Decifrar o alfabeto do nosso tempo

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Trieste é o lugar mais próprio do romancista e ensaísta italiano Claudio Magris: uma cultura de fronteira, de misturas e cruzamentos, onde se repercutiram com grande violência os maiores abalos da história e da cultura europeias do século XX

Danúbio, que Claudio Magris (Trieste, 1939) define como um “romance dissimulado”, onde se atravessa a Mitteleuropa e, ao mesmo tempo, o lado mais grotesco e doloroso da história contemporânea, tornou o romancista e ensaísta italiano conhecido em toda a Europa. O seu primeiro livro, de 1963, Il mito absburgico nella letteratura austriaca moderna, era um estudo das formações míticas com que a literatura austríaca tinha representado e transfigurado o Império Habsburgo em algo irreal — o mito de um mundo fundado sobre o ideal superior de uma harmonia supranacional, mas onde, por trás do “mosaico harmonioso”, um espírito crítico como o de Karl Kraus descobriu uma “Babel sangrenta”. É aí que floresce, num conjunto prodigioso de obras literárias, filosóficas, artísticas e científicas, um agudo saber da crise e da perda de fundamento que outros centros da cultura europeia só descobriram mais tarde. O tema da fronteira impôs-se-lhe enquanto estudioso da cultura e da literatura do Império Austro-Húngaro, mas também enquanto filho dessa cidade que foi a margem marítima do Império e à qual consagrou um livro (e muitos artigos), Trieste, un’identità di frontiera. A partir de certa altura, Magris, que tinha obtido reconhecimento internacional como ensaísta, começou a ganhar a dimensão de grande escritor europeu, enquanto autor de romances e novelas. Em Portugal, o seu último romance traduzido chama-se Às Cegas (Difel). E agora, quando o escritor esteve em Lisboa para receber o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva para a divulgação do património cultural (a acrescentar à longa lista de prémios nacionais e internacionais que já recebeu, entre os quais o Príncipe das Astúrias, em 2004), saiu Alfabetos (Difel), eque reúne um vasto conjunto de artigos sobre a literatura, grande parte deles publicados no Corriere della Sera. É preciso dizer, no entanto, que se trata de uma viagem pelos livros que não se limita ao discurso crítico nem ao ensaísmo literário. No centro deste volume, com uma força irradiante, está a cultura europeia, que nas primeiras décadas do século XX assimila uma consciência aguda da crise e do trágico moderno e projecta as suas sombras até ao nosso tempo.

O seu grande sucesso internacional, enquanto escritor e ensaísta, começou com Danúbio (1986) um livro a que chamou uma “viagem sentimental” pela “civilização danubiana”. Esse livro ajudou ao reacendimento do ideal de uma Mitteleuropa ecuménica e do convívio harmonioso entre os povos, de tal modo que você acabou mesmo por lançar alguns alertas contra essa idealização. Como vê tudo isso hoje?

Esse livro nasceu por acaso, sem uma ideia prévia. Não é propriamente um livro sobre a Mitteleuropa. É sobretudo a história de um homem, não idêntico a mim, ainda que eu lhe empreste muitas coisas da minha vida, e uma viagem no tempo. Acredito em Jorge Luis Borges quando ele diz que um homem que pinta paisagens pinta o seu auto-retrato. A nossa identidade está no modo como vemos as coisas e os outros. Quando comecei a escrever o livro não sabia se faria uma reportagem ou um romance submerso, escondido. Tive a imensa sorte de atravessar, por várias vezes, ao longo de quatro anos, aqueles países que viviam num momento de relativa tranquilidade. Se tivesse feito a viagem em 1989, teria visto algo completamente diferente. E isso permitiu-me escavar, recolher velhas histórias, ver os vários estratos daquela civilização, de modo a compreendê-la muito melhor, compreender mesmo o que sucedeu depois da queda libertadora do Muro, quando nasceram outros muros, como as reivindicações étnicas e nacionalistas.

Antes de escrever Danúbio, já tinha estudado uma parte daquele mundo, o mito do Império Habsburgo tal como ele foi representado na literatura austríaca...

