Armstrong, anatomia da mentira

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Alex Gibney queria fazer um feel good movie sobre o regresso de Lance Armstrong ao Tour em 2009. Mas a realidade mudou-lhe o foco do filme. O grande herói, o sobrevivente de um cancro, era, afinal, uma grande fraude.

Há uma frase que Floyd Landis diz a certa altura no documentário A Mentira de Armstrong. “Alguma vez temos de dizer aos nossos filhos que o Pai Natal não existe.” Landis foi um dos primeiros a dizer, com todas as letras, que o Pai Natal não existia, ou seja, que Lance Armstrong era um grande mentiroso, que os seus sete triunfos na Volta a França em bicicleta entre 1999 e 2005 tinham sido conquistados com o recurso a substâncias dopantes. É disto que trata o filme de Alex Gibney, realizador do oscarizado Taxi to the Dark Side. Sobre a mentira de Armstrong muitas vezes repetida e que foi contada mais uma vez.

A Mentira de Armstrong, que estreou nesta quinta-feira em Portugal, começou por ser outra coisa. Era para ser uma história com final feliz, um conto de fadas, um poema épico para um herói que escapou à morte. Em 2008, Gibney, que não sabia muito de ciclismo, foi contactado pela “entourage” de Armstrong para filmar um documentário sobre o regresso do ciclista texano ao Tour que iria acontecer no ano seguinte, quatro anos depois de abandonar a competição. Teria acesso aos bastidores do regresso, desde a preparação do anúncio até à meta nos Campos Elísios. E teria um título diferente, The Road Back. A estrada de volta.

De volta ao passado, também. “O objectivo não era fazer um filme sobre Armstrong e o doping, era fazer um filme sobre o seu regresso. O título original era The Road Back”, o sentido literal era o de ser uma história de regresso, mas tinha um duplo significado, a estrada de volta ao passado, que é como dizer, ‘Como é que este regresso nos leva de volta ao passado?”, conta Gibney, em entrevista ao jornal britânico Guardian. The Road Back era o filme que Gibney tinha pronto em 2010. Só faltava inserir os créditos. Depois veio a tempestade e The Road Back já não fazia sentido. A mentira entrara no jogo.

As alegações já vinham do passado, mas um inquérito da USADA (Agência Anti-Doping dos Estados Unidos) recuperou o assunto e vários antigos colegas de Armstrong, como Taylor Hamilton ou Floyd Landis, também ele um antigo vencedor do Tour que caíra em desgraça por causa do doping, assumiram publicamente que o consumo de substâncias proibidas era uma prática corrente de Armstrong. Eram testemunhos em primeira mão de algo que Armstrong sempre negara. Gibney começou a pensar noutro filme, com outro argumento, para o qual não tinha material. Mas também não ia deitar fora o que já tinha filmado.

Tomando como título uma manchete do jornal desportivo L’Equipe em 2005, La Mensonge Armstrong, Gibney traça o percurso de Armstrong, desde a infância marcada pela ausência do pai, passando pela sua entrada no ciclismo, a luta contra o cancro testicular e pela ascensão ao estatuto de rei do pelotão internacional. No filme inicial, serviria para introduzir a história do regresso, devidamente enquadrada com entrevistas ao próprio Armstrong realizadas em 2009. A vontade de vencer, a superação da doença, as suspeitas injustas dos invejosos: o texano fala de tudo isto com aparente sinceridade e até alguma emotividade.

Suspensão da descrença

Em 2009, Gibney também falou com alguns inimigos declarados de Armstrong, como o jornalista irlandês David Walsh, autor de vários livros sobre doping sistemático do texano (Armstrong chamava-lhe o pequeno troll), Frankie Andreu, antigo companheiro de equipa de Armstrong na US Postal que testemunhou contra ele num julgamento, ou Filippo Simeoni, o ciclista italiano que foi humilhado por Armstrong no Tour de 2004 – Simeoni foi um dos denunciantes do consumo de substâncias proibidas no pelotão internacional e, por isso, quando tentou uma fuga numa etapa, foi perseguido e alcançado por Armstrong, que era o camisola amarela.

Havia o contraditório à narrativa de Armstrong, mas o final (feliz) já estava escrito. O regresso triunfante, ganhasse, ou não, o Tour, seria o epílogo do filme. Armstrong trabalhou para esse final, terminando o Tour de 2009 em terceiro, chegando com os primeiros na mítica subida do Mont Ventoux. Foi um cavaleiro a subir heroicamente aquela desolada montanha alpina onde já morrera um ciclista (Tom Simpson, em 1967). “Chapeaux Armstrong”, foi como o “L’Equipe” chamou à escalada do norte-americano, a fazer relembrar o passado em que o ciclista tinha sempre mais uma mudança que os outros para meter.

Só nestes termos é que Gibney teve acesso aos bastidores do regresso, acompanhando Armstrong e a sua nova equipa, a Astana, na preparação e assistindo aos múltiplos controlos antidoping feitos fora de competição - foi neste contexto que Gibney teve autorização para falar com Michelle Ferrari, o médico italiano que é apontado como o arquitecto de toda a operação, uma das raras vezes em que o clínico deu entrevistas. Armstrong mostra-se mesmo enfadado com as várias recolhas de sangue e urina a que é sujeito, e ele, o atleta limpo, diz às filhas que a sua profissão é dar sangue. As autoridades antidoping e os outros descrentes eram apresentados como os vilões da história.

