À espera de Godot

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Uma França fraca é o pior que poderia acontecer à Europa e ao euro

1. Não há nada que não aconteça a François Hollande. O Presidente francês, cuja popularidade é a mais baixa jamais atingida por um Presidente da V República, esforça-se por dar aos franceses qualquer coisa que os entusiasme. Prometeu na quinta-feira para 2014 um ano de comemorações da Primeira Guerra Mundial, tentando que os franceses se reúnam em torno da sua história, gloriosa e trágica. Convidou os alemães, como é devido numa Europa unida e em paz. Ainda não sabia que, no dia seguinte, a Standard & Poor"s o sujeitaria a mais uma humilhação, descendo o rating da dívida francesa de AA+ para AA. Foi a mesma agência internacional que, em Janeiro do ano passado, tirou a Sarkozy o triplo A. A agência considera que a margem de manobra orçamental "é reduzida" e que as medidas de política económica postas em prática desde o ano passado "não reduziram o risco da taxa de desemprego se mantenha acima dos 10 por cento". Isso, diz ainda o comunicado, "reduz o apoio popular às novas reformas estruturais, afectando as perspectivas de crescimento".

Digamos que não é nenhuma novidade. Nem para a França nem para os outros países em dificuldades. Hollande disse que manteria o programa de reformas e lembrou que a França, apesar da descida do rating, continua a financiar-se a juros muito baixos no mercado da dívida. Pierre Moscovici, o ministro das Finanças, deplorou o "julgamentos pouco rigorosos".

Quando a França perdeu o triplo A, Hollande, então líder da oposição, disse que "era uma política [a de Sarkozy] que tinha sido degradada, e não a França". Desta vez, garantiu que não vai alterar o rumo. O seu programa de reformas vai no bom sentido mas é demasiado tímido, Hollande não resiste à pressão da contestação - seja ela dos patrões ou dos sindicatos ou da classe média que vê as suas regalias ameaçadas e que, como sempre, está disposta a defendê-las na rua. O seu Governo está a desfazer-se. Tem a prerrogativa de escolher outro primeiro-ministro quando quiser. Mas nada parece ainda evidente a não ser uma enorme fraqueza do homem a quem coube desta vez ocupar o Palácio do Eliseu. Alguns estudos de opinião até indicam que os franceses percebem que têm um país em crise, que joga o seu futuro na Europa e que precisa de fazer alguma coisa. Até agora, o Presidente não conseguiu, sequer, explorar esta nova abertura.

Uma França fraca é o pior que poderia acontecer à Europa e ao euro. Hollande tem mostrado resolução na frente externa, apoiando Obama na Síria, enviando tropas para o Mali em nome de uma Europa incapaz de olhar para fora. Não serão as comemorações da Primeira Guerra, travada em solo francês contra uma Alemanha imperial, que podem salvá-lo. Terá que fazer muito melhor.

2. Como nós todos, o Presidente francês continua à espera do governo de "grande coligação" que está a ser negociado em Berlim. Está convicto que a presença do SPD pode facilitar a sua relação com a chanceler Angela Merkel e abrir algumas perspectivas que levem a um indispensável compromisso sobre o futuro da zona euro, mais equilibrado com as posições francesas. O problema é que, de Berlim, não chegam grandes notícias. Os sociais-democratas já conseguiram o salário mínimo, abdicando de grandes aumentos nos impostos dos mais ricos. Preparam-se para abdicar do Ministério das Finanças, que deverá manter-se nas mãos de Wolfgang Schäuble, mas ainda não se sabe ao certo com que pastas ficarão. Provavelmente e como da praxe Frank-Walter Steinmeire voltará aos Negócios Estrangeiros, onde já esteve na primeira grande coligação com a CDU, em 2005.

