Noite de Cristal: o fim da esperança dos judeus alemães

O racismo apurado até um nível elevadíssimo de crueldade e eficiência levou os nazis da orgia de violência de 9 de Novembro até às câmaras de gás, para eliminar de vez os judeus. Mas a indiferença da comunidade internacional, que se recusou a receber judeus como refugiados, contribuiu para esse caminho

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Mais de 1400 sinagogas foram destruídas, pelo menos 1500 pessoas morreram nesses dias e 26 mil homens foram levados para campos de concentração dr

Ernst Kahn guardou toda a vida a imagem da sua prima de 66 anos, Karoline Kahn, a ser arrastada pelos cabelos pela rua de empedrado, coberta de sangue, por se recusar a dizer aos nazis onde se tinham escondido os seus filhos. Mais tarde, ela e um filho morreram num campo de concentração. Heinrich Heimann cortou os pulsos da sua filha, primeiro, e depois os seus. Mas os nazis estancaram-lhes o sangue, para os poderem matar depois. Fannie Joelson nunca mais viu o pai, nem o irmão, levados pelas forças especiais dos nazis, vestidos à civil, que semearam o terror entre os judeus alemães e austríacos na noite de 9 de Novembro de 1938 e nos dias seguintes. "Nunca mais soube nada deles. Nunca."

Fannie Joelson era uma adolescente. Recordou para o New York Times, já há uns bons anos, como foi chamada para limpar todos os cacos, a mobília escaqueirada, o mar de vidro partido que deu nome a este episódio, a Noite de Cristal, que quebrou os últimos tabus em relação à violência contra os judeus - e à liberdade de os poder matar, como se não fossem de facto pessoas.

A Kristallnacht, em alemão, faz 75 anos. Foi a noite em que morreu a esperança para os cerca de 400 mil judeus que viviam na Alemanha. Nas palavras do historiador Dan Diner, de Leipzig (Alemanha), citadas pela revista Der Spiegel, foi "a catástrofe antes da catástrofe". A última catástrofe foi a "solução final", a máquina infernal posta em prática pelos nazis para eliminar todos os judeus da face do planeta nas câmaras de gás.

Um pretexto conveniente

Mais de 1400 sinagogas foram queimadas - ou destruídas, se as chamas pusessem em perigo propriedade de alemães ou estrangeiros -, pelo menos 1500 pessoas morreram logo nesses dias e 26 mil homens foram levados para os campos de concentração de Buchenwald, Dachau e Sachsenhausen. Nos campos terão morrido cerca de 2000, de violência e maus tratos, e os restantes foram libertados três meses depois - sob a promessa de que sairiam da Alemanha. Mas fugir da Alemanha era tudo menos fácil, pois as portas do mundo estavam fechadas para estes refugiados.

O pretexto para a violência foi o assassínio de um diplomata alemão de segunda linha em Paris, Ernst vom Rath, por um jovem judeu alemão de 17 anos refugiado, sem documentos, Herschel Grynszpan, a 7 de Novembro. Grynszpan disparou sobre Vom Rath na embaixada, foi preso imediatamente e disse que se queria vingar do que se estava a passar com a sua família: a irmã e os pais faziam parte dos 12 mil judeus alemães de origem polaca levados até à fronteira com a Polónia a 28 de Outubro, para serem expulsos do país. Mas a Polónia não os aceitou, e vaguearam durante dias e dias, sob chuva, sem alimentos nem abrigo.

Vom Rath morreu a 9 de Novembro - o mesmo dia em que os nazis comemoravam o golpe falhado de 1923 em Munique, quando Hitler tentou iniciar uma revolução e acabou por ser preso. Hitler saiu do banquete, e foi o seu ministro da Propaganda, Joseph Goebbels, quem discursou, animando os radicais nazis a dar voz "à fúria do povo" por causa do homicídio. "O Führer decidiu que as manifestações não devem ser preparadas ou organizadas pelo partido, mas se surgirem espontaneamente, não devem ser impedidas."

As condições de actuação, incluindo o dever de inacção das autoridades, foram transmitidas a todas as esquadras num telegrama assinado por Reinhard Heydrich, o chefe dos serviços de segurança do Reich.

Os historiadores interpretam a ordem de Goebbels de 9 de Novembro como o agarrar de uma oportunidade para desencadear uma acção violenta contra a comunidade judaica que estava a ser desejada pelos nazis, depois de já terem começado a destituí-los dos seus direitos cívicos e a "arianizar" a economia, forçando os judeus a vender por tuta e meia as suas empresas. A seguir à Noite de Cristal, foi publicada uma série de leis para obrigar os judeus a sair da vida pública, incluindo a proibição de as crianças judias irem à escola e de os jovens entrarem na universidade.

