Um homem de negócios, de esquerda, homossexual, implicado e de sucesso. E quanto!

Ao lado de Yves Saint Laurent, Pierre Bergé viveu uma intensa história de amor e, através dela, ajudou a moldar não apenas o mundo da moda, mas a própria ideia de indivíduo

Aos 83 anos, ainda se surpreende com a energia que o motiva a envolver-se em causas culturais, políticas e sociais como se houvesse sempre uma batalha a travar. Ao lado de Yves Saint Laurent, viveu uma intensa história de amor e, através dela, ajudou a moldar não apenas o mundo da moda, mas a própria ideia de indivíduo. Pierre Bergé, que nunca deixou que a sua voz fosse ignorada, é um homem como parecem já não existir

Q uem o diz é Pierre Bergé: "Não gosto de contar a minha história. A confissão não faz parte do meu quotidiano e a exposição incomoda-me."

E, no entanto, a sua vida é a história de quase um século de transformações políticas, sociais, económicas e culturais.

No seu escritório, no primeiro andar da Fundação Pierre Bergé-Yves Saint Laurent, em Paris, a luz de fim de tarde outonal ofusca os dois quadros de Andy Warhol, um de Marilyn Monroe, quase escondido pela porta, o outro de Yves Saint Laurent, atrás da secretária e que parece controlar toda a sala. Ao longo de quase duas horas de conversa, Bergé vai tentando desviar as atenções sobre o que ele próprio fez para o talento e intuição daquele que foi seu companheiro durante 50 anos (até à morte de Saint Laurent em 2008) e com quem fundou a maison de alta-costura YSL, em 1961.

A vida de Pierre Bergé é a vida de um homem cuja voz é escutada da esquerda à direita desde há mais de 60 anos. Começou na cidade portuária de La Rochelle, no Sudoeste de França, onde, a partir dos livros do anarquista Max Stirner, descobriu a poesia de Rimbaud e os romances de André Gide - e, com eles, a defender a sua própria identidade, a começar pela sexual. Era um rapaz ambicioso e desassossegado a quem o escritor Jean Giono confiou a sua biografia e diria uma frase que Bergé nunca mais esqueceria: "Enquanto o homem não encontrar as suas verdadeiras riquezas, não produzirá senão um falso pacifismo." A biografia de Giono nunca seria escrita porque Bergé se multiplicava por diferentes papéis. Aprendeu a ser marchand, agente, negociante, "fazedor de estrelas", como lhe chamou a jornalista e biógrafa Béatrice Peyrani. E amante, passional, incendiário, incomodado, resistente porque não saberia viver de outra forma.

Viveu um romance com o pintor Bernard Buffet, de quem seria a sombra - como mais tarde foi de Yves Saint Laurent. Era Bergé quem organizava exposições, encomendava textos e geria a carreira de Buffet, considerado na altura um dos mais importantes pintores franceses do pós-guerra, e hoje praticamente desconhecido. No perfil agridoce que assina em Les Jours s"en vont, je demeure (Os dias passam, eu fico), Bergé diz que Buffet começara a beber e se viciara em sexo, e termina com um comentário amargo, sobretudo se se souber que Buffet morreu com Alzheimer: "Diziam que estava doente, que se tinha suicidado porque já não podia trabalhar. E se não fosse senão um pretexto? E se ele tivesse compreendido que não podia pintar mais? Não apenas fisicamente mas porque, simplesmente, o génio que um dia se havia revelado já há muito o tinha abandonado." A relação com Buffet durou sete anos. Terminou porque em 1957, no funeral de Christian Dior, Bergé conheceu o grande amor da sua vida.

