Gianfranco Rosi: a realidade é uma história que se conta

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A definição de documentário é mais um obstáculo do que outra coisa diz o realizador para quem este género é uma forma aberta, quase orgânica, de contar histórias

Vencedor do Leão de Ouro de Veneza com Sacro GRA e do DocLisboa com El Sicario, o italiano Gianfranco Rosi vem apresentar uma retrospectiva da sua obra no Lisbon & Estoril Film Festival, de hoje a 18 de Novembro.

"Para mim, a verdade está em capturar um fragmento de um lugar ou de uma pessoa, e tornar isso noutra coisa. Tornar a realidade numa história." É por isso que o italiano Gianfranco Rosi, 49 anos, não quer ser visto como documentarista, mas como cineasta, como contador de histórias.

Histórias que lhe valeram, em Setembro, o Leão de Ouro no festival de Veneza pela sua quarta longa-metragem, Sacro GRA, um olhar sobre cinco vidas esquecidas em redor do Grande Raccordo Annulare, a circular rodoviária que rodeia Roma. O prémio confirmou Rosi como um dos nomes centrais no actual panorama dos "cinemas do real", capaz de transcender o circuito dos festivais especializados, depois de dois filmes que deram que falar: o unânime El Sicario, Room 164 (2010), a longa confissão de um homem de mão dos cartéis mexicanos de droga, e o controverso Below Sea Level (2008), olhar para a comunidade americana de "vencidos da vida" de Slab City.

Rosi não é um desconhecido do público português mais atento: El Sicario venceu o DocLisboa 2010 (e foi inclusive já exibido na televisão portuguesa), depois de Below Sea Level ter estado a concurso naquele festival em 2009. Este fim de semana, o cineasta regressa a Portugal para acompanhar a retrospectiva que lhe é dedicada pelo Lisbon & Estoril Film Festival (LEFFEST) no Espaço Nimas, exibindo todas as suas longas-metragens. O curto ciclo permitirá descobrir o seu primeiro filme, Boatman (1993), sobre os barqueiros da cidade sagrada indiana de Varanasi, e ver em ante-estreia Sacro GRA (que chegou a estar anunciado para o Doc 2013, mas foi entretanto adquirido para distribuição por Paulo Branco).

É uma obra ainda curta, devido à exigência temporal dos assuntos que Rosi escolhe, que o próprio define como "um modo de vida" mais do que um simples projecto cinematográfico (a título de exemplo, Sacro GRA exigiu dois anos de pesquisa e filmagem e sete meses de montagem). E o realizador recusa-se a limitar o seu trabalho à gaveta do documentário - "uma definição que é mais um obstáculo do que outra coisa", como diz ao Ípsilon por telefone de Roma numa manhã de domingo, entre chegar do festival de Abu Dhabi e partir para Viena de Áustria (onde irá apresentar Sacro GRA na Viennale antes de vir a Lisboa).

Rosi não pensa que o Leão de Ouro atribuído pelo júri de Bernardo Bertolucci em Veneza venha a mudar significativamente a percepção pública do documentário, ou mesmo a sua própria carreira. "Vai certamente mudar o modo como vou estruturar futuras produções," diz, "mas não sei se pode vir a ter um impacto como aquele de que fala. O documentário está aberto à mudança e ao novo, e há pessoas que já estão a trabalhar nessa direcção, mas há outras que continuam a ser muito fundamentalistas, que acham que ele deve continuar a ser o que era antes. É difícil dizer se [o prémio] mudou qualquer coisa porque, no fundo, é tudo uma questão de ponto de vista."

Em busca da essência

Do seu ponto de vista, o documentário é uma forma aberta, quase orgânica, de contar histórias, norteada por uma ideia "de síntese, de essência, de buscar algo que considero ser a verdade da personagem". Alerta e animado apesar do cansaço, o cineasta define num inglês com leve sotaque italiano os três elementos que lhe servem de rumo em cada filme: subtracção, transformação, e estrutura.

Subtracção: "Os meus filmes dão o mínimo de informação possível sobre as pessoas, sobre os locais, procuram captar apenas um pequeno fragmento do tempo ou do local. É por isso que, para mim, o documentário é o único modo em que se pode experimentar, levar as coisas ao limite; a arte reside no intervalo entre as coisas, em compreender que o silêncio pode dizer tanto como o ruído."

Transformação: "O cinema pode criar uma transformação apenas através das imagens. O documentário pode fazer isso porque, no momento em que estou a filmar, existe uma condensação de inúmeros momentos, tudo se transforma, os dois anos que passei [a pesquisar] levaram àquele momento e estou a concentrar toda uma relação naquele instante. Em Sacro GRA queria que este lugar se tornasse noutra coisa, quase como um mapa da mente, algo que pertencesse mais à imaginação do que à realidade - embora exista na realidade e seja tangível."

