Lagarteiro

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O povo do Lagarteiro vive acima das possibilidades, dirá o ministro dos credores entre apertar a mão a um polícia condecorado e uma inauguração bem-sucedida, com brilho de primeiro dia a travar a ferrugem eminente no terceiro. Sempre somos um país de estreias requentadas e soluções sem alvo. Quem não paga luz, não vê luz, repete, cocem-se que coçar é energia, pensa, liguem o fósforo, encomendem noites de lua cheia, há uma bondade inata no cosmos e deus, seja qual for, sempre vela pelos pobres, ele vê-vos com a luz divina, imanente, não tem cadastro na EDP, expande a luz própria.

Tiraram a luz - electricidade, electra e cidade - ao povo do Lagarteiro, lá para oriente da Campanhã e com ela o chuveiro quente, o fogão eléctrico, o candeeiro de mesa, o aspirar, o magalhães ligado. O paternalista de serviço dirá: liguem só uma lâmpada num único compartimento, das de poupar, saibam viver com o que têm, sejam pobres competentes, os melhores do ranking, ensinem aos outros pobres a arte de poupar. Já o fazem com os bifes que vos custa com a luz? Os miúdos querem fazer os trabalhos de casa, façam com luz do dia, sejam capazes de a gerir no vosso tempo útil quotidiano e, à noite, imaginem que são pirilampos, é uma solução inventiva ou cacem gambozinos seguindo as virtudes do olfacto, também é educativo e porventura industria criativa a montar para papalvos de fora. Porque não tiram partido das vossas características próprias? Quais serão as vantagens do escuro, do blackout? Arranjem um manager, um conselheiro de marketing, um CEO. Esse é o negócio: turismo a partir da ausência de luz, do breu, dos tipos de escuro. Não vendemos nós o Sol a todos os do Norte Europeu? Vendam vocês a noite a quem tem luz a mais - oh, lembra-vos a longa noite, isso é só uma imagem. Esta é uma oportunidade de negócio, de turismo favelizante, já se faz noutras paragens e podem narrar as vossas mazelas, expô-las em ferida produtiva, exibir a tristeza, a raiva, o descolorido dos dias.

O povo do Lagarteiro fez ligação directa e tem luz, fora da lei, enquanto o piquete não vier com a tropa de choque do costume que lei é lei, é dura mas é lei. Quem não paga não come. Mas não foi Robin dos Bosques um justo, não andaram sempre a dizer-nos que o Xerife é que era o mau? Que mal faz fazer o que os bons cometem de ilegal para que os que nada têm possam viver naquele mínimo de dignidade que deveria ser consensual numa sociedade democrática? Democrática? Quais as fronteiras da lei? Que lei é essa que condena ao frio e ao desespero os desprotegidos? Há empregos a pontapé? Não querem trabalhar e outras respostas imbecis? Se são velhos que se lixe, se são novos aguentem, como disse o clarividente banqueiro, porventura cristão e talvez socialista.

Este é o caso mais claro, entre os recentes, de uma comunidade a viver acima das suas possibilidades, dirá o sociólogo que agora só fala de economia e estatísticas, com ar preocupado e a pensar numas magníficas teses de mestrado a partir deste caso de estudo. Pois, não são um nem dois, são muitos os que não pagam, trata-se de um bairro. Um bairro daqueles chamados sociais. Não têm para a luz. Espertos de serviço dizem do alto da sua iluminada pesporrência de classe que está muito bem. Deve ser assim mesmo, não paga não come. Custa acreditar que se não entenda que um bairro criado à matroca em 1973, no tempo do Dr. Marcelo, tenha sido desde logo destinado a gueto? - quando se fazem bairros especificamente para pobres o que se faz não é erradicar a pobreza mas confiná-la. É um erro sem saída, por muito que muitas periferias já não sejam o que foram, particularmente em autarquias a Sul do Tejo. Todos sabemos que o que nasce torto não se endireita mesmo que melhore, que os PDM são uma conquista de abril que os patos bravos, e seus serviçais nos poderes, continuam a destruir e contestar.

Dirá o Primeiro-ministro: saiam da zona de conforto, que vos diz uma lâmpada que uma vela não vos diga? E lembramo-nos do Mediterrâneo, de como tudo isto nesta Europa de Durão desrima e se deseuropa de forma cada vez mais banalizada e, por isso, alarmante.

No bairro várias moradoras falam em pagar, em pagar poucochinho de cada vez mas pagar, querem pagar, acham que se deve pagar. Ninguém fala com as pessoas do bairro de uma forma adulta, a EDP corta, pois assim é que é, não é uma empresa com responsabilidades sociais, não foi inventada pelo Estado para resolver problemas nacionais, dos cidadãos, é agora um negócio da china, mesma que a China seja a que é, capitalista de partido único. E a luz das Três Gargantas não chega aqui, essa é barata, apesar das águas mortas que o lago transporta e de meio milhão de chineses tirados da sua maior cidade alagada.

Há uma solução: é mudar o nome ao bairro e chamar-lhe Lagartário. Não é assim tão diferente e é um acto apenas burocrático, delicioso como gesto de poder, exige conservatória e pai do novo nome, baptismo barato, umas aspersões de água do Douro feitas com uma boa varinha mágica. Do mesmo modo que na Metamorfose, bio tecnicamente digamos e não por via existencial, as pessoas virariam lagartos, lagartas, répteis e poderiam no verão acumular sol na casca, é só lagartar então. No Inverno hibernam e o caso está resolvido. É uma sugestão científica e plena de prospectiva. Além disso poderiam praticar, na esteira da proposta de Crato, o grande perceptor liberal - as crianças em idade escolar, no Lagarteiro, sem luz, vão melhorar os resultados escolares - aquela ideia de um ano sem comer para pagar a dívida. É o que se chama uma imagem feliz. E, claro, como de noite todos os gatos são pardos, os novos lagartos poderiam com as suas línguas longas sempre ir caçando umas moscas às escondidas, pois moscas não faltarão.

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