Casas diferentes para vidas diferentes

Apesar de periférica, a zona da Expo (em cima) não é vista como um subúrbio pelos seus habitantes; as Avenidas Novas (em baixo) redefiniram o modelo da casa burguesa para o século XX
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Apesar de periférica, a zona da Expo (em cima) não é vista como um subúrbio pelos seus habitantes; as Avenidas Novas (em baixo) redefiniram o modelo da casa burguesa para o século XX ENRIC VIVES-RUBIO

A classe média portuguesa passou os últimos anos a diferenciar-se: através do consumo, claro, mas também de novos estilos de vida centrados no usufruto da cidade e na recusa da suburbanidade. Sandra Marques Pereira documenta o fenómeno em Casa e mudança social, uma leitura das transformações da sociedade portuguesa a partir da casa

Inserida num terreno de produção sociológica particularmente sólido em Portugal — o dos estudos sobre a habitação —, a investigação de Sandra Marques Pereira agora apresentada em livro, Casa e mudança social, uma leitura das transformações da sociedade portuguesa a partir da casa, tem a originalidade de se centrar não na já muito estudada habitação social, mas na habitação colocada no mercado e destinada a estratos específicos da classe média.

O seu livro parte do estudo de alguns tipos de casa existentes em Lisboa e acaba por nos fazer chegar às transformações da sociedade portuguesa. Como é que se lêem as transformações de uma sociedade partindo do estudo das suas casas?

O meu trabalho tem a ver com a relação entre a arquitectura e a sociedade. É essa a questão, que se aplica, neste caso, particularmente à habitação. O que me interessa é a arquitectura enquanto espacialização dos valores e das normas de uma determinada sociedade. A habitação é o espaço por excelência do indivíduo e da família e nesse sentido a questão será saber como é que a arquitectura doméstica dá corpo aos valores e ideias de uma determinada sociedade. A partir de quatro pontos de vista: o primeiro é o da implantação do edifício no espaço urbano, depois os da arquitectura exterior do edifício e da distribuição dos espaços comuns e, finalmente, o ponto de vista do apartamento.

E como se relaciona isso com as transformações da família?

Partindo do estudo sociológico da família e, por analogia, estudando a habitação. Quando analisamos a família fazemo-lo do ponto de vista quantitativo (com filhos, sem filhos...), mas também do ponto de vista qualitativo (como é que os vários membros da família se relacionam, qual é a estrutura de papéis, a hierarquia de poderes ...). O que eu faço é uma transposição dessas duas lógicas de análise da família para a análise do espaço. As duas componentes traduzem-se na evolução dos modelos habitacionais: do ponto de vista da composição e do ponto de vista da sua organização. A estrutura funcional da casa dá forma à organização da família. Espacializa-a.

Mas o seu livro não se limita a essa constatação. Faz um percurso histórico que se inicia no fim do século XIX e se prolonga até à actualidade, permitindo-nos percepcionar a relação entre casa e família ao longo do tempo. Ficamos nomeadamente a perceber como é que o Estado Novo “desenhou” as casas para a família que queria instituir. Por exemplo, uma das divisões que desaparece com esse novo “desenho” é o toilette, espaço exclusivamente feminino e de origem parisiense.

Lisboa, ao contrário do Porto, que tem mais influência inglesa, tem uma forte influência francesa. O “gaioleiro” — o modelo de edifício típico das Avenidas Novas — tem especificidades locais, mas essa divisão, o toilette, ou melhor, essa designação, é importada de França. Os nossos edifícios não reproduzem obviamente os edifícios parisienses da época, mas, tal como a cultura francesa está presente na Lisboa do fim do século XIX e princípio do século XX, também o modelo de casa o está.

O desaparecimento dessa divisão, antes destinada à construção de um certo tipo de mulher, particularmente empenhada na sua imagem pública, corresponde a uma transformação significativa do papel da mulher na família e na sociedade portuguesa?

Pelo menos na literatura percebe-se que o princípio do século XX é muito mais aberto a essa cultura de coquetterie. Mas se calhar a imagem que a literatura nos transmite também é mais erotizada do que seria a vida real das mulheres que habitavam essas casas. A casa de que estamos a falar — a casa burguesa — é a primeira a introduzir o quarto conjugal. Na casa aristocrática, anterior, havia uma separação entre o quarto da mulher e o do marido. No gaioleiro surge o quarto de casal — às vezes ainda com duas camas — e essa divisão, o toilette, mantém uma certa duplicação dos espaços. Há também uma cultura de pudor.

Ou a ideia de que não é suposto que a produção de um corpo erótico — a sua encenação — se faça à vista dos seus destinatários.

