Sara Bichão: vincos, dobras e mudanças de cor

A artista plástica Sara Bichão tem exposição na galeria “Les Gens Heureux”, em Copenhaga. “Plant”, a obra da jovem artista, pode ser vista até dia 10 de Novembro

Plant pode assumir diversas formas geométricas Amanda Hestehave
Fotogaleria
Plant pode assumir diversas formas geométricas Amanda Hestehave
Obra em exposição até dia dez de Novembro Amanda Hestehave
Fotogaleria
Obra em exposição até dia dez de Novembro Amanda Hestehave

Após diversas exposições em Nova Iorque ou Miami, agora é a vez de Sara Bichão se apresentar aos dinamarqueses, na exposição Eccentric Exercise – International Contemporary Drawing, que tem lugar na galeria copenhaguense “Les Gens Heureux”.

A exposição desafia-se a enfrentar “os limites do desenho”, que antes era visto, segundo a artista, como “apoio à obra de arte”. “O desenho, hoje, já não precisa de representar nada. Tal como na música, começamos a perguntar o que é a poesia dentro da linha, ou seja, como podemos tornar o desenho em algo poético”.

A acompanhar a portuguesa estão outros artistas internacionais, como o israelita Guy Goldstein, o mongol Tuguldur Yondonjamts e a sérvia Ivana Ivkovic. Os artistas já se conheciam da Residency Unlimited, em Nova Iorque. A curadora Henriette Noermark, que também trabalhava na residência artística, ficou a par do trabalho deles e, em conjunto, decidiram organizar a exposição.

“Plant”, a obra de Sara Bichão, foi criada por forma à artista poder “transportá-la para qualquer lado, sem pagar exageros de transporte de avião”. A artista dobrou e vincou o “corpo de uma folha" de grandes dimensões, o que lhe permite diversas figurações e “possibilidades geométricas de dobragem para o centro”.

A peça desafia a estaticidade da arte, já que o seu aspecto varia consoante a luz do espaço onde é exibida, numa dicotomia entre “o dia e a noite”. Assim, enquanto na presença da luz apenas se vislumbra “um plano grande no chão”, na sua ausência o objecto transforma-se num círculo, pintado pela artista, por forma a criar um efeito fluorescente. “É tudo muito pouco geométrico, quando comparado ao que se vê à luz. Transporta as pessoas para um espaço mental porque tudo o que vêem ao centro é uma figura abstracta – o círculo, símbolo da existência”, conclui Sara Bichão.

A abertura da exposição contou com uma performance da artista portuguesa – repetida por duas vezes – onde, à medida que abria a peça, esta ganhava diversas formas, assumindo-se como “uma pirâmide ou uma flôr”. “Foi muito bom, estava cheio. As pessoas não estavam nada à espera. É uma peça que, por razões quase ancestrais, nos deixa maravilhados por causa do escuro, da luz e da revelação”, reflecte a artista sobre a experiência.

Depois da exposição em Copenhaga, o grupo de artistas pretende expandi-la para Belgrado, na Sérvia, e lançar uma publicação, em Nova Iorque, que deverá sair no próximo ano.

“Existência, contemporaneidade e poesia”

O processo de criação é, todo ele, inspirado nas situações quotidianas. “Normalmente é um processo fluído e espontâneo. Quando há uma proposta temática, aí sou mais fria e projecto uma ideia. Mas sempre de acordo com os meus princípios de existência, contemporaneidade e poesia”, afirma a artista.

Quando a questionamos sobre a decisão de dar a obra por concluída, Sara Bichão afirma que decisão é instintiva. “Não há explicação. Quando sinto que há um espaço lá dentro, um universo que me parece que funciona, então aquilo já não é só meu e existe para as pessoas”.

Actualmente, a artista está a fazer uma residência artística no Carpe Diem Arte e Pesquisa, situado na Rua do Século, Bairro Alto, em Lisboa. “Em Janeiro de 2014 vou ter lá uma exposição de "site-especif art", ou seja, as obras só fazem sentido naquele espaço”. Em Março e Abril do mesmo ano, a portuguesa tem marcada uma exposição na Galeria Bessa Pereira, em Lisboa.

A nível internacional, a artista portuguesa diz-se disponível para expôr o seu trabalho “em qualquer parte do mundo” e vai voltar à Rooster Gallery, em Nova Iorque, em Outubro e Novembro de 2014. Vida de artista plástica em Portugal? “Não é fácil, mas é uma condição. Continuo a viver em Lisboa, mas sempre a trabalhar a nível internacional”.