Pierre Bergé navegou sempre em águas profundas, como os peixes que observam falsamente desinteressados o que os rodeia. Mas o modo como foi construindo a sua vida - de homem de negócios ao mais influente nome do mecenato cultural francês, de figura tutelar dos homossexuais a salvador da imprensa livre, de rebelde empresário da moda a hábil negociador - fez dele um homem livre. O fiel apoiante de François Mitterrand diz-se ainda de esquerda. Admite estar arrependido de ter apoiado o candidato da direita, Jacques Chirac, às presidenciais de 1995, quando desafiou o socialista Lionel Jospin - "provavelmente é necessário escolher um candidato que não seja do nosso coração mas que se arrisca a ser aquele da razão", justificou então. Na década de 1990, Bergé fundou a revista gayTêtu e nos anos 2000 investiu no canal de televisão online PinkTV. É presidente da associação de apoio aos doentes com sida Sidaction e em Maio participou numa grande manifestação no Théâtre du Rond Point de apoio ao casamento homossexual. Vencedor em 2012 do prémio Laicidade, atribuído pelo Comité República Laicidade, Bergé deu recentemente uma entrevista à RFI onde defendia o fim de todos os feriados religiosos em França.

"Nunca persegui o destino e foi muitas vezes ele que me chamou", diz-nos Bergé numa conversa amena de duas horas - uma raridade num homem que só dá entrevistas quando quer marcar alguma posição. Aos 83 anos, insiste numa frase que leu na adolescência: "Não há liberdade, apenas homens livres."

No perfil de François Mitterrand que escreveu em Les jours s"en vont, je demeure [Gallimard, 2003], dizia que ele lhe tinha ensinado a distinguir a moral da ética. Como as define?

É muito difícil conseguir fazer essa distinção de forma clara e, na maioria das vezes, as pessoas não a conseguem fazer. Podemos não ter uma moral, mas ter uma ética. Podemos ser vistos, pelos outros, como amorais, mas aos nossos próprios olhos ser fiéis a uma ética. Eu acredito que isso é muito importante. Diria que a moral é aquilo que se vê, aquilo que se partilha e aquilo que se julga.

É também o que os outros impõem?

É também o que os outros impõem e que os outros supõem. Moral todos podem ter e depois adaptam-na às circunstâncias. Ter uma ética é infinitamente mais complicado. A ética é grave, é rígida. A moral é muito mais fluida.

Para a sua geração, nascida com a Segunda Guerra Mundial, essa distinção ajudou a moldar a História do século XX?

Precisamente, a guerra é um dos momentos em que há uma maior dificuldade em distinguir a ética e a moral. A História do vosso país, com a ditadura e a Revolução dos Cravos, é disso exemplo. Quando a História se agudiza, a moral e a ética devem aproximar-se.

E nos negócios?

Ah [risos], nos negócios é outra história! Eu não acredito que exista uma ética nos negócios. Na melhor das hipóteses, há uma moral e na maior parte das vezes, las, não existe. Se há mundo onde a moral é muito mais flexível, é nos negócios, precisamente porque começamos a entrar numa dimensão onde é o poder que o dinheiro pode comprar, e o modo como o dinheiro pode corromper, que toma conta dos discursos. A questão torna-se então saber como conseguir escapar a esse jugo.

Os homens de negócios vão, mais uma vez, ficar contra mim se lerem isto, mas talvez seja possível admitir que, se eu me implico em tantas causas e em tantos apoios a projectos artísticos, seja para me fazer perdoar - e perdoar talvez não seja a mais justa das palavras - ou para explicar o que é que se deve fazer com o dinheiro que se ganha. O dinheiro não pode servir apenas para gerar mais dinheiro.

Como é que um homem que ajudou a construir uma marca de luxo tem esse discurso?

Pode inclusivamente acrescentar: como se faz isso quando se é um homem de esquerda?

Precisamente. E que foi educado como um anarquista.

Anarquista que ainda sou. Vocês têm um escritor notável, por quem tenho uma grande admiração, chamado Fernando Pessoa, que escreveu um livro intitulado O Banqueiro Anarquista. Perguntam-lhe: "Parece que quando novo foi anarquista." Ele responde: "E quem lhe disse que deixei de o ser?" Revejo-me muito nessa frase.

O que é ser anarquista?

É sobretudo ser livre e garantir que os outros sejam também livres. Sabe, um homem de esquerda, que ganha dinheiro, é sempre vítima de uma ambiguidade à qual ninguém consegue escapar. Eu certamente não lhe escapo, mesmo que, fazendo parte de uma sociedade de consumo, faça sobre essa sociedade um julgamento muito severo.

Para mais, uma sociedade que ajudou a criar.

