Bill de Blasio, o mayor que quer acabar com a "história de duas cidades" em Nova Iorque

Foto
Bill de Blasio e a sua mulher, Chirlane McCray, na festa da vitória CARLO ALLEGRI/REUTERS

Era uma daquelas eleições que já estavam ganhas antes do anúncio dos resultados finais, mas os números superaram até as sondagens mais optimistas. Com uma vantagem de quase 50 pontos percentuais, Bill de Blasio levou o Partido Democrata de volta à liderança de Nova Iorque, ao fim de duas décadas.

O discurso de vitória, proferido num pavilhão da organização YMCA, em Brooklyn, foi tão empolgante como esperado. A mensagem de "uma história de duas cidades", assente na denúncia do aumento das desigualdades sociais, acertou em cheio em todos os grupos que compõem o mosaico nova-iorquino.

De acordo com um estudo da Edison Research, Bill de Blasio obteve 96% dos votos entre o eleitorado negro, 90% dos eleitores registados no Partido Democrata, 85% entre os latinos e até 16% dos que costumam votar no Partido Republicano.

"Os melhores e os mais inteligentes nascem em todos os bairros. Todos temos a responsabilidade partilhada - e a oportunidade partilhada - de garantir que os seus destinos são definidos pela força do seu trabalho e pela grandeza dos seus sonhos, e não pelo seu código postal", afirmou o novo mayor de Nova Iorque, muitas vezes acusado de ter um discurso populista.

Mesmo entre os seus principais apoiantes há quem admita que um mayor pouco pode fazer para reduzir as desigualdades sociais, já que apenas controla cerca de 10% dos 70 mil milhões de dólares do orçamento da cidade - a grande fatia está reservada à partida para gastos fixos, como os serviços sociais, as pensões e a dívida.

"Na prática, não há muito que um mayor possa fazer quanto ao crescimento das desigualdades", disse ao The New York Times Harold Ickes, director adjunto do gabinete de Casa Branca no primeiro mandato de Bill Clinton e conselheiro da campanha de Bill de Blasio. "Mas ele pode fazer muito através das palavras. Vamos ter um tom e uma ênfase diferentes - apesar de por vezes não podermos abusar muito no tom - em áreas de residência que ele julga serem merecedoras de mais atenção do que durante o mandato de Bloomberg", disse Harold Ickes.

Grande parte da vitória esmagadora de Bill de Blasio assentou nesse corte com o passado, representado pela figura do magnata Michael Bloomberg, que sai da cadeira de mayor de Nova Iorque ao fim de 12 anos: "Os desafios que estamos a enfrentar começaram há décadas e os problemas que queremos resolver não vão ter solução de um dia para o outro", avisou De Blasio no seu discurso de vitória.

A proposta do novo mayor pode estar fora do alcance dos seus poderes políticos, mas a sua mensagem assentaria na perfeição em muitas outras cidades norte-americanas e em muitos outros países.

"Quando apelamos aos mais ricos entre nós que paguem um pouco mais em impostos para financiarmos uma rede de infantários universal e programas de ocupação de tempos livres, não estamos a ameaçar o sucesso de ninguém. Estamos a pedir às pessoas que tiveram sucesso que garantam às crianças as mesmas oportunidades que eles tiveram", disse Bill de Blasio, debaixo da ovação dos seus apoiantes.

Para além das palavras, De Blasio, de 52 anos e quase dois metros de altura, tinha também do seu lado a imagem, tantas vezes essencial para garantir vitórias eleitorais. Casado com Chirlane McCray, uma escritora e activista negra que chegou a assumir-se como lésbica quando tinha 17 anos de idade, o novo mayor fez-se acompanhar em várias acções de campanha com os seus filhos. Chiara, de 18 anos, viajou da Califórnia, onde estuda na universidade, para fazer uma surpresa ao pai no dia das eleições; Dante, de 16 anos, é conhecido pelo seu penteado estilo afro, que mereceu um comentário do Presidente dos EUA, Barack Obama: "Ele tem o mesmo penteado que eu tinha em 1978. Mas tenho de confessar que o meu afro nunca foi tão bom como o dele. Era um pouco desequilibrado."