Nessa casa, a divisão sexual do espaço é muito marcada. O escritório, masculino, é a divisão mais próxima do espaço público; por vezes tem mesmo uma porta que dá para o exterior. A divisão entre a fachada e as traseiras é também muito importante. É uma espécie de divisão entre a representação — o espaço social — e a realidade do quotidiano. A casa do Estado Novo surge de modo a moralizar e a hierarquizar de forma clara a habitação que vinha dessa época. Utiliza a racionalização do espaço — que tem origem no movimento moderno — a favor dos seus princípios mais conservadores. Separa as zonas social, privada e de serviços. Na parte social — fachada — é introduzida uma nova divisão, o hall, e passam a estar também o escritório, a sala de estar e a sala de jantar (numa gradação que vai do público para o privado). Depois temos a zona dos quartos e casa de banho (o quarto do casal antes estava na fachada) e finalmente uma zona de serviços, com a cozinha, a copa e o quarto e a casa de banho da criada. Esta zona, que passa a ter uma porta que dá para as escadas e porta de serviço, é importante porque é nela que melhor percebemos como se fazia a materialização das hierarquias sociais no Estado Novo.

Na primeira parte do livro trabalha casas do passado que foram sobretudo habitadas por camadas dos estratos superiores das classes médias lisboetas. Quando, na segunda parte, se refere aos habitantes das casas contemporâneas que estudou, colocadas no mercado no início do século XXI, fala em “novas classes médias”. Quem são essas pessoas?

Em sociologia associamos as novas classes médias a todo um grupo que beneficiou de um longo processo de escolarização e que acaba por concentrar os sinais de maior modernização da sociedade. No caso da sociedade portuguesa, associa-se-lhes o desejo de internacionalização, de cumprir com estilos de vida mais cosmopolitas... São um grupo que institucionaliza a modernização e que o faz sobretudo porque beneficiou de um grande investimento do ponto de vista da escolaridade.

Dentro dessas classes médias escolhe pessoas que procuraram casas diferentes. Diz que essa procura corresponde a um desejo de diferenciação.

Eu percebi que entre essas novas classes médias, que são diversas, havia um desejo de diferenciação. Era isso que as marcava. Fui por isso à procura, no mercado, de soluções diferenciadas, para perceber o que é que ele oferecia.

Concretamente: um conjunto residencial com apartamentos muito pequenos, um edifício de arquitectura sustentável e um edifício de lofts. Estes últimos são talvez os que têm características morfológicas, funcionais e simbólicas mais específicas. Os lofts ganharam visibilidade nos anos 1960 em Nova Iorque. Basicamente eram espaços industriais apropriados por artistas que aí arranjavam, eles próprios, a sua casa. Eram um espaço de ensaio da sua criatividade individual. A sua principal característica era serem espaços abertos e onde algumas componentes específicas dos edifícios industriais estavam presentes. Depois tornou-se um modelo muito apreciado.

E uma oferta que o mercado passa a apresentar já finalizada.

É institucionalizado. No caso que eu estudei, tratou-se da reabilitação de uma fábrica. A abertura do espaço e a utilização do tijolo, que apela à memória do industrialismo, estão neles presentes.

A memória cinematográfica, dos filmes da década de 1980, também é convocada.

Das casas que estudei, os lofts são o modelo mais mediatizado e mais transmitido pelo cinema. A geração que os habita foi adolescente nessa década e os filmes de que eles falam são Nove Semanas e Meia e Flashdance. São exactamente os mesmo dois filmes que os entrevistados de um estudo feito no Canadá referem. É um modelo muito conotado com a juventude e com a sensualidade.

Com um estilo de vida que prolonga no tempo uma série de práticas incompatíveis com a presença de filhos. Jantares, festas...

Nos lofts o modelo dominante de família não é o do casal com filhos. O facto de ser um espaço aberto é uma das características mais valorizadas pelos proprietários. Essa característica, que também é valorizada noutros tipos de casas — nomeadamente no edifício de arquitectura sustentável —, relaciona-se com a informalidade dos estilos de vida desses grupos sociais. A permeabilidade entre a cozinha e a sala é uma tendência mais geral, que tem a ver com a miscigenação das funções de estar e de cozinhar (hoje essas pessoas recebem também na cozinha) e com a alteração da divisão das tarefas entre homem e mulher.

Nessas circunstâncias, o que também se alterou foi a representação do acto de cozinhar, que passou a ser mais um acto de excepção do que quotidiano.

Sim. Passou também a ser um acto de criatividade individual.

Inserido numa socialização alargada ao exterior da família.

Claro. As ideias de festa e de encenação estão presentes.

Dois dos tipos de casa que estudou encontram-se no centro histórico de Lisboa e o terceiro na Expo, uma zona nova, mas que não é considerada pelos seus habitantes como um subúrbio. Estar na cidade parece ser uma condição para a construção destes novos estilos de vida, muito dependentes dos consumos culturais e de lazer.

A experimentação do centro urbano da cidade, feita frequentemente no início da vida adulta, produz uma espécie de ponto de não-retorno. Ao contrário da maioria da população, que considera que o centro da cidade não é um espaço para as famílias, estas pessoas não querem voltar aos sítios onde viveram. Viver no centro da cidade está associado a um processo de diferenciação identitária que depois tem de ter uma continuidade. O tipo de casa pode variar, mas a sua implantação na cidade é fundamental.