Uma exposição inaugurada por estes dias em Berlim reúne, de forma inédita, os testemunhos que os diplomatas estrangeiros colocados em Berlim em 1938 enviaram às suas chancelarias sobre a Noite de Cristal. Os britânicos usam termos como "barbarismo medieval", os brasileiros classificam a orgia de violência como "um espectáculo repugnante" e os franceses afirmam que "o alcance da brutalidade" só poderia "ser excedido pelos massacres dos arménios" na Turquia em 1915-1916, refere a Spiegel.

Mas não houve um único Governo que tenha cortado relações com a Alemanha nazi por causa deste episódio bárbaro, nem foram impostas sanções económicas ao Terceiro Reich. Quatro dias após a Noite de Cristal, os EUA chamaram o seu embaixador a Washington - mas esse foi o gesto diplomático mais forte, numa altura em que o Reino Unido tentava ainda uma política de concessões. Na conferência de Munique, a 30 de Setembro, o Reino Unido, a França e a Itália tinham assinado um acordo com a Alemanha para permitir a Hitler ficar com partes da Checoslováquia onde havia falantes de alemão, para tentar evitar a guerra.

Portas fechadas

Após o episódio da Noite de Cristal, o senador norte-americano Robert Wagner propôs que 20 mil crianças judias alemãs com menos de 14 anos pudessem emigrar para os EUA, escapando à Alemanha nazi - mas a sua proposta foi derrotada numa comissão do Congresso, sem chegar sequer a ir a plenário. Na verdade, 70% dos americanos opunham-se a esta ideia, recordou o New York Times, num outro aniversário deste episódio, citando o historiador David Wyman. Algumas crianças acabaram por sair da Alemanha - o Kindertransport levou 10 mil para o Reino Unido. Por vezes, as crianças (idade máxima 17 anos) eram as únicas sobreviventes da sua família.

Mas se a Alemanha nazi se queria ver livre do máximo possível de judeus, os restantes países não os queriam receber. O Presidente norte-americano, Franklin D. Roosevelt, tinha convocado para Junho de 1938 uma conferência sobre o problema do número crescente de judeus que fugia da perseguição nazi e procurava outros países para se refugiar, Durante uma semana, em Évian, França, delegados de 32 países e 39 organizações privadas trocaram desculpas para não receber refugiados - a conferência foi um fracasso, embora se tenha criado o Comité Intergovernamental para os Refugiados, para acompanhar a situação.

Tal como hoje, vivia-se um período de depressão económica, e a possibilidade de entrada de milhares de emigrantes judeus configurava uma ameaça de concorrência pelos empregos que já faltavam. A estes motivos económicos juntavam-se os preconceitos raciais enraizados relativamente aos judeus - que não existiam apenas na Alemanha.

Apenas a República Dominicana aceitou receber mais refugiados, lê-se no site do Museu do Holocausto dos Estados Unidos. Em 1939, Londres restringiu as quotas de imigração para a Palestina, então sob mandato britânico - mas o resultado foi que aumentou a imigração clandestina de refugiados judeus. Os britânicos interceptam-nos e colocam-nos em campos - tal como acontece hoje aos imigrantes que tentam entrar, de barco, pela costa Sul europeia.

Com as culpas de Israel

Os tempos são outros, mas um inquérito ontem divulgado adianta que o anti-semitismo cresceu na União Europeia nos últimos cinco anos - é essa a percepção dos judeus nos oito países que reúnem cerca de 90% da actual população europeia que partilha esta fé religiosa: Alemanha, Bélgica, França, Hungria, Itália, Letónia, Suécia e Reino Unido.

É sobretudo através da Internet, dizem 76% dos cerca de 6000 judeus que participaram neste inquérito da Agência Europeia dos Direitos Fundamentais, que sentem o anti-semitismo. E o conflito israelo-árabe está a alimentar o sentimento antijudaico.

Mas há um cambiante no que é o discurso anti-semita entre a Europa de Leste e a Europa Ocidental, marcado pela percepção do conflito israelo-árabe. Na Letónia, apenas 8% da população judaica disse que a disputa pela Palestina tinha um grande impacto na forma como a comunidade em que estavam inseridos a via. Mas na Alemanha, 28% disseram que o conflito entre Israel e a Palestina influía na sua própria segurança, e em França 78% disseram o mesmo.

A leste, são os antigos fantasmas que se recusam a desaparecer - por exemplo, o discurso anti-semita do partido Jobbik, na Hungria, onde 91% dos inquiridos consideram que há um verdadeiro problema de perseguição aos judeus.

A ocidente há um outro tipo de agressão para os judeus: a instatisfação com a política israelita em relação aos palestinianos resvala para um sentimento anti-semita, que toma as comunidades judaicas como um todo. Na Alemanha, 49% dos inquiridos dizem ter ouvido alguém que não é judeu acusar os israelitas de se comportarem "como nazis" em relação aos palestinianos. E 81% dos judeus alemães dizem terem sido acusados de algo que o Governo israelita fez.