A festa acabou, façamos outra

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Paulo Pimenta

Desconcerto, descontrolo, abismo, perda — Joclécio Azevedo não sabe bem “quantas coisas se misturam” em Pedimos desculpas pelo incómodo, a (r)evolução segue dentro de momentos, que amanhã estreia, entre confetti pisados e garrafas vazias, no Circular — Festival de Artes Performativas, em Vila do Conde. Parece o fim de alguma coisa, mas não, é só a manhã seguinte: estes corpos acabaram de acordar para a vida

Tem aquele ar acabado de manhã seguinte, o lugar onde amanhã às 21h30, no Teatro Municipal de Vila do Conde, Joclécio Azevedo e Pedro Rosa caminham em cima de uma festa que talvez tenha sido bonita, pá, a julgar pelos confetti pisados e pelas garrafas vazias. Chegámos tarde de mais, parece, mas depois aquilo que parecia ter acabado segue — cumprindo à letra as instruções do título — dentro de momentos. A revolução, seja lá o que isso for, porque será basicamente o que fizermos dela, não pode esperar.

Pedimos desculpas pelo incómodo, a (r)evolução segue dentro de momentos, que o coreógrafo luso-brasileiro Joclécio Azevedo estreia neste último fim-de-semana do Circular — Festival de Artes Performativas, é consequência directa de um lugar aparentemente ainda mais acabado do que a (pior) manhã seguinte: o Portugal totalmente fim de festa circa 2013, parado no trânsito da economia global à espera de uma terceira via, de um segundo resgate, de um primeiro emprego, de uma porcaria qualquer. É uma energia tão legítima como as outras, a da ressaca, mas Pedimos desculpas pelo incómodo, a (r)evolução segue dentro de momentos não demora muito tempo a lambê-la: “Os confetti dão-nos esse ambiente de fim de festa, de uma festa a que chegámos demasiado tarde, eventualmente até de uma catástrofe. Paciência: vamos lidar com aquilo que sobrou, mesmo que sejam só os restos, mesmo que seja só o lixo”, explica Joclécio.

A manhã seguinte também pode ser isso: o preciso momento em que se acorda para a vida. Foi nessa energia, bem mais produtiva do que a da ressaca, que Joclécio Azevedo e Pedro Rosa se concentraram nos ensaios, quando foi preciso começar a fazer alguma coisa com as palavras difíceis (porque a vida está difícil) atiradas algum tempo antes para a nota de intenções do espectáculo: mal-estar, impasse, suspensão, paralisação. “Essas coisas — os silêncios, as paragens, as interrupções, o nada — vão acontecendo durante a peça. E embora à partida possam parecer estados incompatíveis com a dança, que tem sobretudo a ver com o movimento, são na verdade estados muito reveladores: produzem um corpo diferente, que reage de forma diferente. Mas acabámos por trabalhar sobretudo a ideia de energia. Passámos os ensaios à procura da energia perdida. E das várias possibilidades de usar o corpo como antena, como um instrumento capaz de a captar. Mal começámos a ensaiar, o pensamento óbvio que nos apareceu foi esse: temos de acordar o corpo”, diz Joclécio ao Ípsilon.

Tem as suas debilidades, um corpo acabado de acordar. É um corpo estremunhado, a tropeçar em garrafas vazias, a desorientar-se enquanto tenta fazer caminho. Mas também é o corpo das primeiras horas, daquelas em que se dá tudo, e por isso tem essa energia febril (mesmo que inconsequente e incoerente: Pedimos desculpas... reivindica essa liberdade) de querer fazer as coisas que têm de ser feitas no momento em que têm de ser feitas — e com o que houver à mão (o que também podia ser um statement sobre como continuar a dançar num país em crise, mas disso falaremos mais à frente). “Não temos propriamente uma cenografia: o que está em cima do palco é mais o amontoado de coisas que se metem no nosso caminho e com as quais temos de conviver. Quase como o quotidiano. As garrafas vazias estavam na sala de ensaios, os galhos eram o que havia à volta do Teatro do Campo Alegre, onde trabalhámos em residência durante duas semanas... A única excepção são os confetti”, explica o coreógrafo. O guarda-roupa, continua, também “tem um bocado esse lado não-programado”: “No início tentámos pesquisar de que forma a inquietação se manifesta na forma de vestir: fomos buscar coisas dos stilyagi, a versão russa dos hipsters. Entretanto começámos a misturá-las com aqueles elementos mais do-it-yourself que se vêem muito nas ruas de Tóquio, com o punk. É interessante como todos os movimentos de revolta acabam por se tornar mainstream, por se tornar moda. Quase como se todas as revoluções estivessem condenadas a dissolver-se na imobilidade — até a força que se manifesta na maneira de vestir pode ser sugada, e depois não sabes muito bem onde ir buscar mais.”

Nisso e noutras coisas, conclui o coreógrafo, Pedimos desculpas... tornou-se um espectáculo “alegórico”, quando o “ponto de partida era muito realista”: “Encontrámos uma forma física de manifestar o desconcerto, o descontrolo, o abismo, a perda — não sei quantas coisas se misturam aqui. Tem de haver uma forma física de conseguir ir vencendo esta apoplexia, esta quase alienação. Uma forma física de resistir.”

Tomar o poder

Além de uma aprendizagem da resistência, Pedimos desculpas pelo incómodo, a (r)evolução segue dentro de momentos foi também uma aprendizagem de processos alternativos de trabalho. Criada em tempo-recorde — duas semanas de residência no Porto, outra (esta que agora termina) em Vila do Conde —, a peça tem, diz Pedro Rosa, “uma certa urgência” que não existiria se os intérpretes tivessem “andado um ou dois meses à procura”. Talvez por isso continuem à procura, mesmo que a estreia seja já amanhã: “Não é um espectáculo totalmente marcado. Temos o mesmo material para usar em palco, mas a forma como a peça acontece depende de como o fazemos viver. Há um lado bastante vivo no modo como o corpo é activado aqui”, defende Joclécio. E também no modo como ele reage à banda sonora de Pedro Augusto/Ghuna X, o terceiro elemento que se intromete entre os dois ocupantes do palco: “A música é outro corpo com o qual dialogamos. Foi composta à medida que íamos trabalhando — nunca tinha tido o privilégio de ter esse processo e é um diálogo diário, que de resto continua porque apesar de haver materiais gravados a banda sonora será manipulada ao vivo.”

Essa imprevisibilidade, essa ideia de que Pedimos desculpas... será o que eles fizerem dela, também é uma forma de poder. No fundo, é esse o verdadeiro tema do espectáculo, que Joclécio reconhece vagamente inspirado no livro Change the World without Taking Power (2002), do sociólogo e filósofo pós-marxista John Holloway. “O Holloway discute muito como é que podemos tomar o poder no dia-a-dia, fazendo uma distinção entre o Poder com pê maiúsculo, que é o poder sobre os outros, e o poder com pê minúsculo. A revolução de que estamos a falar não tem a ver com a História nem com o Estado, mas com a realização do humano. Connosco. E o que é realmente nosso é o corpo, que é vendido, que é dado, que é perdido — e que temos de reivindicar”, argumenta. Ele só conhece uma maneira de fazer isso: usando-o. E isso também não pode esperar.