O problema é que hoje as grandes decisões passaram para o controlo dos chefes de Governo e dos ministros das Finanças, relegando os chefes da diplomacia para um papel mais recuado. Sigmar Gabriel, o líder do SPD, quererá ficar com a Economia. O problema maior é o da discussão do programa de governo e as informações que vêm de Bruxelas e de Berlim são poucas e pouco animadoras. As negociações estão divididas por 20 grupos de trabalho e a Europa está a ser discutida no grupo que trata das finanças.

Não é propriamente um bom indício para que a política europeia de Berlim possa mudar nem que seja alguma coisa, no curto e no médio prazo. Wolfgang Schäuble continua a ser a figura central desta negociação. Nas duas questões fundamentais que estão à espera do novo governo alemão, União Bancária e a União Orçamental, a chanceler e o seu ministro das Finanças continuam irredutíveis. O BCE já anunciou que vai começar fazer os testes de esforço à grande maioria dos bancos europeus. Mário Draghi, como Hollande ou Enrico Letta ou até Passos Coelho normalmente tão discreto e a própria Comissão insistem que é fundamental avançar com o mecanismo de resolução dos bancos que não estejam em boas condições de saúde.

A Alemanha continua a arrastar os pés. Os sociais-democratas terão já cedido nesta matéria, que é fundamental para que o crédito chegue aos países do Sul em condições pelo menos aproximadas das que usufruem os do Norte. Nenhuma economia do Sul conseguirá crescer a sério sem que este problema crucial seja resolvido. A chanceler prefere pôr a tónica no investimento que deve ser canalizado para esses países. A chanceler está preocupada com o desemprego jovem. Já foram criados vários programas para o combater que, em geral, não passam de paliativos, mas que revelam um certo alarme pelas suas consequências sociais e políticas. A Europa não sobreviverá, como alguém dizia recentemente, quando a Grécia, Portugal ou Espanha registam taxas de 50 por cento no desemprego jovem, enquanto outros registam sete por cento. Só um cego não veria o risco brutal que esta realidade comporta para as democracias europeias. A questão é que, mesmo com as reformas dos mercados de trabalho, se as economias não crescerem o problema não se resolverá. A Europa, com esta geração perdida, está a brincar com um fogo que terá dificuldade em apagar.

3. A segunda questão a que os sociais-democratas deram alguma importância passa por medidas que vão no sentido da mutualização mais ou menos parcial da dívida dos países do euro. Os países do Sul em maiores dificuldades estão asfixiados pelo peso da dívida. O SPD já foi a favor de um "fundo de redenção" para a dívida superior aos 60 por cento fixados no Tratado, que foi uma sugestão dos economistas que aconselham o Governo alemão. Mas o que vai chegando de Berlim e de Bruxelas é que, também aqui, os sociais-democratas se preparam para recuar.

O único cenário que resta e que a Alemanha poderia aceitar, é o chamado "reprofiling" (uma coisa parecida com reescalonamento) que garanta mais tempo e menos juros aos países com programas de ajustamento. Alguma coisa terá de ser feita. Paul de Grauwe, o conhecido economista belga que é um dos grande teóricos da união monetária, disse recentemente em Lisboa sobre a situação portuguesa que mais um ano de dura austeridade como aquele que está previsto para 2014 mataria qualquer hipótese de crescimento e levaria, de uma ou outra maneira, à reestruturação da divida portuguesa. A ideia de que é preciso compensar os países que sejam afectados por choques assimétricos aos quais não podem responder porque perderam os instrumentos de desvalorização da moeda e de aumentar o Orçamento está a fazer o seu curso. Pode ser uma espécie de orçamento da zona euro (que já veio referido nas conclusões da penúltima cimeira europeia). Mas é apenas uma hipótese.

Entretanto, estamos todos à espera da "grande coligação". Há ainda uma esperança de que alguma coisa mude. Se não, o risco que todos corremos é, um dia destes, ver instalar-se uma crise política e social em muitos países europeus de tal ordem que alguma coisa terá de ser feita. Até lá só nos resta fazer figas. Mesmo que seja com muito pouca convenção.

Jornalista. Escreve ao domingo