Exactamente. Ajudei a criar essa sociedade de consumo. Mas talvez seja mais correcto, ou mais justo, dizer que aproveitei essa sociedade. Reconheço que é uma ambiguidade da qual procuro afastar-me usando argumentos dos quais não estou muito seguro. Faço parte da sociedade de consumo mas, por exemplo, nunca deixei de procurar consumir arte. A verdade é que eu me defino como um homem de esquerda que tem dinheiro, e que gerou dinheiro, mas que não acredita na sociedade de consumo. Acho que realmente não serve para nada.

Acredita realmente nisso?

Sim, não serve para nada. Nem a nada. Olhe para o mundo no qual vivemos e pelo qual nos batemos. As coisas não servem para nada. Dou-lhe um só exemplo: defendemos a laicidade e estamos numa época onde as religiões - não me refiro à espiritualidade - exercem uma pressão enorme e escandalosa sobre o discurso público.

Condicionando-o?

Controlando-o inclusivamente. Vivemos numa enorme ambiguidade.

Ser de esquerda é exercer um acto de resistência?

É efectivamente assim. Ser de esquerda é fazer a resistência a um sistema. Eu não tenho ilusões nem sou ingénuo. Sei bem que não vamos alterar tudo. Ao contrário daquilo em que acreditamos e dizemos, não fazemos as coisas para os outros mas para nós. Eu não deveria colaborar passivamente com forças de direita e, no entanto, fi-lo. Contudo, sinto-me obrigado a resistir e a afirmar-me como tal. De esquerda.

Visto com a distância de quase 20 anos, como é que lê o seu apoio a Jacques Chirac, em 1995, à Presidência?

Não exageremos e contextualizemos a época. Jacques Chirac representa uma direita muito simpática, uma direita, como se diz em França, radical-socialista. Vivíamos o fim da era Mitterrand [entre 1981 e 1995] e o apoio a Chirac tinha como objectivo impedir Édouard Balladour [apoiado pelos partidos de direita]. Foi sobretudo essa razão. Não escondo que também não me entusiasmava a ideia de ver Lionel Jospin ser eleito. [Bergé foi próximo do pai, Robert Jospin, mas considerava que Lionel tinha um "queixo mussoliniano".]

Alguma vez pensou em candidatar-se à Presidência da República?

Ah! [risos] Não, está a brincar comigo. Não acredito em nada. Não poderia ser Presidente da República.

Quando votou em Chirac para se opor à direita conservadora, imaginava que, um dia, essa mesma direita pudesse estar perto de chegar ao poder?

Não penso que chegue ao poder, mas acredito que andará sempre perto. Mas não me surpreende. A França é de direita, é conservadora e a França católica reage rapidamente. Sempre acreditei, e infelizmente não me engano, que a grande maioria dos votantes de direita preferem a Frente Nacional [a extrema-direita de Jean Marie e Marine Le Pen] aos socialistas. Não tenho uma grande opinião desses franceses, que eu sei que são pétainistes [simpatizantes do marechal Philippe Pétain, Presidente entre 1940 e 1944, instituiu o regime autoritário de Vichy, durante a ocupação alemã]. São-no e provam-no constantemente. Mas a esquerda é responsável por isso. A França pode, de vez em quando, passar-se para a esquerda, sob égide de alguém excepcional como François Mitterrand. Pode ser de esquerda, por rejeição da direita - e bravo monsieur Hollande que bem pode agradecer a vitória a monsieur Sarkozy. Mas a França perdeu várias oportunidades.

A França tem um papel relevante a nível mundial?

Não. A França acredita que ainda é uma grande nação porque tem uma cadeira no comité de veto da ONU por força de possuir a bomba atómica. Mas já não é uma grande nação. Quando era jovem, juntei-me aos Citoyens du Monde [movimento fundado em 1948 pelo pacifista norte-americano Garry Davis] e era, portanto, pelos Cidadãos da Europa. A França, integrada numa Europa a 28 onde não há um país maior do que outro, perdeu a oportunidade de estar à frente de liderar o projecto de uma Europa federalista.

Porque é que perdeu essa oportunidade?

