António Guterres admite que via Sócrates como seu sucessor no Governo

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No livro, José Sócrates é referido como um dos obreiros dos "orçamentos do queijo" MIGUEL MADEIRA

Biografia do actual dirigente da ONU revela que só não o revelou por recear movimentações internas no PS

Doze anos depois, a revelação. António Guterres, o ex-primeiro-ministro socialista que se demitiu e fez cair o Governo em 2001 depois de uma derrota eleitoral nas autárquicas, admitiu que indicaria José Sócrates como seu sucessor, caso não se realizassem as eleições legislativas que vieram a acontecer.

A revelação é feita na biografia do actual comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) - Os Segredos do Poder, de Adelino Cunha- que será lançada na próxima quarta-feira, 13. "Se eu concordasse com indigitações, teria proposto naquele momento José Sócrates para me suceder como primeiro-ministro, mas era preciso haver eleições no PS e no país", justifica António Guterres (página 568) em entrevista ao autor.

A indicação de Sócrates - que viria a tornar-se primeiro-ministro quatro anos depois - acabou por não se dar por Guterres recear que Jorge Sampaio viabilizasse uma aliança governativa entre o PS e o PCP. O líder socialista na altura acabou por defender, em contrapartida, que o novo chefe de governo teria de ser legitimado pelo voto popular em eleições.

No livro, são referidas alegadas movimentações do sector socialista "sampaísta" no sentido de que se indicasse um novo líder de executivo sem recurso a eleições legislativas antecipadas.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates volta a ser destacado no livro de memórias a propósito da controvérsia em torno dos "orçamentos do queijo" [de 2001 e 2002], viabilizados pelo voto isolado do deputado do CDS e à data presidente da Câmara de Ponte Lima, Daniel Campelo.

Numa conjuntura em que havia no Parlamento um empate de 115 deputados entre o PS e a oposição, o segundo Governo de Guterres necessitava de, pelo menos, uma abstenção entre as bancadas da oposição para que os seus orçamentos passassem.

José Sócrates sempre negou ter possuído especiais responsabilidades na captação do voto de Daniel Campelo. Porém, no livro de Adelino Cunha, Campelo "garante ter negociado secretamente" um processo de contrapartidas para investimentos em Ponte de Lima com o então ministro do Ambiente e com Jorge Coelho.

"Cometi um erro político ao permitir a aprovação do chamado "orçamento limiano"; devia ter dito que um chumbo na Assembleia da República levaria à minha demissão. Se isso acontecesse, candidatava-me novamente a primeiro-ministro. Já o último Orçamento [2002] quis que fosse aprovado para salvaguardar os interesses do país. Foi uma medida cautelar para tomar as medidas que quisesse depois das eleições, incluindo a minha demissão", justifica Guterres.

Ao longo das 600 páginas, o livro apresenta algumas imprecisões. Fazem-se referências erradas à Fundação para a Prevenção Rodoviária, quando se pretendia abordar a entidade criada por Armando Vara, a Fundação para Prevenção e Segurança (FPS); e o processo de aproximação entre o PS e o Movimento Humanismo e Democracia (MHD), que aconteceu em 1994, antes de Guterres ser primeiro-ministro e não depois, como se afirma no livro.

É relatada também uma palestra do maçon António Reis a que assistiu António Guterres. Só que António Reis terá sido iniciado no Grande Oriente Lusitano (GOL) (Loja Estrela de Alva) nos finais da década de 90, portanto alguns anos depois de o jovem Guterres ter concluído os seus estudos no Instituto Superior Técnico. PÚBLICO/Lusa