“Precisamos de ajuda já”, gritam do inferno de lama de Tacloban

Perdeu-se até o material e os mantimentos armazenados para uma situação de emergência. O Presidente das Filipinas, Benigno Aquino, declarou a calamidade após o tufão Haiyan.

"Precisamos de comida", desenhou este homem num campo de andenol em Tacloban
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"Precisamos de comida", desenhou este homem num campo de andenol em Tacloban NOEL CELIS/AFP
Uma sobrevivente entre os destroços de Tacloban
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Uma sobrevivente entre os destroços de Tacloban NOEL CELIS/AFP

Por entre o caos dos saques e a balbúrdia da distribuição da ajuda de emergência na cidade de Tacloban, a capital da província filipina de Leyte que foi totalmente destruída pelo super tufão Haiyan, equipas de busca e salvamento trabalham contra o relógio para tentar encontrar sobreviventes soterrados nos escombros e perdidos da família.

Sem água, nem comida, nem abrigo, a anarquia tomou conta da cidade de 220 mil habitantes, que a tempestade converteu num gigantesco atoleiro, a ponto de o Presidente das Filipinas, Benigno Aquino, ter ameaçado decretar o estado de emergência e reforçar a presença do Exército na rua, para acabar com as pilhagens e restabelecer a ordem. “Esta situação é totalmente alheia à nossa experiência colectiva como país”, frisou.

O Presidente afastou a hipótese de instalar a lei marcial no país, mas assinou uma declaração de calamidade nacional para tornar mais expeditas as operações de assistência e os esforços de reabilitação. “O Governo está a fazer tudo o que é possível, a nossa prioridade é a comida e o restabelecimento da água, electricidade e comunicações”, informou Aquino. O Governo disponibilizou um fundo de 320 mil euros para os trabalhos de reconstrução e estabeleceu um regime de controlo de preços.

“As pessoas roubam porque têm fome”, admitiu o chefe da polícia nacional, Alan Purisima, numa conferência de imprensa em Manila. “A situação é delicada: nas áreas afectadas, temos de dar tudo como perdido, desde o material e os mantimentos armazenados para o caso de uma emergência, até ao funcionamento dos serviços e a prontidão das forças de segurança”, observou.

No aeroporto de Tacloban, Magina Fernandez pedia aos jornalistas da CNN para mostrarem ao mundo que “precisamos de ajuda agora. Não é amanhã, é já”, insistia, “a situação é muito, muito má, é um inferno”. As cenas de desespero repetiam-se nas outras ilhas afectadas pelo super tufão — os supermercados foram depredados em busca de água e alimentos, os camiões das organizações internacionais foram assaltados.

A governadora de Samar, Sharee Ann Tan, disse que na cidade de Basey foram abertas valas comuns para enterrar os mortos. Foram contados 443, e mais de 2000 desaparecidos. E “a maioria dos sobreviventes está ferida”, indicou. A localidade, tal como a vizinha Marabut, foi “absolutamente devastada. A situação não podia ser pior. Sobrou muito pouco, ou mesmo nada”, lamentou.

O seu congénere de Cebu, Junjun Davide, dizia ser impossível calcular os prejuízos na sua província — que em Agosto foi palco de uma colisão de navios com 200 vítimas, e em Outubro de um tremor de terra que matou 222 pessoas. “Agora temos mais um desafio difícil para ultrapassar, mas temos fé em Deus”, notava ao The Wall Street Journal.
600 mil desalojados

O Governo das Filipinas estima que cerca de 9,7 milhões de pessoas (cerca de 10% da população do país, em 41 províncias, tenha sido afectada pela passagem do Haiyan (que os filipinos baptizaram de Yolanda). Conscientes da severidade da tempestade, os serviços de protecção civil ordenaram a evacuação de dezenas de localidades e instalaram mais de 800 mil pessoas em centros de acolhimento; nesta segunda-feira o Exército estima que mais de 600 mil desalojados não tenham mais uma casa à qual regressar.

Nesta segunda-feira só estavam oficialmente confirmados 1774 óbitos, mas as autoridades apontam para um número final de vítimas acima das dez mil — a confirmar-se, o super tufão Haiyan será a pior catástrofe natural a abater-se sobre o massacrado território das Filipinas. O registo mais mortífero remonta a 1976, quando um terramoto de magnitude 7,9 desencadeou um tsunami no golfo de Moto, no sul do arquipélago, que matou 5791 pessoas.

Nas províncias de Leyte, Cebu e Samar, entre 70 e 90% dos edifícios e das infra-estruturas apanhadas pela rota do super tufão sofreram danos estruturais ou ficaram totalmente destruídos. As estradas intransitáveis, pontes colapsadas, telecomunicações inviáveis e aeroportos obstruídos comprometiam o acesso das equipas de emergência às áreas devastadas e o auxílio às populações.

“É uma trapalhada total”, desabafou o responsável da Cruz Vermelha das Filipinas, Richard Gordon. “Estamos a falar de destruição numa escala máxima”, referiu o director da Equipa de Avaliação e Coordenação de Desastres das Nações Unidas, Sebastian Rhodes Stampa.

O Programa Alimentar Mundial da ONU mobilizou dois milhões de dólares para a resposta de emergência: a previsão é que 2,5 milhões de pessoas necessitem de assistência prolongada.

O Presidente filipino confirmou a ajuda de 21 países — Estados Unidos, Japão, Singapura, Indonésia, Austrália, Reino Unido — e a conferência italiana de bispos anunciou um donativo de três milhões de euros para as operações de auxílio. O Papa Francisco doou 150 mil dólares e conduziu uma oração pelas vítimas na basílica de São Pedro.