Falta-lhe capacidade de liderança. Por exemplo, o general De Gaulle [Presidente entre 1944-46 e 1959-69], que não só não gostava da Europa como não a desejava [foi partidário da Europa das Nações, contra uma Europa supranacional], perdeu a oportunidade excepcional de inscrever na constituição europeia a obrigatoriedade do francês como língua oficial. Hoje a língua francesa teria 400 milhões de falantes, estaria na liderança da Europa, no topo do mundo, e com isso mudaria o perfil da imprensa, o poder dos livros, da música, dos filmes... Seria uma língua igual ao inglês. Hoje, quando me falam na luta pela francofonia, só posso achar tudo isso ridículo.

E, no entanto, o modelo da excepção cultural francesa ainda é aquele que predomina na ideia de cultura na Europa. Ou, pelo menos, aquele que melhor integra uma ideia de património colectivo.

Sim, é verdade, mas não tem o poder de transformação que poderia ter sido conseguido antes. Sabe, foram os movimentos revolucionários as principais transformações que mudaram a sociedade. Mas claro, por exemplo, não podíamos imaginar o quanto o Maio de 1968, em França, foi incapaz de estar à altura das suas promessas. Mas quem está? Não esteve à altura, é verdade, mas fez com que a sociedade se pensasse de outra maneira e a pensássemos de outra maneira. Eu sou pelas transformações da sociedade e contra a alteração completa de um dia para o outro. É isso que recrimino no Governo de esquerda que temos hoje. Não podendo fazer as transformações estruturais, como o facto de vivermos num sistema capitalista, por exemplo, podia transformar a sociedade. O casamento para todos é uma transformação da sociedade. O combate pela homossexualidade é um combate da ordem pública, através do qual podemos enfrentar a sociedade. Pensei sempre que tinha a obrigação, por ter uma voz pública, de nunca me esconder e de dar a mão a essas pessoas. A verdade encontra sempre o seu caminho.

Quando foi a primeira vez que se deu conta da sua homossexualidade?

Acho que aos 15 ou 16 anos quis perceber se não me tinha enganado e achei que devia experimentar as raparigas. Mas não... foram sempre os rapazes.

Não foi portanto difícil?

Não, de maneira nenhuma. E tive uns pais extraordinários. Depois, aos 24 ou 25 anos, percebi que era muito fácil ser-se homossexual se fôssemos Jean Marais ou Jean Cocteau [o actor e o poeta e realizador conheceram-se em 1937 e tornaram-se num dos mais famosos casais homossexuais franceses]. Mas é muito difícil quando se é carteiro numa cidade de província ou operário numa fábrica. Não há muito tempo, [o criador de moda] Jean Paul Gautier convidou-me para jantar e, muito simpaticamente, antes de nos sentarmos disse-me: "Pierre, é de uma enorme felicidade conhecê-lo porque foram pessoas como o Pierre e o Yves [Saint Laurent] que me permitiram viver a minha sexualidade."

Da venda da vossa colecção que realizou em 2009 guardou o primeiro objecto que compraram, o pássaro Sénoufo. Foi para trazer de volta as memórias?

Lembro-me de tudo muito bem. Tinha 30 anos quando o comprámos. Lembro-me, por exemplo, quando Yves Saint Laurent me disse, depois de ter sido posto à porta da Dior: "A única coisa que resta é criarmos uma maison de mode e seres tu a dirigi-la" [após a apresentação das primeiras colecções, entre 1958-60, YSL é chamado ao serviço militar e a maison Dior anuncia a sua substituição por Marc Bohan. No regresso, diagnosticado com uma depressão nervosa, YSL é internado por seis semanas e a Dior acusa-o de incumprimento de contrato]. Estávamos no hospital de Val-de-Grâce. Disse imediatamente que sim. Mas não sabia como se iria fazer. Quando, meia hora depois, me vejo cá fora, levei a mão à cabeça e perguntei-me como o faria.

Porque foi importante que tenha sido ele a pedi-lo?

Não era um homem de negócios.

E para além disso era jovem.

Tinha 28 anos e estava apaixonado.

Era importante estar apaixonado pelo homem que acabara de lhe dizer o que deviam fazer?

Absolutamente.

Não o faria por outra pessoa?

Não me tornaria um homem de negócios por nenhum outro. Eu, numa casa de moda? [risos] Era preciso que o admirasse muitíssimo e que acreditasse no que via. Disse para mim mesmo que, se conhecia tanta gente que não sendo brilhante eram homens de negócios, não podia ser assim tão difícil. E pronto... foi assim que começou.

