Bundesbank votou contra descida de juros do BCE

Autoridade monetária europeia continua dividida na hora das grandes decisões.

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Jens Weidmann, presidente do Bundesbank Foto: Stefan Wermuth/Reuters

A informação é avançada pela agência Bloomberg, que cita quatro responsáveis do BCE que não são identificados.

Segundo a Bloomberg, Jens Weidmann, presidente do banco central alemão, e membros de países habitualmente alinhados com o Bundesbank nas votações dentro do conselho de governadores do BCE não concordaram com a antecipação do corte de taxas de 0,5% para 0,25% face ao que era largamente antecipado pelos mercados. Embora não se saiba neste caso  quem votou ao lado do Bundesbank, os países que em ocasiões anteriores surgiram como "alinhados" com a Alemanha foram a Holanda, a Finlândia e a Áustria.

Dois responsáveis do BCE disseram ainda à Bloomberg que o alemão Joerg Asmussen, membro do conselho executivo do BCE que não está directamente ligado a qualquer banco central nacional, também se opôs à decisão. No total, cerca de um quarto dos membros do conselho de governadores do BCE terá votado contra.

A Bloomberg especifica ainda que o economista chefe Peter Praet e o governador do Banco de França, Christian Noyer, estavam entre os que votaram a favor. Não é feita qualquer referência em relação ao sentido de voto dos dois portugueses que fazem parte do órgão que decide as taxas de juro na zona euro: Vítor Constâncio, vice-presidente do BCE, e Carlos Costa, governador do Banco de Portugal.

Na quinta-feira, na conferência de imprensa que se seguiu à decisão, Mario Draghi, o presidente do BCE, disse que a necessidade de cortar taxas de juro era aceite por todos, mas reconheceu que não havia consenso em relação ao melhor momento para o fazer. A resposta rápida dada pelo BCE aos dados que mostraram a taxa de inflação na zona euro a cair para 0,7% em Outubro está a ser lida nos mercados como a adopção de uma atitude mais agressiva por parte do BCE no combate à crise económica e à ameaça de deflação na zona euro.

O presidente do banco central alemão tem estado, desde que assumiu o lugar, na linha da frente entre aqueles que se opõem a uma política mais expansionista por parte do BCE. Em particular, foram públicas a sua oposição à compra de títulos de dívida pública realizadas pelo BCE nos países periféricos e a sua reserva em relação ao novo programa de aquisição de obrigações, a que países como Portugal poderão recorrer depois de concluído o programa da troika.

Mario Draghi, ao anunciar o corte de taxas, deixou no ar a expectativa de que o BCE poderá ir mais longe, seja com novos cortes de taxa (de refinanciamento e de depósito), seja com outros instrumentos. Para isso, o presidente do BCE deverá já estar a contar com a oposição do maior banco central nacional do eurossistema, o Bundesbank.
 

Contra Berlim na união bancária

Já esta sexta-feira, ficou também evidente uma forte diferença de opiniões entre o BCE e a Alemanha em relação aos próximos passos a dar na união bancária. Neste caso, o diferendo não será tanto dentro do banco central, mas entre Frankfurt (a sede do BCE) e Berlim (onde está o Governo alemão).

Numa opinião sobre a união bancária enviada às instituições da União Europeia, o BCE defende que a melhor opção para lidar com as falências dos bancos da zona euro é um mecanismo único, com uma entidade que concentre a autoridade e responsabilidade sobre todas as instituições financeiras. "Um mecanismo único fica em melhor posição para garantir uma acção de resolução optimizada, incluindo uma adequada partilha de custos, do que uma rede de autoridades de resolução nacionais", afirma o documento preparado pelo BCE.

Esta opinião é exactamente a oposta à que tem vindo a ser defendida pelo Governo alemão. Em diversas ocasiões, o ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble, tem dito que o novo sistema de gestão das falências bancárias na zona euro deve começar por funcionar através de uma rede de autoridades nacionais, argumentando que a criação de uma entidade única – com dinheiro e capacidade política para decidir se um banco deve ser salvo por dinheiro público ou representar um encargo para os seus credores ou clientes – iria contra os tratados da UE.
 
 
 
 
 
 
 

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