"As pessoas estão a enlouquecer, algumas de fome, outras de dor"

Com mais de dez mil vítimas, o supertufão Haiyan é o pior desastre natural da história das Filipinas. Presidente Benigno Aquino pediu ajuda internacional e destacou Exército para manter a paz

Foto
A maior parte das vítimas da cidade de Taboclan morreram afogadas numa maré de cinco metrosEntre 70% e 80% dos edifícios e infra-estruturas atingidos pelo tufão ficaram totalmente destruídos NOEL CELIS/AFP

Quando a maré trazida pelo super- tufão Haiyan inundou a cidade de Tacloban, no sábado de manhã, Maritess Tayag ficou presa no quarto. "De repente ficou tudo cheio de água, só conseguia ter o nariz de fora. Cheirava a podre, a esgoto, respirar era muito difícil. Eu fazia o possível para me agarrar, para manter a cabeça levantada. Do resto da casa ouvia gritos: "Abre a porta, por favor abre a porta...""

Maritess, de 40 anos, conseguiu segurar-se e aguentar a respiração enquanto várias marés se sucediam, enchendo e esvaziando o quarto com uma água preta e pesada. Ao primeiro sinal de calma, saiu pela janela e subiu para o telhado, à espera que a chuva parasse. A irmã, Maryann, e a cunhada apareceram depois - as mulheres, que integraram a primeira vaga de refugiados transportados de Tacloban para a base militar de Villamor, em Manila, choram ao contar a sua história: a mãe e o irmão não conseguiram sair de casa.

"Eu ouvi o meu irmão gritar, dizer que já tinha água pela cabeça. Depois veio outra onda e nunca mais ouvi nada. E pensei, é agora, também vou morrer. Tinha os olhos fechados", recordou a irmã mais velha aos jornalistas do USA Today, que a encontraram entre tantos outros sobreviventes, exausta, abalada, cheia de sede, de frio e de culpa - como pode alguém sentir gratidão pela vida com tantos mortos ao seu lado?

"O mais difícil foi ver a minha mãe a flutuar e não saber o que fazer. De repente, ali estava ela, mas eu não podia fazer nada, ela já se tinha afogado naquela água preta e pesada. A única coisa que me restava era salvar-me a mim", acrescenta a irmã, conformada. A voz treme e é o cansaço que a impede de chorar mais - até chegar ao aeroporto de Tacloban, gritou o nome da mãe, pediu perdão por não ter sabido salvá-la. "Não havia nada a fazer, ela já estava morta", repete.

As autoridades estimam que mais de dez mil pessoas tenham morrido afogadas, como a mãe e o irmão de Maryann, em Tacloban e muitas outras localidades da província de Leyte, composta por centenas de ilhas no centro do arquipélago das Filipinas. Milhares de edifícios - as casas e também as escolas, os hospitais e pavilhões desportivos que se transformaram em centros de acolhimento para proteger as populações da tempestade - desmoronaram-se como um castelo de cartas. Alguns desfizeram-se com o vento; outros ruíram pela base, com a força da corrente.

No caminho para o aeroporto - onde sabiam que ia chegar ajuda -, as duas irmãs mal conseguiram reconhecer a sua cidade. "Estava tudo destruído, tudo em ruínas", os postes de iluminação e as árvores abatidas no chão, os automóveis revirados. "Tivemos um encontro com o governador, e constatámos que 70% a 80% dos edifícios e infra-estruturas apanhadas pela trajectória do tufão foram destruídas", informou o superintendente da polícia de Leyte, Elmer Soria.

A nordeste, na província de Samar, uma das primeiras ilhas a ser atingidas quando o Haiyan entrou em terra com ventos superiores a 315 quilómetros por hora, há mais de 2000 desaparecidos. Na vila de Bailey já foram confirmadas 300 mortes.

