É "moderadamente provável" que Arafat tenha sido envenenado com polónio

A viúva do líder palestino diz se tratou de um "crime político". Israel desvaloriza as conclusões.

O corpo de Arafat foi exumado no ano passado
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O corpo de Arafat foi exumado no ano passado Reuters

Os cientistas suíços que analisaram os restos mortais do líder palestiniano Yasser Arafat encontraram nos seus restos exumados um nível 18 vezes superior ao que seria normal do elemento radioactivo polónio. A sua análise aponta para que existam 83% de probabilidades de ter sido envenenado.

Apesar desta elevada percentagem de certeza, os cientistas que realizaram a investigação — a Al-Jazira teve acesso ao relatótio final — dizem que os dados apontam para uma "probabilidade moderada" de o polónio 210  ter causado a morte ao líder histórico palestiniano.

O relatório tem 108 páginas e foi redigido pelo Centro de Medicina Legal da Universidade de Lausanne. Diz que os níveis mais elevados de polónio foram encontrados na pélvis e nas costelas de Arafat, mas também na matéria da decomposição dos seus órgãos moles — é nestes que melhor se detecta o polónio. 

O único caso conhecido (e provado) de este elemento radioactivo ter sido usado para matar alguém é o do espião russo Alexander Litvinenko, que morreu num hospital em Londres, a 23 de Novembro de 2006.

Não há outro caso conhecido de ingestão letal de polónio 210 por seres humanos, escrevem os cientistas no relatório, para além do de Litvinenko. "Mas o seu caso não foi descrito na literatura científica e as únicas características clínicas conhecidas [deste tipo de enveneamento agudo por radiação são as descritas nos media]." Não é por isso possível estabelecer um paralelo fidedigno entre o caso do russo e o de líder palestiniano, sublinham. 

"Yasser Arafar morreu de envenamento por polónio", comentou para a Al-Jazira o cientista forense britânico Dave Barclay. O nível de polónio nas costelas de Arafat era 900 milibecquerels (a unidade de medida para radioactividade). Este valor indica que há vestígios entre 16 e 32 vezes os valores considerados normais, variando a norma de autor para autor, diz a Al-Jazira. Barclay está convencido de que se tratou de um assassínio. "Encontrámos a pistola fumegante que matou Arafat  — disse —, mas não sabemos quem a disparou."

O documento, elaborado por uma equipa suíça, francesa e russa, examinou a causa de morte do líder palestiniano, que morreu a 11 de Novembro de 2004 (faz na quinta-feira nove anos). Mas não menciona se houve intencionalidade na contaminação por polónio, ou seja, não se debruça sobre outro tema a não ser a presença do polónio.

Yasser Arafat morreu num hospital militar francês, aos 75 anos. Foi transferido para ali de Ramallah, na Cisjordânia, depois de semanas a sentir-se mal. No dia 12 de Outubro de 2004, quatro horas após ter jantado, o palestiniano começou a ter náuseas, diarreia e vómitos. Os médicos palestinianos diagnosticaram-lhe gripe, mas por não melhorar foram chamados médicos egípcios para o observar.

Estes também não puderam fazer um diagnóstico e foi decidido enviar Arafat para França, onde também não houve um diagnóstico e onde morreu de acidente vascular cerebral hemorrágico. Apesar da falta de diagnóstico, não foi feita uma autópsia.

A tese de envenenamento foi rápida a surgir, com a estação de televisão Al-Jazira a realizar um trabalho de jornalismo de investigação  — "What killed Arafat?"  — que culminaria na exumação dos restos mortais, depois de a viúva do líder palestiniano, Suha Arafat, ter sido envolvida no processo. "Foi um crime político", disse esta quarta-feira Suha, após receber o relatório. "A minha filha e eu queremos saber quem fez isto", disse a viúva, citada pelo jornal The Guardian, defendendo que a Autoridade Palestiniana tem de agir para apurar a verdade. Pediu ainda que a investigação à morte do marido seja separada do processo de paz entre os palestinianos e os israelitas.

Em Israel, o Governo desvalorizou o relatório do laboratório suíço e deixou uma advertência. "Vamos assistir a uma nova ronda de acusações, mas os palestinianos que não pensem que nos vão acusar por isto", disse o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Ygal Palmor. Considerou os dados laboratoriais "não conclusivos" e pediu contenção à Autoridade Palestiniana. "Mesmo que tivessem encontrado vestígios de polónio que indicassem envenenamento, não há provas de que esse envenenamento tenha ocorrido. Há muitas perguntas que devem ser respondidas antes de a Autoridade Palestiniana começar a tirar conclusões."