A picareta bocejante

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António José Seguro partilha com alguns mamíferos marsupiais a notável capacidade de se fingir de morto quando sente a aproximação de um perigo. O gambá, por exemplo, imita o seu falecimento na perfeição, caindo para o lado, de língua de fora. A técnica de António José Seguro é distinta: mantém-se sempre de pé, muito direitinho, e fala, fala, fala muito, mas sempre com o extraordinário cuidado de não dizer absolutamente coisa alguma, nem correr o mais pequeno risco que o possa comprometer. E a verdade é esta: no território da política portuguesa, tal forma de parecer morto tem-lhe dado uma longa vida.

Primeiro, foi vê-lo atravessar a selva socrática sem nunca pôr o pé em ramo verde, sempre de nariz no ar a ver de onde soprava o vento, metade do corpo dentro e outra metade fora, enquanto fazia o seu trabalho de formiguinha junto das concelhias socialistas. Agora, como líder do PS, Seguro tem aperfeiçoado esta sua letargia palradora, numa espécie de oposição tântrica, procurando atingir o prazer do poder mexendo-se o mínimo possível. Mesmo quando o picam, seja através de Cavaco, que o obrigou a reunir com Passos durante a crise do Verão, seja agora através do PSD e do CDS-PP, que insistem na necessidade de debater a reforma do Estado, Seguro reage segundo a sua máxima muito particular, de quem leu O Leopardo de pernas para o ar: "É preciso que tudo fique na mesma para que algo mude."

É por essa razão que ele é o campeão nacional do imobilismo em movimento. Ainda há dois dias, empurrado mais uma vez pelo Presidente da República para discutir o Portugal pós-troika, Seguro voltou a aparecer diante das câmaras de televisão com uma pose falsamente agastada, em novo ensaio de como fingir de morto permanecendo vivo. Ele disse coisas como "chega de conversa fiada" enquanto fiava mais conversa, disse que "estava farto de discussões que não levam a coisa nenhuma" enquanto discutia coisa alguma, disse que não queria mais "diálogos pelos diálogos" enquanto monologava, e disse que "o país precisa de soluções" sem ter soluções para mostrar, exceptuando aquelas palavras mágicas, de que só ele certamente conhece a fórmula, que transformam a austeridade em crescimento, através de um banco de fomento, de fundos europeus e de aldrabices assumidas nas contas do défice.

Já vai sendo hora da complacência para com a incompetência de António José Seguro acabar de uma vez por todas, incluindo por parte dos jornalistas que lhe põem o microfone à frente para as suas não-declarações, e que não podem achar normal um partido político com ambições de governo recusar-se a entrar no debate sobre o futuro do país. De outra forma, de cada vez que Seguro abre a boca é a democracia portuguesa que continuará a ficar um pouco mais pobre.

Nós vivemos numa época de urgência, em que a oposição não se pode limitar ao papel clássico de esperar que o poder lhe caia de podre no colo. O PS tem demasiadas responsabilidades no estado a que o país chegou para que se possa permitir dar estes ares de morto-vivo, recusando discutir no tempo certo aquilo que obviamente terá de discutir em tempo incerto. A cobardia política de que o seu líder dá mostras é tão grave quanto os piores momentos de amadorismo deste Governo. A oposição pelo bocejo não é aceitável. E isto não é uma questão ideológica - é apenas exigir que o regime não desça ao nível do gambá.

Jornalista [email protected]