Se não fosse isso, Danúbio não teria existido. Mas agora tratava-se de uma longa viagem por territórios mais vastos, por um concentrado de muitas identidades diferentes, onde se passa continuamente de uma língua a outra, de um sistema político a outro. A coluna vertebral da Mitteleuropa era a simbiose judaico-alemã que foi destruída pelo Holocausto, uma metade destruiu a outra, o que significou um suicídio da velha Alemanha. Mas lembro-me bem como nasceu o livro. Eu fui com a minha mulher, Marisa, que morreu em 1996 e também era escritora, e mais alguns amigos à Eslováquia, a porta da “outra Europa”. Era Setembro, estava uma belíssima luz, e o Danúbio projectava uma enorme harmonia. E, de repente, surge diante de nós, ali na fronteira da Eslováquia, uma placa que dizia “Museu do Danúbio”. Sentimo-nos como se fôssemos actores de uma exposição sobre o primeiro amor. Então, Marisa, que tinha sempre as ideias antes de mim, disse: “E se seguíssemos até ao Mar Negro, para ver o que sucede?”. Foi nesse momento que nasceu esse livro que atravessa tantas fronteiras e territórios — geográficos, políticos, culturais, psicológicos — e é também um romance submerso.

Mas a fortuna desse livro deve-se certamente ao facto de ele permitir uma leitura da história da Europa, como se aquilo a que chama “civilização danubiana” tivesse chegado, por via de um leitor culto e atento, a um momento de legibilidade.

Tive a sorte de ser como um indivíduo que detecta a água no subsolo antes de ela vir à superfície, ou seja, antes de o Danúbio ter tido honras de primeiro plano na crónica mundial. Naturalmente que a civilização mitteleuropeia é um cultura caracterizada pela mistura desses dois grande elementos supranacionais, a língua alemã e a cultura judaica, e por uma cultura que tinha sentido fortemente o mal-estar da civilização, que antecipou a crise da velha Europa. Pense-se em grandes autores como Kafka, Musil, que sentiram antes de outros um grande terramoto…

Que foram, portanto, sismógrafos, para retomarmos uma metáfora então muito utilizada…

Sim, estações meteorológicas que detectaram o fim de um mundo, ao mesmo tempo que eram uma mistura de resistência e consciência irónica desse fim. Mas o meu livro é feito de tantas histórias que pode ser definido como um mosaico.

A metáfora do mosaico é aquele que foi também utilizada para designar o Imperio austro-húngaro: o “mosaico harmonioso”…

O “mosaico harmonioso” do Império. Uma coisa que me fascinava, e que constituiu o tema do meu primeiro livro, era o mito do Império Habsburgo, que eu definia através desta contradição: era celebrado como um mundo da ordem, mas tinha elaborado uma cultura que denunciava a desordem do mundo, o modelo do mundo contemporâneo, marcado pela ausência de fundamento.

E acha que essa constelação filosófica, cultural e literária ainda é válida para interpretar o nosso tempo?

Absolutamente. Estou convencido, sem qualquer hesitação, de que a última grande literatura que se defrontou com uma mudança do mundo que está ainda a acontecer é precisamente aquela que vai dos anos 10 aos anos 30 do século passado: Kafka, Faulkner, Pessoa, Svevo… Todos eles se defrontaram lucidamente com as transformações do mundo, o que os torna mais actuais do que grande parte da literatura escrita hoje. Um professor muito reputado da universidade onde ensinei, um marxista muito crítico em relação a esta literatura de Musil, de Kafka, de Pessoa, disse-me uma vez: “A vossa geração, com o vosso Joyce…”. Eu interrompi-o para lhe dizer: “Repara que Joyce é da geração do teu pai.” Mas, de certo modo, o que ele dizia era justo: ele sentia essa literatura como escandalosamente nova. Musil escreveu o seu primeiro romance, O Jovem Törless, em 1906, um ano antes da morte de Carducci, o nosso poeta clássico, mas é como se não tivessem pertencido ao mesmo tempo.

