Serralves conta araucárias, liquidâmbares e outras que tais

Universidade de Aveiro foi contratada para actualizar o levantamento e fazer o mapa informático das espécies vegetais que habitam no parque de 18 hectares da fundação do Porto.

Quando a 19 de Janeiro deste ano o ciclone Gong varreu o país, deixando a Mata do Buçaco de pernas para o ar e arrancando árvores um pouco por todo o Norte e Centro, o Parque da Fundação de Serralves, no Porto, não saiu incólume. "Nessa tempestade caíram 50 árvores em Serralves, incluindo a mais alta que tínhamos", diz o director do parque, João Almeida. A árvore em causa, exemplar único do parque de um Eucalyptus camaldulensis (eucalipto-vermelho), é uma das que já não vai constar do novo mapa informático que irá surgir após a actualização do levantamento da vegetação do Parque de Serralves, que está a ser feita pela Universidade de Aveiro.

A primeira vez que as árvores e arbustos espalhados pelos 18 hectares do parque foram elencados e incluídos numa base informática foi entre os anos de 2000 e 2002, pela mesma equipa da Universidade de Aveiro que regressou agora ao terreno. Os dados estão disponíveis na página da Internet da Fundação de Serralves, listando as quase 200 espécies detectadas e as suas principais características. Mas entretanto passaram 11 anos desde a conclusão do trabalho e, em vários aspectos, a base de dados está desactualizada.

É que não foi só o ciclone Gong a intrometer-se no Parque de Serralves. Na altura do primeiro levantamento ainda se ultimavam os trabalhos em torno do Museu de Arte Contemporânea, desenhado por Álvaro Siza Vieira, pelo que esse espaço "ficou como zona expectante, para ser feito mais tarde", explica João Almeida.

O parque também foi alvo de um projecto de recuperação e valorização, logo em 2002, e, além disso, a vasta zona verde sofreu as mudanças normais de um espaço vivo. "Nós não abatemos árvores, a menos que elas já estejam mortas ou, em casos excepcionais, que representem um risco sério para quem circula no parque. É claro que, ao longo destes 11 anos, houve árvores que caíram ou morreram", explica o director do parque.

Ainda que a regra em Serralves seja a de substituir os exemplares perdidos por outros da mesma espécie - é bom não esquecer que estamos perante um jardim histórico -, às vezes, a dificuldade em encontrar a árvore certa é grande. Foi o que aconteceu, por exemplo, com uma Araucaria araucana (araucária-do-Chile), espécie oriunda do Sul da cordilheira dos Andes, na Argentina e no Chile, que morreu. "No último grande projecto de recuperação percebeu-se que estava morta e foi abatida. Queremos substituí-la, mas só agora é que encontramos um exemplar. À partida virá de França ou Itália", diz João Almeida.

É que "as plantas são como as modas", garante o director do parque. "O que se plantava nos anos 30 está longe do que se planta em 2013 e algumas espécies são exóticas e difíceis de encontrar. Daí a dificuldade em manter os jardins históricos", diz.

Junto à Alameda dos Liquidâmbares, Rosa Pinho e Luís Galiza (Lísia Pestana andará por perto) perscrutam cada árvore e arbusto, acompanhados de um desdobrável com o desenho de uma parte do parque e a lista de espécies que elaboraram, da primeira vez que por ali andaram. No mapa que Luís transporta há muitas cruzes a vermelho. Cada uma delas marca a localização de árvores e arbustos identificados no levantamento inicial. Hoje, algumas estão rodeadas por um círculo a lápis (significando que o exemplar a que se refere ainda lá está), outras escondem-se debaixo de um traço a lápis (que diz que desapareceram). No canto que corresponde às imediações do museu, há agora novas cruzes desenhadas - a "zona expectante" vai finalmente mostrar-se na sua diversidade. "Há ali muito azevinho, muitas bétulas, ericas, aveleiras e também azinheiras e alguns medronheiros", diz Rosa Pinho.

Os especialistas de Aveiro vão andar pelo parque, à procura de velhas conhecidas ou de novas habitantes, até, pelo menos, final de Janeiro. O seu trabalho implica a localização de cada planta (georreferenciação) e a sua identificação, o registo fotográfico, a revisão das fichas de espécies já existentes - e, quando necessário, a elaboração de novas - e a inserção de toda a informação na base informática. Esta é, contudo, apenas uma parte do trabalho que Serralves está a preparar nesta área. "Vamos também actualizar o nosso próprio sistema de gestão interno e o site a que o público acede. Queremos que seja mais dinâmico, acessível e contemporâneo. Com mais imagens, mais fotografias e um funcionamento mais intuitivo", diz João Almeida, situando a finalização de todo este trabalho em Junho de 2014.

Se quiser começar já a descobrir um pouco mais sobre tudo o que o Parque de Serralves tem para oferecer, pode dirigir-se ao museu, pelas 15h30 do próximo sábado. É daí que partirá uma visita guiada pelo próprio director do parque à diversidade do local.