Que ideia tinha do mundo da moda?

Achava que era um métier fútil e burguês. Era amigo de Christian Dior, mas nunca tinha visto uma colecção. Quando conheci o Yves, tudo isso mudou. [Quando abrimos a maison], vivíamos juntos há três anos, já sabia alguma coisa deste métier, assistia às colecções e tinha revisto algumas das ideias que tinha.

Contudo, nunca deixou de dizer que a alta-costura não é arte.

E ainda hoje não é. E, no entanto, acredito que é preciso um artista para fazer alta-costura. Christian Dior, Coco Chanel, Cristóbal Balenciaga, Elsa Schiaparelli, Yves Saint Laurent eram artistas, e grandes artistas...

Já com o pintor Bernard Buffet, que também amava, tinha aprendido a ser um homem de negócios.

Foi importante estar apaixonado por ele, mas, e é a primeira vez que o digo, se me apaixonei por Yves como um tsunami, como un coup de foudre, foi porque admirava menos Bernard Buffet. [pausa] Voilá!

Continuaria a defender o trabalho de alguém que não amasse?

Eu não reconheci o talento através do meu amor. Eu amei porque havia talento. Eu amo porque há talento. Ainda hoje. Não houve um único dia em que eu não amasse Yves Saint Laurent. E nem com todos os altos e baixos da nossa relação, por um único dia a minha admiração por ele empalideceu. Sublinho: nem por um único momento.

Em Les jours s"en vont, je demeure, escreve: "Se não posso dizer que tenha perseguido o destino, muitas vezes foi ele que me chamou." Como vê o que lhe foi acontecendo?

Um desafio. Talvez lhe possa causar alguma impressão se lhe disser que cada coisa que me aconteceu, a verdade é que não a procurei. É isso o fatum, o destino. O fado, em português.

E depois?

Depois? Depois, é estar à altura das situações.

Nunca duvidou das suas capacidades?

Das minhas capacidades, claro que sim. Mas nada disso me importa, não quero mesmo saber. Quanto aos outros, quando os admiro, nunca duvido. Nem por uma vez duvidei do talento ou das criações de Yves Saint Laurent. Numa casa de moda, a luta constante é pela criação. O resultado é a criação. E, porque falamos de dinheiro, no fim, o dinheiro é a criação. A pressão existe na criação, não nos negócios. Podemos ter homens de negócios muito brilhantes, mas se não houver criação, não vai resultar.

É, em simultâneo, um respeito pelo artista e pelo tempo que a criação precisa para encontrar o seu caminho?

São duas coisas. Por um lado, o respeito pela arte e pela criação e, por outro, a confiança - e regresso à sua questão - e a ausência completa de dúvidas sobre o talento e a capacidade de criação de Saint Laurent. Nunca o incomodei com problemas de dinheiro. Nunca lhe disse, "Yves, achas que precisas de facto de fazer um sexto vestido bordado? Já temos cinco. Precisas realmente de fazer um casaco em zibeline [pele de marta]? Fizeste-o há dois anos."

Imagino que essa posição corresponda à ética de que falava, mesmo que não acredite que ela exista nos negócios. Nunca teve medo?

Medo? Não. Porque haveria de me dar medo?

É impossível não imaginar que aos 28 anos...

Não, impossível é não acreditar que a crença em YSL era tão grande que a minha confiança, segurança e convicção absolutas me faziam acreditar no talento, e, mais do que no talento, me faziam acreditar em tudo.

Mesmo que tenha havido momentos duros, pessoal e profissionalmente.

Profissionalmente, não. Em 30 anos, houve apenas uma colecção mal recebida [a colecção de Outono-Inverno 1963-64. YSL dirá que nesse ano "teve maus manequins"]. A minha história, a nossa história, foi sempre coerente. Não fiz desvios dessa história. Talvez outros os encontrem, mas eu não.

É diferente ser-se um homem de negócios de esquerda ou de direita?