Alfabetos é também uma viagem, mas a viagem de um leitor que refaz o percurso das suas leituras electivas…

Como disse Borges, “a minha glória não são os livros que escrevi, mas os livros que li”. Chamei a esse livro Alfabetos porque me recordei que quando aprendi a ler, com a minha mãe, entre os cinco e os seis anos, em Udine, no último ano da Segunda Guerra Mundial, comecei a decifrar as placas da rua, as inscrições. E de repente percebi que aqueles sinais estranhos eram a chave para entrar no mundo. A literatura é uma chave para entrar na vida, para nos fazer perceber algo que está para além da literatura: o que é a coragem, o que é apaixonar-se, que a vida é cheia de encanto ou é um horror, etc.

A época e a geografia literária que mais o mobilizaram, enquanto ensaísta, puseram-no perante uma literatura do desencanto, e esta palavra surge aliás no título de um dos seus livros, Utopia e Desencanto. Mas, afinal, acaba por entender a literatura como algo sempre encantado.

E é. A literatura do desencanto não é a destruição do encanto, é a consciência melancólica mas necessária da realidade. Quando Dom Quixote fantasia numa coisa aquilo que ela não é, tem razão, contra Sancho Pança, porque as coisas não se reduzem à sua dimensão prática. O desencanto, que nos faz ver o mundo como é, torna verdadeira e não falsa a consciência da vida, que é uma consciência dolorosa, mas não retira o encanto. Creio fortemente na força criativa do desencanto. Mesmo politicamente, sinto o desencanto como positivo: se uma visão política do mundo pretende ter uma receita absoluta, naturalmente que é falsa. Moisés não tem ilusões e sabe que não alcançará a terra prometida, mas não desiste de caminhar para ela.

Na capa da edição portuguesa de Alfabetos lê-se uma citação do New York Times que o classifica como “o escritor europeu por excelência”. O que é um escritor europeu?

Tenho a forte consciência de pertencer a uma cultura que significa um modo de ser, um modo de conceber os problemas e um modo de relação com os outros que não são apenas italianos, de Trieste, mas pertencem profundamente a uma tradição europeia que desde o início proclamou a existência de alguns valores inalienáveis. Se tivesse de evocar um antepassado, evocaria Antígona, mãe de todos nós. É verdade que a Europa praticou os actos mais monstruosos, mas a cultura em que me inscrevo é muito europeia. O meu sentimento do amor é feito da Vita Nuova de Dante, da Éducation Sentimentale, de Flaubert. Pertenço a uma civilização do individualismo, dos valores universalmente válidos, da democracia e do liberalismo. Isto independentemente de os Estados europeus estarem cheios de cadáveres, de a Europa se ter tantas vezes negado a si mesma. A civilização europeia sabe que a utopia é desencanto, é uma civilização com uma grande ironia e que sabe que a ironia não é uma coisa que destrói os ideais.

A ironia remete-nos novamente para uma característica fundamental da cultura mitteleuropeia…

Sim, basta pensar em Musil, que dizia que no nosso mundo pode suceder que um génio seja tomado por um imbecil, mas nunca um imbecil será visto como um génio. Ou a história da imperatriz Sissi que escrevia poemas que dizia serem resultado de um contacto mediúnico com Heine. Um conselheiro imperial da corte um dia comentou: vê-se bem que Heine, depois de morto, piorou imenso como poeta.

Votando às classificações: escritor europeu e triestino. Que relação necessária ou contingente existe entre estas duas condições?

Trieste é europeia e não europeia. É uma cidade de fronteira, e as fronteiras são lugares de encontro, mas também de separação. Trieste encontrou a sua grandeza não tanto na realidade, mas na literatura. O drama de Trieste é que começa a tornar-se literariamente muito importante (Svevo e Saba são os maiores de um conjunto numeroso) quando começa a sua decadência económica e política.

O que entendia Scipio Slataper por “triestinidade”, esse conceito que ele criou?

A resposta está no início do seu livro Il mio Carso, na fórmula do “queria dizer-vos”: “Vorrei dirvi: Sono nato in Carso (…). Vorrei dirvi: Sono nato in Croazia (…). Vorrei dirvi: Sono nato nela pianura moldava”. Ele nasceu em Trieste, e o que “queria dizer” é que a sua identidade não pode ser dita directamente, não pode ser definida em termos positivos. Hoje já não se pode falar assim de Trieste. É uma cidade, digamos, normalizada. Do ponto de vista cultural, é preciso algum cuidado para não transformar em estereótipo esta questão de uma Trieste mitteleuropeia. Eu sou talvez o último…

O último triestino que arrasta consigo essa temática histórica?

