Albert Camus: um homem irrecuperável

Nas comemorações dos 100 anos do seu nascimento, os esforços de recuperação e utilização instrumental da sua vida e obra nas guerras da memória por parte dos nostálgicos do tempo colonial vingaram. A sua defesa de um pensamento político "modesto" interessou ainda menos.

"Albert Camus, l'étranger qui nous ressemble". Deveria ter sido este o título da exposição comemorativa do centenário do nascimento de Camus, a organizar em Aix-en-Provence pelo renomado historiador das relações entre a Argélia e a França, Benjamin Stora, no âmbito das iniciativas da capital europeia da Cultura Marseille-Provence 2013. Não foi.

Os "nostalgériques" (os nostálgicos da Argélia francesa), com importante peso eleitoral em Aix-en-Provence e com uma presença assinável nos novéis meios de comunicação, condicionaram o processo. A presidente da Câmara de Aix-en-Provence Maryse Joissains-Masini, membro da União para um Movimento Popular(UMP) e próxima dos "nostalgériques", parece ter contribuído para o sucedido, apesar de declarar não saber sequer que Stora é um historiador. Os esforços de recuperação e utilização instrumental de Camus nas guerras da memória por parte dos nostálgicos do tempo colonial vingaram.

Ao mesmo tempo, os desejos da neutralização ou desvalorização presente das suas ideias e perspectivas sobre a história colonial francesa (e o lugar de destaque que a Argélia nesta ocupou e ocupa) também prevaleceram. A "caravana Camus", nomeada Club Camus Méditerranée, que deveria percorrer, em 2010, diversas cidades francesas e argelinas com o intuito de difundir a obra camusiana foi bloqueada por círculos "intelectuais" na Argélia. A celebração da sua obra foi encarada como uma tentativa de reabilitação de discursos a favor de uma Argélia Francesa, como se declarava na petição "Alerta às consciências anti-colonialistas", assinada por uma série de "intelectuais" argelinos. Em Paris, estão consagrados nos muros da Biblioteca Nacional de França Jean-Paul Sartre, Boris Vian e Guy Debord, entre outros. Camus não.

"Albert Camus, un homme révolté". Devia ter sido este o título da exposição comemorativa do centenário do nascimento de Camus organizada pelo sucessor de Stora, o conhecido filósofo Michel Onfray, autor de L'Ordre libertaire. La vie philosophique d'Albert Camus. Também não foi.

Em 15 de Setembro de 2012, Onfray recusou coordenar a exposição. "As intrigas das redes, a cumplicidade de antigos combatentes de extrema-esquerda reconvertidos ao oportunismo social-democrata, a morgue da impotência universitária, a parvoíce de um ministro confundindo uso público das dotações e punição ideológica, a frouxidão dos institucionais da cultura" não deixavam margem de manobra, como esclareceu no Le Monde de 17 de Setembro. A decisão de Aurélie Filippetti, ministra da Cultura e da Comunicação no governo socialista de Jean-Marc Ayrault (que durou apenas trinta e quatro dias), de retirar o apoio oficial (e uma subvenção de 400.000 euros) à exposição contribuiu certamente para a tomada de posição de Onfray.

O resultado? Uma exposição intitulada Albert Camus, citoyen du monde, título suficientemente anódino para não despertar os "vigilantes" das histórias, das memórias e das identidades nacionais e imperiais; nem para incomodar as guardas pretorianas intelectuais, fora e dentro da academia. Uma exposição, enfim, que aposta na "imersão sensorial", como sublinhou o seu cenógrafoYacine Aït Kaci, e que nivela as diferentes facetas da sua vida, minimizando assim a controvérsia.

Numa "era das memórias" - que constitui um poderoso desafio ao saber histórico ao criar, entre outros aspectos, a ilusão de que todas as narrativas históricas são cientificamente válidas e, deste modo, comparáveis - esta opção parece atrair os administradores do passado. A competição pela propriedade do passado, central à identidade e pertenças presentes, assim como à definição de projectos colectivos futuros, é acesa. Numa era marcada pela "política das exculpações" - na qual o debate sobre as reparações, a dita "justiça transicional" e a importância dos "passados" na interpretação dos "presentes" e na imaginação de "futuros" sobressai -, todo o cuidado é pouco.