Localidades isoladas
A contagem das vítimas era impossível na província ocidental de Cebu, porque uma grande parte das localidades estão isoladas e não houve ainda maneira de contactar os residentes. O responsável da protecção civil da província, Dennis Chiong, disse à CNN que a aldeia de Daanbantayan, com cerca de 3000 habitantes, comunicou via satélite que "quase todas as casas sofreram danos estruturais" e que "o abastecimento de água e comida era urgente". Mas não há maneira de chegar lá - nem a Santa Fé, na mesma região, que permanece em silêncio desde sábado. "Não podemos sequer determinar o impacto [do supertufão] porque ainda não houve nenhuma comunicação."

De acordo com o Centro de Redução e Gestão de Riscos das Filipinas, cerca de meio milhão de sobreviventes perderam tudo durante o fim-de-semana: os familiares, as casas, o modo de vida, a comunidade. Simplesmente não têm para onde ir - os sobreviventes caminham pelos destroços como zombies, descrevia a Reuters. "Parece um filme de terror", comparava Jenny Chu, uma estudante de Medicina.

Em Taboclan, o desespero tomou conta dos sobreviventes. Foram relatados saques e pilhagens em mercearias, supermercados e centros comerciais; assaltos a bancos e roubos de máquinas multibanco; casos de violência em hospitais, confrontos e agressões no aeroporto, que funciona como uma plataforma de distribuição de ajuda. "À chegada dos aviões, as pessoas começavam a empurrar-se, a bater-se, ou para chegar aos alimentos ou para serem levadas para longe dali", relataram as irmãs Tayag.

"As pessoas estão a enlouquecer, algumas de fome, outras de dor por terem perdido toda a família", explicava à AFP um professor de Tacloban, Andrew Pomeda, de 36 anos. "A situação é desesperada, as pessoas estão a saquear os supermercados em busca de leite, arroz. A tensão é palpável, e, se a situação se prolongar, na próxima semana vão andar a matar-se uns aos outros com fome", antecipou.

A agência francesa encontrou Edward Gualberto nos arredores da cidade. "Vestido apenas com uns calções vermelhos, o pai de quatro filhos e conselheiro municipal pede desculpa pela sua aparência, e também por estar a roubar aos mortos", conta o jornalista. Gualberto diz que é "uma pessoa decente" e lamenta as coisas "vergonhosas" que teve de fazer para sobreviver. "É muito fácil esquecer a dignidade quando não se come há três dias", justifica. Entre os destroços, encontrou latas de comida e de cerveja, um pacote de esparguete, biscoitos, detergente e velas: a família já não passará fome.

À BBC o administrador da cidade, Tecsom John Lim, reconhecia as dificuldades do município para garantir a segurança. "Não temos pessoal para responder à situação. Só temos 2000 funcionários, e desses só cem é que se apresentaram ao trabalho. A maior parte ou está a tratar das suas famílias ou está desaparecida", observou. Dos 390 efectivos da polícia local, só 20 estavam em condições de trabalhar.

O Presidente das Filipinas, Benigno Aquino, visitou a cidade e anunciou o envio imediato de um contingente de 300 homens da Guarda Nacional e do Exército, para "restabelecer a paz e a ordem" e facilitar a operação de assistência à população. O Governo de Manila aceitou várias ofertas de ajuda internacional: o primeiro-ministro britânico, David Cameron, anunciou o envio de seis milhões de libras para as operações de emergência, e a União Europeia prometeu um pacote de três milhões de euros.

O director do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, Praveen Agrawal, confirmou ontem que um primeiro carregamento de 44 toneladas de mantimentos está já a caminho das províncias de Leyte e Cebu, bem como geradores e material médico e cirúrgico. A Unicef despachou 60 toneladas de material de sobrevivência, sanitário e médico, que devem chegar amanhã às Filipinas.

Os Estados Unidos mobilizaram imediatamente um grupo de fuzileiros da base naval de Okinawa, no Japão, que estão a colaborar nas operações logísticas. O Pentágono também redireccionou os meios do comando Pacífico, nomeadamente um porta-aviões, para apoiar as operações de busca e salvamento e as missões de distribuição de mantimentos.