se um escritor pintasse precisaria sempre de fazer mudanças. Mas, teoricamente, é um processo semelhante. Há um sistema de perfeição que é diferente de peça para peça, ou de romance para romance, mas que cria diferentes camadas de tinta, e onde cada pincelada tem a sua personalidade. Mas ainda que seja semelhante à pintura, a minha escrita não decorre da mesma ética. Escrevo muito mais páginas do que as que publico. Já as minhas peças, ao contrário do que acontece com os romances, escrevo como se fosse um pintor a pintar um quadro: procuro o momento.

Estará isso relacionado com a musicalidade que diz estar presente nas suas peças?

Eu trabalho com música, a linguagem. E para ser completamente honesto a minha escrita relaciona-se mais com a composição musical do que com a pintura. Dou-lhe um exemplo: o meu teatro é perfeitamente traduzível. As palavras têm uma enorme habilidade para viajar e há um entendimento profundo da minha escrita até em línguas que lhe são distantes. Há uma estrutura nas peças que pede um encenador que a complete e que lhe seja leal. Mas é uma lealdade que compreende uma imensa liberdade.

A fluidez dos seus diálogos é natural ou uma construção?

Não gosto de voltar atrás. Gosto de continuar a escrever. Uma peça, quando é boa, escreve-se por si. Eu escrevo de forma muito rápida. E também escrevo porcarias quando escrevo muito. O processo de escrita não é de percepção, mas de audição. Eu ouço constantemente. O quê não sei, porque a minha escrita não é visual. Não consigo imaginar o cenário, os espaços, os lugares. Os textos são lugares de encontro [das personagens]. E o silêncio é uma metáfora para isso mesmo, ainda que não seja um gesto calculado. É um processo de escuta para poder ouvir o que têm a dizer. Muitas vezes me surpreendo, como aconteceu com Sou o Vento. Escrever é inventar algo novo, que não existia antes, e por isso aproxima-se de uma viagem para o desconhecido. Mas claro que, de certa forma, escrevo a partir da minha experiência, reproduzindo o que já existe e eu não sabia. Dois homens num barco é, por exemplo, uma situação reconhecível.

Define as suas peças como tragicomédias. Impressionou-se com a possibilidade de nos rirmos com os seus textos?

Não. Eu comecei a escrever quando era muito novo e estava muito deprimido, e à medida que fui envelhecendo este negrume ganhou uma dimensão cómica. O teatro tem duas máscaras, a da tragédia e a comédia. Sei que não me afasto muito disso quando me apercebo que, em línguas diferentes, as pessoas riem e choram ao mesmo tempo.

Eventualmente por serem alegorias, até mesmo, como no caso de Sou o vento, com contornos religiosos. É religioso?

A pequena comunidade onde cresci foi muito influenciada pelo protestantismo. Mas quando era jovem era ateu. E a minha escrita vem daí. Considero-me cristão e o meu pensamento está muito perto do catolicismo. Quando reflicto sobre isso, percebo que há uma mensagem religiosa na minha escrita, que não era intencional mas está presente. O silêncio culpado que um dos homens sente e que o outro procura descobrir transporta-nos para uma mística da vida e das relações humanas. O mar, território de ninguém, activa um entendimento mais abstracto da vida. Quando era muito novo estive perto da morte e vi a vida de uma certa perspectiva; de certo modo, é assim que as personagens se vêem na peça. Isso influenciou-me muitíssimo. Do mesmo modo que as leituras que fiz sobre o universo e o lugar do homem me fizeram reflectir sobre a existência de Deus. Mas isto pertence ao campo da teoria e da teologia e, enquanto escritor, não quero ter quaisquer dogmas ou ambições, nem mesmo atribuir significados. Não será errado chamar-me místico, até porque sou mais místico do que político, ou mesmo filósofo ou teólogo.

Daí o desaparecimento das imposições e limitações dos seus primeiros textos?

Sim. Não me quero impor através da escrita. Escrever é, para mim, um modo de me libertar de mim mesmo e da imagem que tenho de mim. Como beber, que, para mim, foi outra forma de escape. Bebi muito e tive de deixar de o fazer. Já escrevi muito mas ainda continuo.

Da primeira vez que esteve em Portugal, em 2000, disse que quando se começa a ser publicado se perde a inocência. Então escreve porquê?

Se escrever só para mim não é bem escrita. Mas para mim publicar e ser encenado não são objectivos. Aos 12 anos escrevia contos como se fossem uma protecção, uma casa onde me guardava. Ainda tenho essa imagem. O mais difícil é continuar a encontrar forças para escrever. Acho que existem três Jon Fosse. O que escreve, o que é lido, e o que está no jardim a cuidar das plantas. Ainda que seja o primeiro, e evite ao máximo o segundo, é o terceiro que mais quero ser.