Dean Blunt, um trovador futurista em Lisboa

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Dean Blunt não opera propriamente segundo as regras da indústria dr

A solo revela a faceta de cantador subversivo de pop orquestral. No Maria Matos, hoje, às 22h, espera-se o inesperado

No espaço de meia dúzia de meses o inglês Dean Blunt lançou dois álbuns. Um outro músico, provavelmente, teria a paciência suficiente para esperar a melhor altura para lançar novo disco.

Mas Dean Blunt não opera propriamente segundo as regras da indústria da música. Entre 2009 e 2012, ao lado de Inga Copeland formava os Hype Williams, um dos projectos mais misteriosos e idiossincráticos da música urbana mais recente. As entrevistas eram raras. E quando aconteciam não eram propriamente esclarecedoras. E fotografias de promoção eram também quase inexistentes. Os seus concertos assemelhavam-se a operações ritualísticas, mais próximos da instalação de arte do que propriamente do espectáculo de música convencional. E a sua música era difícil de situar. Continha traços de várias linguagens (dub, pop, música de dança, soul, psicadelismos) mas o todo era de difícil decifração. Em Maio o inglês lançou o primeiro álbum a solo, The Redeemer, e de imediato se percebeu que era objecto de características diferentes.

Era um disco bem mais inteligível. Digamos que era mais um álbum de trovador do que de experimentador. Embora, como seria de esperar, não fossem propriamente canções convencionais.

É um disco de ressaca, alienação e êxtase. Uma obra sobre o fim de uma relação amorosa. Ou melhor, um ciclo de canções sobre a nostalgia dessa relação, a lembrança nebulosa sobre algo que já foi.

Ouvem-se sons concretos - estilhaços de vidros, sirenes, alarmes de carros - e o ambiente geral é melancólico, marcado por uma sonoridade electroacústica de contornos suaves e de grande pureza expressiva. As letras falam de abandono e do desejo de exílio. Terá sido isso, talvez, que fez com que tivesse residido uns meses em Lisboa, depois de vários concertos na cidade com os Hype Williams. Em Outubro deste ano, para surpresa geral, resolveu lançar novo álbum, Stone Island, contendo as características do seu antecessor, mas indo mais longe sonicamente, depurando, sem deixar de lado a faceta subversiva, uma espécie de pop orquestral.

Mais uma vez, foi um lançamento ao largo das lógicas convencionais. Ao que parece terá sido registado num fim-de-semana num quarto de hotel, em Moscovo, na Rússia, e foi disponibilizado logo para descarregamento gratuito pelo músico. Agora encontra-se em digressão, e o cerimonial nocturno e místico, que era a imagem de marca dos Hype Williams em palco, parece não ter sido esquecido por Blunt. O palco mais parece um teatro de sombras, com clarões de luz e uma máquina de fumos a interromper a penumbra, de onde sobressai o vulto do cantor, da guitarrista Joanne Robertson e do trompete de David Gray. Atrás dele, uma silhueta masculina. Parece ser um segurança. O que faz em palco? Mistério. Como já acontecia no duo que partilhava com Inga Copeland, os seus espectáculos parecem performances com momentos de confusão, quase silêncio e catarse.

Só que desta vez o que emerge das sombras são baladas futuristas com algo de sumptuoso e sonhador, num compromisso entre maior clareza na comunicação sem deixar a experimentação. Mas isso é o que acontece em disco. No palco tudo pode ser transfigurado. Hoje, no Maria Matos, em Lisboa, às 22h, espera-se o inesperado.