Sim, porque tive a sorte de ter deixado a cidade e ido para Turim, onde estudei e depois fui professor, e só muito mais tarde regressei, sem nunca ter tido com ela uma relação edipiana. Foi ter ido para Turim que me permitiu ser tão triestino. Tive a felicidade de ser amigo de dois ilustres representantes da grande geração triestina de antes da Primeira Guerra Mundial: o poeta Biagio Marin, que morreu em 1985, com 94 anos, e um germanista, Guido Devescovi. Ambos tinham combatido como voluntários contra o Império Habsburgo e depois descobriram a grandeza deste império para cuja destruição tinham contribuído. E isto deu-me uma grande lição que pode ser sintetizada nestas palavras do escritor mais amado do Império, Joseph Roth, o autor da Marcha de Radetzky: “Foi porque, quando era jovem, me rebelei contra o Imperador Francisco José, que hoje tenho o direito de chorar a minha pátria que me educou para a fidelidade através da rebelião”.

Conheceu um triestino também muito importante, um escritor quase sem obra, Roberto Bazlen?

Não o conheci. Foi sobretudo um grande leitor, mais do que escritor. Ele dizia que só escrevia notas de rodapé. Foi quem descobriu Italo Svevo e o deu a ler a Montale, de quem era muito amigo. Tinha uma inteligência luciferina. Disse uma coisa fulminante de Svevo: que ele não era um homem particularmente inteligente, “só tinha génio”.

Teve nos últimos anos uma forte intervenção crítica, enquanto cronista no Corriere della Sera, relativamente a Berlusconi e a toda a situação política italiana…

Devo dizer que é algo sobre o qual escrevo a contragosto, apenas porque acho que o compromisso moral é necessário. Podemos observar um fenómeno, sobretudo em Itália, mas não exclusivamente, para o qual inventei um termo, copiado do Lumpenproletariat de Marx: é a Lumpen-burguesia, uma burguesia que tanto no plano intelectual como moral perdeu o sentido da decência e do respeito e começou a agir e a falar com uma tal vulgaridade que não julgávamos que fosse possível. E a esquerda italiana foi de uma enorme estupidez porque sempre subavaliou Berlusconi. Imagine que o parlamento italiano votou para dizer se Ruby, a jovem que esteve no centro de um dos casos de Berlusconi, era ou não sobrinha de Mubarak. A Itália sempre esteve na vanguarda, o fascismo fomos nós que o inventámos, os outros depois pegaram na nossa invenção. Quando eu era adolescente, tínhamos em casa, como doméstica, uma mulher interessantíssima que tinha sido condenada à prisão, no tempo do fascismo, por actividade política. Tinha conseguido escapar para França e voltou 20 anos depois: falava uma língua que misturava o italiano, o esloveno e o francês. Tinha muito pouca escolaridade, mas era muito inteligente e tinha uma grande preparação política. Era comunista. O meu pai era da esquerda democrática. Muitas vezes, ao almoço, discutiam. No andar de cima vivia uma família daquelas que pode ter Auschwitz à porta de casa mas acha que isso não é nada com ela. Um dia, em 1953, em véspera de eleições, o meu pai e a nossa empregada, a senhora Maria, discutiam como sempre e o meu pai perguntou-lhe: “Em quem acha que votam os nossos vizinhos do andar de cima?”. E ela respondeu, de maneira aristocrática: “Em quem votam esses idiotas não importa nada”. É precisamente esta gente, que a senhora Maria achava insignificante, que a certa altura, em Itália, se tornou protagonista, sem receio, sequer, de ser criticada, pelo que nem precisa de ser hipócrita.

Pasolini foi talvez o intelectual italiano que mais cedo viu tudo isso.

Sim, Pasolini, com todas as suas contradições, compreendeu coisas fundamentais e foi uma personalidade genial. Percebeu os erros da esquerda, e aquele seu poema em defesa da polícia contra os estudantes burgueses e bem-pensantes é, deste ponto de vista, interessantíssimo. Pasolini percebeu que se estava a dar uma mudança quase antropológica, percebeu como ninguém o que estava a acontecer e o que estava por vir.