A arte e o humor falam a mesma língua

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ENRIC VIVES-RUBIO

Obras recentes é uma iniciação ao mundo da argentina Liliana Porter - o mundo oblíquo de uma artista que aprendeu a rir para poder sobreviver.

Liliana Porter (n. Argentina, 1941) é uma artista singular. Fez exposições nos mais importantes museus do mundo, integraas colecções de arte que são referência e a sua obra é reconhecida pelo modo como, através do humor, aborda o trabalho, as relações de poder e a história da arte. Chegou a Lisboa dois dias antes de inaugurar a sua primeira exposição em Portugal, na Galeria Baginski; Obras recentes reúne trabalhos feitos entre 2008 e 2012. Se o humor, o inesperado e a pequena escala são constantes nos trabalhos que ali encontramos, formalmente as obras são muito distintas: há fotografia, desenho, escultura, instalação, vídeo. Tudo começa, porém, com objectos, imagens, brinquedos, que a artista gosta de colocar ao mesmo nível, às vezes inusitadamente. A artista falou com o Ípsilon sobre o seu trabalho, a herança argentina e Jorge Luis Borges.

Como pensou esta exposição para Lisboa?

Como é a primeira vez que exponho em Portugal, decidi trazer obras que tocassem os temas a que estou sempre a regressar, como a casa ou o trabalho. A casa presta-se a muitas leituras e metáforas: pode ser o lugar onde se está protegido, onde não se precisa de mais nada... Gosto de usar temas que tenham esta riqueza de possibilidades.

Como surge a ironia?

As minhas obras por vezes dão vontade de rir, mas é um humor que não é exclusivamente gracioso, ambiciona tocar em temas essênciais. Por exemplo, naquela obra em que uma pequena ovelha está a conversar com o postal que reproduz uma pintura renascentista [Diálogo, 2012], a questão é sobre a possibilidade de diálogo. Interessa-me muito como coisas contrárias se conseguem relacionar - como a tristeza e a alegria. Sinto que este jogo nos ensina qualquer coisa que eu não sei bem dizer o que é.

E não há questões políticas?

Sempre. A relação entre personagens tão diferentes pode traduzir uma esperança de diálogo livre e de entendimento comum.

Os seus personagens estão quase sempre a fazer coisas aparentemente inalcançáveis...

Essas obras pertencem a uma série chamada Trabalhos Forçados: são pessoas face a tarefas que as superam. É uma metáfora para tentar entender o que estamos a fazer neste mundo, porque viver é uma tarefa que parece superior às nossas possibilidades. O humor surge da consciência de que somos completamente ignorantes e estamos sempre a enganar-nos.

A impotência do homem face à imensidão das coisas que tem de fazer?

Não só a impotência, também a esperança. Sou optimista e penso que não é importante saber se chegamos ou não à solução final. O erro é importante porque é o que nos faz continuar a procurar; se tudo estivesse em ordem parávamos. O desafio é encontrar a harmonia no meio da confusão. Nesse contexto, o trabalho é uma imagem para falar do sentido da vida. Não estar louco significa o esforço para encontrar uma ordem; dedicarmo-nos a um trabalho faz parte desse esforço de sanidade.

Valoriza essa dimensão do fazer no seu trabalho artístico?

Não, nas minhas obras essa dimensão é quase inexistente. No fundo, as minhas coisas são quase todas encontradas. O fazer é mental e está ao serviço de uma ideia.

E os objectos?

Uso objectos porque não têm classe social; todos têm o mesmo valor e status, independentemente do preço que custam. Esta simultaneidade do diverso é uma coisa que me fascina. Vou recolhendo objectos muito diferentes, sem saber bem porquê, e depois há um momento em que o seu uso se torna evidente. Gosto da escala pequena dos meus objectos porque obriga o espectador a ter de se aproximar das obras, a curvar-se.

Os seus trabalhos dialogam com a história da arte.

As obras de arte são objectos da realidade como outros quaisquer. Em Magritte (2008), usei a reprodução de uma obra do Magritte em que um homem está de pé e em baixo a legenda diz "homem sentado"; como se não tivesse percebido a obra, sentei a pintura numa cadeira. É como se estivesse a corrigir o Magritte. E na separação que ele faz entre a palavra e o objecto tomei consciência de que as coisas sem nome são mais misteriosas e exigem mais atenção. É como conta o García Márquez nos Cem Anos de Solidão: o mundo era tão recente que era preciso assinalar as coisas com o dedo.