“Na ausência de quaisquer testes positivos, Lance e a sua equipa repetiam sempre o mesmo mantra – ‘Nunca tive um teste positivo’. No conforto do círculo íntimo de Lance, este mantra era algo familiar, como ouvir a Dorothy dizer [em O Feiticeiro de Oz] ‘não há como a nossa casa’. Como gostava do Lance – apesar dos rumores contrários, ele é um tipo divertido para se conviver – comecei a ser atraído para um estado de suspensão de descrença que é típico de qualquer fã”, conta Gibney nas notas de produção do filme.

O próprio realizador começou a questionar a sua própria objectividade, ao mesmo tempo que ia encontrando dificuldades em falar com outras pessoas do campo oposto. Depois de fazer documentários sobre tortura no Afeganistão (Taxi to the Dark Side) e corrupção empresarial (Enron: The Smartest Guys in the Room), Gibney queria um feel good movie, mas a realidade adiantou-se e esvaziou a história que estava pensada. “O que me interessou foi a mentira. O Lance não se apoiava apenas nos resultados dos testes; ele disse a toda a gente que deviam ser loucos em pensar que ele, um sobrevivente de cancro, alguma vez iria usar doping. Ao fazê-lo, transformou todos aqueles que o defenderam – incluindo milhões de sobreviventes de cancro em todo o mundo – cúmplices desta fraude”, considera Gibney, que também estava a fazer parte da mentira.

O foco do filme passou a ser a forma como Armstrong foi mantendo uma cortina de fumo no ar para esconder o segredo. A história vinha desde 1999, quando um ciclista norte-americano que tinha acabado de debelar um cancro e a correr por uma equipa em que ninguém acreditava (US Postal) venceu o primeiro Tour. Começavam aqui as histórias de intimidação, perseguição judicial e nos media – Andreu e a mulher, Walsh e Simeoni foram algumas das vítimas. A estratégia era negação, negação, negação, e contra-ataque. Tudo para preservar a bela mentira, a que mantinha de pé o mito, que por, sua vez, servia de base para o activismo de Armstrong, uma das maiores celebridades desportivas do planeta, na luta contra o cancro – a sua fundação, a Livestrong, facturou milhões com as pulseiras amarelas, símbolos da luta contra o cancro.

“O segredo sujo desta mentira era que a prova do doping estava escondida à vista de todos desde a primeira vitória no Tour. Mas ele era tão poderoso no desporto que podia proteger e defender a sua mentira com a arrogância e a crueldade que mostrava aos seus rivais na estrada. Este passava a ser um filme sobre ganhar a todo o custo. O que mais admirava nele – a vontade de vencer – era o que lhe permitia, fora da bicicleta, intimidar os fracos para proteger a sua reputação”, diz o realizador.

No início de 2013, Armstrong já deixara de existir como ícone desportivo e decidiu contar tudo numa entrevista confessional a Oprah Winfrey, em que, pela primeira vez, respondeu com um “sim” às seguintes perguntas: “Tomou substâncias proibidas para melhorar o seu rendimento desportivo? Uma dessas substâncias era EPO? Recorreu a transfusões sanguíneas para melhorar o seu rendimento desportivo? Usou outras substâncias proibidas, como testosterona, cortisona ou hormonas de crescimento? Nas sete vezes que ganhou o Tour, utilizou substâncias dopantes?”

Depois da entrevista de Oprah, Gibney voltou a conversar com Armstrong, que reiterou os seus pecados, mas continuou sempre a negar que estava dopado no ano do regresso, em que foi terceiro, um resultado que também lhe foi retirado – e o 23.º no Tour 2010 também foi apagado. Nas estatísticas do Tour, Armstrong tem apenas uma classificação que não foi apagada, um 36.º posto em 1995, tendo desistido em quatro outras edições.

A conclusão de Armstrong é que nunca teria sido apanhado se não tivesse voltado em 2009. Mas garante que nesse ano, em que conquistou o Mont Ventoux, estava limpo. Quanto aos outros anos, Armstrong diz que estava apenas a entrar no jogo e que o doping era uma prática generalizada. “É impossível ganhar o Tour sem doping”, contava numa entrevista em 2013 ao Le Monde, pouco antes do início do Tour 2013, ganho com tal autoridade por Chris Froome que as mesmas suspeitas se levantaram.

Se olharmos para o historial recente do Tour, Armstrong é capaz de ter razão: entre 1998 e 2013, apenas quatro vencedores não estiveram envolvidos em escândalos de doping, Carlos Sastre (2008), Cadel Evans (2011), Bradley Wiggins (2012) e Froome (2013). Outros ciclistas do topo do pelotão – Marco Pantani, Jan Ulrich, Floyd Landis ou Alberto Contador, entre outros – também foram castigados, mas nenhum sofreu tantas ondas de choque como Armstrong. Porque ninguém ganhou tanto como ele. E foi ele quem mentiu mais.