Estrutura: "As imagens criam o seu próprio espaço, e durante a montagem compreendemos como isso acontece, como as coisas se impõem sozinhas. Durante a montagem tenho que esquecer a minha própria experiência, a fim de trazer tudo para o tempo presente. O material está constantemente a falar comigo, e se algo não resulta na montagem é porque há algo muito antes no filme que não resulta. É como um cubo de Rubik - só uma das milhares de combinações possíveis permite resolver o quebra-cabeças."

Imersão total

Apesar do muito em comum que tem com as obras anteriores, Sacro GRA marca também uma inflexão no trabalho de Rosi: é a primeira vez que roda na sua Itália natal, depois de ter ido à Índia, aos EUA e ao México. E onde Boatman, Below Sea Level e El Sicario, Room 164 seriam "monografias" sobre comunidades ou pessoas, Sacro GRA parte de um local para se dispersar em várias direcções ao mesmo tempo, quase como um "livro de contos". O cineasta concorda com essa ideia de histórias que de algum modo se entrelaçam num todo: "Quando se está a ler um livro de contos, há algo que fica de todas as histórias, uma espécie de fio condutor que torna o livro numa única, grande, história. Como se cada conto estivesse ligado ao que o antecedeu, como se cada história contivesse elementos de uma história maior, e esses elementos fossem entrecortados por momentos de silêncio, que desenham as relações entre as histórias."

É por isso que o processo de montagem do novo filme foi significativamente mais complexo do que nos anteriores. "El Sicario levou duas semanas a montar, Boatman e Below Sea Level um mês cada um, mas eram filmes fáceis de montar," explica Rosi. "A estrutura, o arco narrativo estavam presentes desde o princípio. Era tudo uma questão de ir aparando e retirando. Aqui, precisei de seis, sete meses de montagem - foi um processo muito difícil, com muitas crises e muito recomeços, porque cada uma das histórias concentra muita emoção e muita informação num espaço muito curto. A questão é que, se um determinado momento não estivesse lá, o filme não resultaria. Lembro-me de, a dada altura, mudar uma coisa e tudo começou a desmoronar-se - tive de recomeçar do princípio, refazer tudo desde o primeiro fotograma."

O processo de criação, esse, não mudou em relação aos filmes anteriores: uma imersão total que vê Rosi ser o único elemento da equipa ao longo de todo o tempo de rodagem, e da qual nasce a noção de confiança essencial para a criação do seu cinema. "Sou eu a minha própria equipa, estou ali sozinho a criar uma relação com a personagem," diz. "Trabalhar sozinho permite-me chegar a uma comunicação que não existiria se eu levasse um operador de câmara e um técnico de som, criar uma confiança tão forte que me permite desaparecer do filme. Tenho de criar confiança com estas pessoas a fim de as tornar em personagens, tal como tenho de criar confiança com o público; se o público não confia em mim o filme está perdido, se eu perder a confiança na personagem a essência que procuro encontrar perde-se. E, depois, tenho de desaparecer, para permitir ao público criar a sua própria relação com aquelas pessoas."

A conversa regressa ao Leão de Ouro - e o festival de Veneza tem uma relação bastante próxima com Rosi, que já vencera prémios na secção paralela Orizzonti com Below Sea Level e El Sicario antes de ser "promovido" ao concurso principal este ano e de o júri presidido por Bertolucci lhe ter atribuído o prémio máximo do certame. "Quando me deu o prémio em Veneza, Bertolucci falou de Sacro GRA ser un film francescano," conta o realizador, "em referência a São Francisco de Assis. Quando regressei a Roma, vínhamos no mesmo comboio e perguntei-lhe o que tinha querido dizer com isso, e respondeu-me que era um filme que não julgava, que se limitava a observar." Embora Sacro GRA seja um filme sobre a Itália contemporânea - "porque o GRA cria uma espécie de Roma invisível, um muro que rodeia a cidade mas que nunca foi retratado e que separa duas Romas que não comunicam" - a verdade é que essa ideia de um olhar que não julga e se limita a observar e a contar histórias é permanente no cinema de Gianfranco Rosi. Vamos poder vê-lo este fim de semana.

A retrospectiva de Gianfranco Rosi no LEFFEST decorre sábado e domingo no Espaço Nimas, em Lisboa, com a projecção de Below Sea Level (sábado às 19h30), Sacro GRA (sábado às 22h), El Sicario, Room 164 (domingo às 14h) e Boatman acompanhado pela curta Tanti Futuri Possibili (domingo às 19h15). Rosi estará presente nas três primeiras sessões para apresentar os filmes. Sacro GRA será ainda exibido no Centro de Congressos do Estoril (segunda, 11, às 19h30).