Este não é o cérebro do matemático genial Carl Friedrich Gauss - é aquele

Há 150 anos que um frasco pertencente a uma colecção médica da Universidade de Göttingen, na Alemanha, e rotulado "C. F. G__ss" (abreviatura de "Carl Friedrich Gauss", o nome de um dos maiores matemáticos de sempre) continha... o cérebro errado. A descoberta, feita por Renate Schweizer, do Instituto Max Planck de Göttingen, e colegas, foi agora revelada na revista Brain.

Carl Friedrich Gauss (1777-1855), apelidado de "príncipe dos matemáticos", está para a matemática como Mozart está para a música. Reza a história que revelou os seus talentos antes dos três anos de idade, ao corrigir, graças à sua prodigiosa capacidade para o cálculo mental, umas morosas contas que o seu pai tinha acabado de fazer para pagar os salários semanais dos empregados. Mais tarde, as suas incursões na aritmética, na álgebra, na noção de erro de medição (que deu origem à lei de Gauss e à famosa curva em forma de sino) - para citar apenas estas - mudariam a face da ciência dos números. "A matemática depois de Gauss tornou-se algo totalmente diferente da matemática de Newton, Euler e Lagrange", escrevia o matemático britânico Eric Temple Bell no seu célebre livro Men of Mathematics (publicado pela primeira vez em 1937).

Não admira que o génio de Gauss tenha fascinado muita gente - aliás, há muito que o enigma da genialidade humana fascina tanto os cientistas como os leigos. Um desses cientistas foi o anatomista alemão Rudolf Wagner, da Universidade de Göttingen. Wagner era amigo de Gauss e, quando da morte deste, em 1855, dissecou e preservou o seu cérebro (com o consentimento do próprio) para o estudar e comparar com outros, à procura de sinais anatómicos dos extraordinários dotes do matemático.

Assim, por duas vezes, em 1860 e 1862, escreve a equipa de Renate Schweizer, Wagner publicou resultados da comparação dos cérebros de Gauss e de um médico alemão, Conrad Heinrich Fuchs, que também morrera em 1855. E realizou então gravuras e litografias de ambos os cérebros.

Wagner estava especialmente interessado em estudar as convoluções do córtex de "homens inteligentes", salientam ainda os cientistas na Brain - e foi assim que documentou, pela primeira vez, uma rara variação anatómica, uma estrutura que descreveu como "uma ponte que liga as duas convoluções centrais do cérebro".

Mais precisamente, essa particularidade anatómica, que se sabe hoje estar presente em menos de 1% da população, situa-se ao nível do chamado "sulco central" do cérebro - uma fissura que, em cada hemisfério, separa o lobo parietal do lobo frontal - e consiste numa "língua" de tecido cerebral que une esses lobos por cima da fissura, barrando assim transversalmente (como uma "ponte") o sulco central. Na imagem nesta página, o bocado de tecido em causa vê-se nitidamente na zona destacada a amarelo do cérebro da esquerda. Sabe-se hoje que ela não costuma afectar os seus portadores, embora possa causar alterações mínimas das funções motoras e sensoriais.

Foi esta particularidade anatómica que permitiu agora que os cientistas se apercebessem de que os cérebros de Fuchs e Gauss tinham sido trocados. Acontece que, em 1998, a mesma equipa tinha realizado uma reconstituição, por ressonância magnética, do cérebro contido no frasco rotulado Gauss.

Na altura, Renate Schweizer reparara na "anomalia" cerebral ao nível do sulco central. E quando, mais recentemente, começou a interessar-se por casos actuais de "sulco central dividido", como a anomalia é chamada, lembrou-se de ter visto algo idêntico no que pensava ser o cérebro de Gauss - e tornou a examiná-lo.

Só que, desta vez, também olhou de perto para as gravuras e litografias dos cérebros de Gauss e Fuchs feitas por Wagner no final do século XIX. E aí, deparou-se com uma anomalia ainda maior: as imagens digitais que fizera do suposto cérebro de Gauss, supostamente portador da particularidade anatómica inicialmente descrita por Wagner, não correspondiam à gravura feita por Wagner, há 150 anos, do cérebro de Gauss. Nessa gravura, o cérebro do matemático não apresentava nenhuma variação anatómica desse tipo.

Uma pesquisa aprofundada da colecção de cérebros conservados pela Universidade de Göttingen acabaria por revelar a existência de um segundo frasco, em tudo semelhante ao primeiro mas rotulado... "C. H. F__s". Os cientistas puderam então confirmar que as suas imagens do cérebro contido nesse segundo recipiente eram idênticas às imagens feitas por Wagner do cérebro de Gauss - e que as imagens digitais que pensavam ser do cérebro de Gauss coincidiam com as imagens de Wagner do cérebro de Fuchs. "Os cérebros tinham sido trocados há muito tempo", diz Renate Schweizer em comunicado.

A equipa acha que a troca aconteceu por volta de 1864 e que o responsável pelo acidente foi o filho de Wagner. Foi nesse ano que Hermann Wagner publicou, com base nos cérebros de Gauss, Fuchs e mais duas pessoas, uma tese de doutoramento sobre uma nova maneira de medir a dimensão do córtex. "Esta situação é claramente susceptível de ter favorecido uma troca acidental dos dois cérebros", escrevem os cientistas.

O facto de ter sido Fuchs, e não Gauss, o portador da variação anatómica em causa confirma que não é na anatomia superficial do cérebro que as raízes do génio de Gauss - ou de outros - devem ser procuradas. Pelo contrário, ficou-se a saber que, ao nível anatómico, o cérebro do ilustre matemático era mais "banal" do que se pensava.

"Detectar o génio num cérebro é um objectivo muito ambicioso", disse ao PÚBLICO Renate Schweizer. "A própria definição do génio é extremamente complexa e integra muitos conceitos diferentes. Os anatomistas do século XIX tentaram encontrar uma resposta através da quantificação da área das convoluções, mas não conseguiram. Os métodos de quantificação actuais das características funcionais e anatómicas do cérebro fornecem-nos uma quantidade muito maior de informação, mas também nos mostram quão complexas são estas questões e os desafios que apresentam. E também que não há respostas imediatas e simples."

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