O estado e a comida que damos aos filhos

O blogue El Comidista do jornal El País chamou a atenção para um documentário que passava este fim-de-semana no festival de cinema e gastronomia Film&Cook: chama-se Rawer e conta a história de Tom Wat-kins, um adolescente holandês que, por convicção da mãe, se alimenta apenas de fruta e legumes crus desde os cinco anos de idade. A mãe considera que alimentos cozinhados ou de origem animal são prejudiciais à saúde.

Imagino que por esta altura grande parte dos leitores desta crónica já tenha tomado uma posição sobre o caso. Mas há mais. Os médicos que observaram Tom alertam para o facto de o crescimento do rapaz estar a ser afectado por esta dieta e os serviços sociais holandeses querem retirá-lo à mãe por causa disso. Mais um detalhe: Tom é adepto da dieta e concorda com as ideias da mãe. Por esta altura, os leitores que ainda não tinham opinião já terão certamente - uns contra a mãe, outros contra os serviços sociais.

É por isso que o documentário realizado por Anneloek Sollart (e que é já a segunda parte da história, sendo a primeira contada em Raw, da mesma realizadora) me parece interessante, como aliás o post do El Comidista também explica (e os comentários ao post elaboram). É um caso que levanta uma série de questões. Devem os pais, por convicção de que estão a fazer o melhor para os filhos, ser autorizados a alimentá-lo de uma forma que os poderá prejudicar? Será legítimo o Estado intervir nestes casos? Tom será mais feliz a viver separado da mãe e a comer comida com a qual não concorda? Terá o rapaz sofrido uma lavagem ao cérebro desde pequeno ou terá capacidade para ter opinião própria neste assunto? E os pais que alimentam os filhos exclusivamente com junk food, devem ver-se também privados do poder paternal?

Não se trata aqui de uma mãe negligente, segundo mostra o documentário, mas de uma mulher que se preocupa verdadeiramente com o filho, e que, muito influenciada pelo guru da alimentação crua, David Wolfe, está convencida de que outro tipo de alimentação terá efeitos piores nele. É relevante também saber que o pai de Tom não concorda com a atitude da ex-mulher e que o outro filho do casal optou por viver com o pai.

A realizadora, citada no El Comidista, diz esperar que quem vê o filme perceba que "não é fácil resolver este problema" e que o seu trabalho é também sobre "a próxima e asfixiante, mas também amorosa, relação entre uma mãe e o seu filho". As opiniões dividir-se-ão, certamente.

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