Gosta de convocar outros artistas...

Não é preciso estar sempre a fazer tudo desde o princípio. Se alguém já pensou certas coisas, posso partir daí. E gosto de criar confusões com as obras dos outros.

Pretende com isso libertar o nosso olhar?

O nosso não sei, mas pelo menos o meu. São pequenas descobertas que faço com o mundo. O que mais gostaria na vida era de fazer artes visuais como o Borges escrevia. É o meu universo. Ele diz as coisas que eu gostava de ter dito.

Borges faz parte da aprendizagem artística que fez na Argentina?

Nasci na Argentina e vivi em Buenos Aires até aos 22 anos; foi lá que estudei arte e foi nesse contexto que aprendi o meu modo de pensar artístico. Em arte pensamos de uma maneira oblíqua: há uma lógica habitual que tem de se destruir.

Daí ter escolhido estudar arte?

Na verdade eu não escolhi, a minha mãe e a minha tia é que acharam que uma menina como eu devia estudar arte. Por sorte a coisa correu muito bem, mas só quando fui para o México é que um professor me disse: és uma artista e vais fazer uma exposição. Até aí nunca tinha tido nenhuma pressão exterior.

Quando foi para Nova Iorque?

Cheguei a Nova Iorque em 1964 e queria fazer uma grande viagem entre os EUA e a Europa para ver museus. Mas nunca mais saí de Nova Iorque. O ano em que cheguei foi intenso; logo no primeiro dia fui a uma festa e conheci duas raparigas que estavam à procura de casa e fui viver com elas. E fiquei por lá a fazer gravura. Vendi imensas gravuras. Um ano depois casei-me e arranjei logo uma galeria. Correu-me tudo muito bem. Nos EUA aprende-se a ter imensa liberdade e há espaço para toda a gente. Quando vou a Buenos Aires toda a gente olha para mim, em Nova Iorque quase ninguém sabe quem sou. Por isso foi tão importante ter ficado.

Nunca pensou voltar à Argentina?

Tenho um contacto muito próximo com o país e o meio cultural, mas voltar a viver lá não. Quando lá vou sinto-me em casa, mas em Nova Iorque também. A diferença é que em Buenos Aires todos os ritos me prendem muito: se não se põe a camisa certa toda a gente olha e perco a liberdade e o anonimato de que tanto gosto em Nova Iorque.

Nos anos 60 não sentiu discriminação por ser uma mulher do Sul?

Se eu fosse norte-americana a vida ter-me-ia corrido melhor. E é verdade que quando se olha para o meu currículo aparece sempre: artista latino-americana. Não há forma de fugir disto.

A herança argentina está muito presente no seu trabalho?

Acho que sim. No vídeo Matinée é clara essa herança. Penso em espanhol e tudo o que aprendi quando era criança continua a expressar-se. Não é um elemento racional que eu trabalhe, mas sinto que sou muito argentina. Nós os latinos não somos literais como os norte-americanos, e este modo de dizer oblíquo está muito presente no que faço.

E o seu riso? Sempre foi tão presente ou foi conquistado ao longo do tempo?

As minhas primeiras obras eram muito secas. Eu era muito séria, minimal, conceptual. Mas para sobreviver o humor foi muito importante, uma aprendizagem que recebi do meu pai. E depois a estrutura de uma piada é muito semelhante ao modo como se pensa uma obra de arte. O que é que nos faz rir? Começa a contar-se uma coisa normal e de repente vem uma coisa que não tem nada a ver com a históriar; é essa intromissão que faz rir. Com a arte é o mesmo: o que lhe dá origem é uma lógica ilógica, diferente, oblíqua.

Mas as suas obras fazem sempre sentido.

Sim, claro. As obras criam um sentido próprio e nisso são claras. É impossível que as coisas não signifiquem. E a simplicidade e a facilidade das minhas obras são meramente aparentes. Num conto, o Borges diz: "o prazer estético é a iminência de uma revelação". A arte é acerca da revelação, por isso tem de ser simples.