Sim, completamente. Um homem de negócios, de esquerda, homossexual, implicado, afirmado e de sucesso. E quanto! Mas atenção, quando o afirmo, faço-o porque, não havendo negócios sem criação, o meu sucesso, e o desta casa, se deve ao maior costureiro do seu tempo, Yves Saint Laurent. Os homens de negócios olhavam-me como um pato num lago de cisnes. Não me podiam compreender. Simplesmente não podem. Mas enfim, eu também não compreendo as vidas deles.

Continua a acreditar que já não existe alta-costura?

Sim, continuo. Não existe. Evidentemente, observo de forma muito atenta e próxima o que se passa chez Saint Laurent e aquilo que faz Hedi Slimane [actual director], mas quanto ao resto não me interessa de modo algum. Comento e critico muitas coisas, porque é um amigo, mas é também um homem de talento que não vai copiar Yves Saint Laurent. É-se fiel a códigos, a uma espécie de ADN, se me é permitido dizê-lo desta forma.

Regressamos à ideia de que a moda não é uma arte, mas precisa de um artista para ser feita.

Vou chocá-lo se lhe disser que penso o mesmo da fotografia. Se todos o podem fazer, não é arte. E, no entanto, é preciso um artista para a fazer. Só alguns fotógrafos o são realmente.

Procura o que possa ser a arte no seu estado mais puro?

[pausa] Talvez não seja isso. Não quero ser inocente. O que quer dizer, realmente, a pureza da arte? Precisamos sempre de desconfiar desses discursos efémeros. Numa das conversas de Goethe com Eckermann [Gespräche mit Goethe, 1836-1848], ele diz: "De todos os meus discípulos, apenas um me compreendeu e mesmo esse compreendeu-me mal."

Esse é o lado negro ou sombrio na beleza da efemeridade. O lastro que deixa é sempre mais importante.

É muito adequada, e muito importante, essa palavra: lastro. Há coisas e pessoas que nunca deixam um lastro. Só os artistas, os verdadeiros artistas, deixam uma marca.

Há artistas que não teriam existido sem a sua presença.

Eu não tenho ilusões. Não deixarei um lastro. Não acredito nisso. A sério que não acredito. Sei bem qual foi o meu papel.

Isso significa também que alguém como YSL não teria tido a possibilidade de se tornar...

Não, não, não! Ele não teria tido a possibilidade de fazer esta casa de costura como fez, mas teria feito outra coisa. Eu sei qual é a minha importância. Ela é considerável, mas não exageremos. Quando se tem o talento de YSL, talvez não tivesse chegado onde chegou, mas teria chegado a outro lado. Seria outra coisa. Como não sei, com quem também não sei. Sei que se eu não tivesse estado lá [ao lado de Yves Saint Laurent], não estaria hoje nesta casa.

Teria sido o quê?

Ah, não sei. Não lhe direi que me teria tornado o escritor no qual não me tornei porque, como me ensinou a Marguerite Duras, se não escrevemos, não devemos dizer que foi por não termos tido tempo. Se não escrevemos, foi porque não o deveríamos ter feito.

Arrepende-se?

Sim, mas não me limita.

E no entanto escreve muito bem. Pelo menos sobre os seus amigos.

Mas escrevo muito melhor sobre aqueles que não o são [risos].

O Christian Boltansky usa uma expressão que creio ser muito feliz, "a pequena memória", quando fala de saber ver a História, o mundo, através do que nos sucede. Mesmo que nada tenha sido previsto, ou desejado, ou até mesmo estratégico, o seu percurso permite observar a grande história, as transformações sociais, políticas e culturais e até filosóficas. Ter, no fundo, capacidade para observar o mundo.

Sim, para mim isso foi sempre importante e, por isso, fiz para a minha vida opções diferentes das de Yves Saint Laurent. Quando dirigi a Ópera de Paris [1988-1994, saiu depois de anos de divergências com o maestro Daniel Barenboim, hoje é presidente honorário], por momentos distanciei-me desta casa, mas não a abandonei. Antes já tinha dirigido o Théâtre de l"Athenée-Louis Jouvet [entre 1977 e 1982, onde produziu, entre outros, Marguerite Duras] e imaginando a sua questão, na época não significava nada. Era só isso, fazer outras coisas. Mas hoje penso que foi para ter uma vida pessoal, uma vida que me pertencesse. Não era uma estratégia, fi-lo simplesmente.