Camus: modos de (não) usar
Mas Camus parece irrecuperável. Se resistiu às opiniões organizadas e sobreviveu a condenações ideológicas várias, continua a ser dificilmente utilizável pelos empreendedores da memória. Já em finais de 2009, quando Nicolas Sarkozy manifestou o desejo de promover a sepultura honorária de Camus no laicizado Panteão, o desconforto com Camus, a sua obra e pensamento, foi notório, suscitando animados debates. A diversidade e a complexidade dos posicionamentos político-culturais que sobre a questão se definiram são reveladoras da dificuldade em classificar e instrumentalizar Camus.

Apesar de todos os simplismos dos enfeudados e dos militantes de causas várias, no passado como no presente, as suas ideias, por vezes contraditórias e de interpretação ambígua, são particularmente difíceis de transformar em slogans e soundbytes publicitáveis passíveis de cristalizar a sua pertença a uma causa, a um sistema, a uma ideologia.

Os múltiplos sentidos do "pensée du midi" ou a abnegada recusa em promover a violência a instrumento justificável de acção política não foram, como não são hoje, particularmente sedutores para os cultores de sistemas de pensamento ou para os advogados de abstracções sociais e morais como motores, violentos se necessários, da mudança histórica e da transformação social.

Para os primeiros, Camus não era um Sartre, não oferecia (ou oferece) respostas. Para os segundos, ávidos em reproduzir a acusação de Sartre de que Camus tinha a "moral de um escuteiro" por recusar elogiar os actos violentos da Frente de Libertação Nacional (FLN, Argélia), era um "cobarde".

Para Roland Barthes, por ocasião da publicação de A Peste (1947), a Camus faltava um "compromisso" claro, a sua escolha da moral em detrimento da política era reprovável. Para Conor Cruise O'Brien, político e académico irlandês com uma carreira feita de polémicas e ziguezagues políticos, Camus era um "escritor colonialista" que aceitava "o mito e as principais justificações do colonialismo", apesar da "máscara do humanista europeu progressista, anti-racista e defensor dos oprimidos". Edward Said propagou a ideia de que Camus estava dominado por um "inconsciente" e uma "sensibilidade" coloniais. A sua obra tinha um lugar de destaque no que Said apelidou de "discurso colonial".

O dictum camusiano "nem carrasco, nem vítima" (que deu o nome a uma série de ensaios serializados no jornal Combat em 1946) cativou poucos. A sua defesa de um pensamento político "modesto", imune a todos os tipos de messianismo e resistente à "nostalgia de um paraíso terrestre" interessou ainda a menos, ontem como hoje. A luta contemporânea pela reapropriação e instrumentalização dos legados do passado e pelos usos da memória sobrepõe-se à leitura plural e ponderada desses legados. Como declarou ao Le Monde Agnès Spiquel, presidente da Sociedade de Études Camusiennes, na edição de 15 de Setembro de 2012, "eles não lêem Camus, servem-se dele".

Meridiano, à margem
Em 1951, a publicação de O Homem Revoltado constituiu um momento de particular importância na definição do lugar político e cultural de Camus e da sua obra. Aprimorando reflexões já expostas em A Peste e em Ni victimes ni bourreaux, esta obra conclui o chamado ciclo da revolta, que se seguiu ao ciclo do absurdo, composto pelas obras Calígula(1941), O Estrangeiro (1942), O Mito de Sísifo (1942) e O Equívoco (1944). Um ano depois da sua publicação, o filósofo Francis Jeanson, delegado por Sarte, publica uma crítica ao livro de Camus na famosa revista Temps Modernes, intitulada Albert Camus ou l"âme révoltée.Esta crítica desferiu o último golpe na amizade de Camus com Sartre e, acrescente-se, com um certo universo intelectual parisiense. Camus é descrito como uma versão exemplar da "alma bella" definida por Hegel, ou seja, uma alma presa em reflexões éticas ponderadas, narcísica, incapaz de agir, pessimista na imaginação de futuros radiosos, estéril nas consequências.