Não se achando como quem deixará um lastro, acharam-no sempre capaz de tudo.

E ainda acreditam. Mas é melhor não lhes retirar essa ilusão [risos].

As amizades que são capazes de resistir às imagens públicas são mais verdadeiras que as outras?

Sim, acredito que sim. Acredito verdadeiramente nisso. Quando dizia que Cocteau era um amigo meu, é verdade, a determinado momento ele deixa de ser Cocteau, é uma personagem, um homem que podemos todos conhecer, mas antes de tudo é um amigo [Bergé é o herdeiro testamentário de Cocteau e responsável pela gestão pública da sua memória]. Mas é importante que saiba, mas talvez seja pretensioso dizê-lo, que não os procurei. Eles chegaram-me. Crêem-me um homem capaz de tudo e descrevem-me como maquiavélico porque fui do círculo íntimo de François Mitterrand, mas não nos tornamos amigos do Presidente da República. Tente e vai ver se consegue. Eu conheci François Mitterrand por acaso, e ele quis ver-me, e depois evitar-me. No primeiro ano da nossa amizade, convidou-me para ir passar o Natal e depois as férias de Agosto. Foi assim que se passou e não sei porquê [Bergé escreveria, mais tarde, Inventaire Mitterrand, 2001 e é, hoje, zelador da memória do antigo Presidente].

Quando esses autores se tornam amigos, consegue ainda ter uma distância sobre o que produzem?

Sim, Mas, hélas, por vezes percebo que não estão ao mesmo nível. Os artistas não são sempre aquilo no qual acreditamos. Quando o poder de um escritor, como Louis-Ferdinand Céline, por quem tenho uma imensa admiração, era o de enviar judeus para o campo de concentração, o poder do artista torna-se perigoso. Desconfio de tudo. Para mim, o poder do artista termina no seu poder de pintar, esculpir ou criar uma instalação. A arte não é feita para esconder a realidade, ou para a substituir, mas para a acompanhar. Procurar misturar a arte com a realidade faz-nos aproximar perigosamente do nacional-socialismo ou da pintura soviética. É preciso deixar que a arte viva a sua própria vida. Uma vida que seja independente de tudo isso, Eu não acredito numa arte bem-sã, que conforte. A arte não existe para confortar, mas para inquietar. Um artista não é forjado para agradar, ele é um anarquista que lança bombas aos pés da sociedade. É isso a arte. Era isso a que se referia Rimbaud [Bergé faz alusão ao poema L"orgie parisienne ou Paris se repeuple, escrito na sequência da revolta da Comuna de Paris, em 1871].

Talvez Rimbaud tenha deixado de escrever porque deixara de ter bombas para lançar.

Talvez. E no entanto era isso que ele defendia. Há um grande desconhecimento e incompreensão da burguesia da arte. Chamo burguesia a uma classe social, usando uma palavra que não é justa, mas é aproximada. Antigamente, os burgueses franceses apreciavam [o pintor e escultor Ernest] Meissonier e [o pintor de paisagens militares Jean Baptiste Édouard] Detaille, e detestavam nomes que hoje apreciam, como Manet e Cézanne. Essa burguesia fez da arte um veículo pessoal de territorialização.

Há uma frase de Proust que era muito cara a Yves Saint Laurent: "Os verdadeiros paraísos são aqueles que perdemos." Identifica-se com isto?

O Proust referia-se não apenas aos paraísos que perdemos individualmente, mas aos que perdemos enquanto comunidade e colectivo. Aqueles que a civilização perdeu. Há algo da ordem do paradisíaco que deixou de existir com o progresso. Hoje, toda a nossa civilização se sustenta no lucro, no poder e no dinheiro. Eu faço parte desse mundo.

Habita o paradoxo.

Precisamente. Habito esse paradoxo. Faço parte e reivindico a minha presença nesse mundo. Mas uma vez que temos um certo poder de ressonância e que aquilo que dizemos produz um certo eco, exijo que me ouçam quando digo que esse sistema se aparenta gravemente à perdição dessa mesma sociedade que diz defender.

Surpreende-se com a sua própria energia?

Surpreendo-me que aos 83 anos ainda tenha alguma energia. Diagnosticaram-me uma miopatia há uns anos, caminho pior e custa-me muito subir escadas. Lamento-o mas que mais posso fazer ? Enquanto a minha cabeça funcionar...

Pensa na morte?

Nunca. Nunca!

Porquê?

Porque não tenho medo. Porque não sou crente. Porque sabemos todos que vamos morrer. Porque não acredito que alguma coisa nos aconteça.

Sou completamente partidário da eutanásia. Espero que possa ir à Suíça a tempo de tomar uma poção que não me deixe preso com um AVC que me tenha atirado para a cama, como a minha mãe que, aos 106 anos queria ser eutanasiada mas que vive amarrada a uma cama. Vão achar vão e pretensioso, e não o queria dizer de forma tão brutal porque não gostava de chocar as pessoas, que têm direito às suas opiniões, mas as preocupações com a morte não tornam ninguém mais importante. Ninguém é importante. Vamos todos desaparecer. Eu sei que vou ser incinerado e que as minhas cinzas serão dispersas no meu jardim em Marraquexe [Jardin de la Majorelle, onde estão também as de Yves Saint Laurent].

Porque é importante decidir isso?

Não é importante. É uma ideia. Era o que gostava que se fizesse. Mas se não se fizer, a partir do momento em que morremos, nada é importante.

Essa relação com o corpo, que o entende como efémero, transitório...

Acredito realmente nisso.

É um epicurista?

Isso é outra coisa. Não me reivindico como tal. O prazer de viver é formidável. Se isso é ser epicurista, então sou-o, profundamente.

Mas como é viver com essa energia sabendo que se tem mais passado do que futuro?

Não lhe vou dizer que me diverte. Vejo as coisas ficarem cada vez mais estreitas. Sabe, eu li muito. E tenho dois filósofos que foram importantes. Um é Kant, uma personagem extraordinária que abriu a porta à filosofia moderna. O outro talvez não conheça: Max Stirner.

Não conheço, de facto.

Eu sei. Max Stirner [1806-1856] era aquilo a que chamávamos um filósofo da esquerda hegeliana. Opôs-se a Hegel e escreveu um único livro, O Único e a Sua Propriedade [Der Einzige und sein Eigentum, 1845], o único sendo você, eu, que desenvolve as virtudes de um individualismo anarquista. Aos 15 anos, quando o descobri, houve uma frase que teve, sobre mim, um efeito que não pode imaginar: "Não há liberdade, apenas homens livres."

Portanto, cada homem, sendo livre, constrói a sua ideia de liberdade?

A liberdade de espírito é a única coisa que não nos pode ser retirada. Podem fazer-nos tudo o que quiserem, mas não se pode impedir um homem de pensar. Mesmo que não possa falar, o homem pode pensar. O individualismo é isso.

O que espera de si mesmo?

Hoje? O que quer que espere? [risos] Nada, não espero nada. Estou contente com a minha vida. Porque hoje, após alguns erros - como votar em Chirac foi um erro -, aproximo-me mais do rapaz que era quando tinha 15 anos. Os mais vis dirão que regresso à infância, mas a verdade é que sou muito feliz no reencontro com o ideal imaginado por um rapaz de 15 anos cheio de ilusões e de utopias que lia Stirner no porto de La Rochelle.

E o que diria ao Pierre dos 15 anos?

Dir-lhe-ia: "As tuas ilusões não as concretizarás, as tuas utopias não as encontrarás, mas que isso não te impeça de as esperar." É como na aviação [Bergé tem o brevet de piloto]. Se cometemos um erro de cálculo da trajectória na descolagem, o nosso caminho será outro. Eu acreditei sempre que era preciso fixarmo-nos num ponto e esperar. Sei que os ventos contrários e os acidentes nos vão tentar afastar dos nossos objectivos. Mas, se desde o início dissermos que não, que vamos esperar, então chegaremos muito longe. O objectivo não é chegar a esse ponto, mas estar o mais perto possível dele. O objectivo é ser exigente. Sem a utopia, não o conseguiremos. E eu acredito na utopia. Há grandes virtudes nas utopias que foram sendo abandonadas. Sem ideias, sem utopias, não fazemos avançar as coisas. Por isso as minhas palavras só podem ser: "Viva a utopia!"