O "humanismo vago" de Camus, dizia Jeanson, nada mais era do que impotência política. Gouncourt e Flaubert foram responsabilizados por Sartre por terem estado em silêncio sobre repressão após a Comuna de Paris. Camus foi criticado por questionar os sentidos e os fins da história, as suas supostas exigências, necessidades e imperativos. Mais ainda o foi por preferir a revolta à revolução. A sua resposta (Camus respondeu a Sartre, não a Jeanson) foi a de declarar nada ter a aprender com os que, durante a guerra, apenas "viraram a poltrona na direcção da história", enquanto ele foi activo na resistência. A resposta de Sartre foi a de iluminar as debilidades filosóficas de Camus, supostamente características de quem não tinha frequentado a École Normale Supérieure. Para Sartre, Camus criticava a sacralização do devir histórico hegeliano mas não lera Hegel, ou Sartre.

Resta saber quem compreendeu melhor os problemas do seu tempo. Ou respondeu melhor à condição humana.

Em Janeiro de 1956, Camus deslocou-se a Argel com o objectivo de "humanizar a guerra" e de atenuar a espiral de violência na sequência das atrocidades cometidas por ambas as partes em Philipeville (hoje Skikda), em 20 de Agosto de 1955. Foi acusado por membros e simpatizantes da FLN e acabou a ouvir ameaças de morte soltadas por milhares de pied-noirs reunidos junto ao Palácio do Governo em Argel, no interior do qual Camus apelava à recusa inabalável do terror, gesto supremo de liberdade em face da radicalização da situação política.

Em 1957, por ocasião da atribuição do Prémio Nobel, Camus encontrou-se com estudantes da Universidade de Estocolmo. Um apoiante da causa da FLN questionou-o com vigor sobre a sua posição face à questão argelina. A resposta de Camus foi habilmente parafraseada, para não afirmar algo mais, pelo jornal Le Monde, gerando equívocos que ainda hoje persistem. Entre "Eu devo ainda condenar o terrorismo cego que pode ser visto nas ruas de Argel, por exemplo, que qualquer dia pode atingir a minha mãe ou família. Eu acredito na justiça, mas irei defender a minha mãe antes da justiça" e "Agora, as pessoas estão a colocar bombas nos eléctricos de Argel. A minha mãe pode estar num desses eléctricos. Se isso é a justiça, então eu prefiro a minha mãe" (o que foi efectivamente dito) há uma diferença óbvia. Não obstante, a pessoa que, em finais dos anos trinta, denunciara, com semelhanças fascinantes com os retratos de Orwell sobre Wigan e sobre a Catalunha, a destituição indigna que grassava nos kabilasno jornal Alger républicain, publicação que era voz do protesto anticolonial e claramente de esquerda, era agora vilipendiada como um apologista do colonialismo.

A 6 de Setembro de 1960, a publicação do Manifesto dos 121 - Declaração sobre o direito à desobediência na guerra da Argéliadeixava claro a marginalidade política e intelectual de Camus. De Sartre a Beauvoir, Debord, Breton, Boulez, Duras, Lefebvre, Truffaut, Resnais e Blanchot (que ajudou a redigir o texto), o olimpo intelectual e artístico francês centrava as suas críticas na denúncia da violência deEstado e da tortura generalizada. A luta dos argelinos, nomeadamente da FLN, era uma acção legítima pela autodeterminação. Um dia antes, o julgamento da Rede Jeanson, uma rede de apoio aos membros da FLN liderada por este antigo compagnon de route de Sartre, começou. O Manifesto dos 121 era um apoio claro aos seus membros e à sua causa.

Poucos meses depois, em Janeiro de 1961, era criada a Organisation Armée Secrète, uma organização paramilitar cujo motto era "L'Algérie est française et le restera", teve Sartre como alvo de atentado e que atentou contra a vida de De Gaulle num subúrbio de Paris, a 22 de Agosto de 1962.

Nos últimos anos da década de 50, Camus dedicou-se a um doloroso e impotente silêncio, que preservará até à sua morte, num desastre de viação em Janeiro de 1960. Contudo, em 1958, publicou "Actuelles III: Chroniques algériennes 1939-1958", recentemente traduzida para inglês como Algerian Chronicles (Harvard UP, 2013), com uma brilhante introdução de Alice Kaplan.

Qualquer leitura, mesmo que superficial, desta colectânea de ensaios, relatos e cartas não pode senão concluir que a sua importância para pensar o passado, reflectir sobre o presente e imaginar um futuro mais justo é inestimável. Ao mesmo tempo, demonstra a razão pela qual as suas palavras provocaram e continuam a provocar tanto incómodo em círculos conservadores e emancipadores, comprometidos com, ou enclausurados em, várias "causas" e "programas".

Investigador do ICS