O "pai fundador" está destroçado, mas ainda tem tudo para dar à Síria

Tem 47 anos e está cansado. Não. Está destroçado. Só que vai aguentar. Ammar Abdulhamid é um dos mais importantes dissidentes sírios e isso agora quer dizer menos do que quando ele se tornou um dos mais importantes dissidentes sírios. Agora, há muitos dissidentes, tantos que por mais que morram ou desistam, por mais que este período de autodestruição acelerada se prolongue, haverá sempre gente suficiente no fim do caminho para começar de novo. Em 2001 não era assim.

Ammar é sírio, é marido, é filho e pai. Filho único de Muna Wassef, a mais conhecida actriz da Síria e em tempos a mais bem paga do mundo árabe, e de Muhammad Shahin, realizador. Os pais de Ammar foram um "casal celebridade". O pai já morreu, a mãe está em Damasco. "A minha mãe diz "o meu país está doente e eu não o posso deixar"", e então Ammar não vê a mãe desde 2005, ano em que foi obrigado a deixar o seu país e se fez exilado nos Estados Unidos. Ammar é casado com Khawla e é pai de Oula, a filha de 27 anos, e Mouhanad, o filho de 23. Os quatro vivem em Washington mas no último ano passaram mais tempo no Sul da Turquia do que nos EUA. "A minha mulher não sai daqui há seis meses", disse-nos Ammar, no hotel de Gaziantep onde encontrámos o casal e a filha, Oula, os pais a treinarem activistas que vêm da Síria para isso e a filha a filmar um documentário com crianças refugiadas que a vida obriga a trabalhar - alguns miúdos com seis, oito anos, como o que conhecemos, vinha jantar com eles, no dia seguinte a família voava para Washington.

Ammar diz-se um "verdadeiro liberal", independente e agnóstico, "autista" (uma descoberta recente "que explica tanta coisa"), apaixonado por ficção científica ("está lá tudo, é por isso que eu percebo o mundo como o percebo"). Cresceu a ouvir: "Ammar, tens de te dedicar a qualquer coisa", e ele lá o fez, sabendo antes dos outros que quando o fizesse seria de uma forma obsessiva e potencialmente autodestrutiva. Demorou, mas aconteceu. Apareceu Khawla, os dois lançaram a editora DarEmar, vieram os filhos e depois nasceu o Projecto Tharwa, em 2001, na Síria; dois anos depois, a Fundação Tharwa, uma "comunidade" que quer "construir um diálogo entre comunidades maioritárias e minoritárias na região do grande Médio Oriente e Norte de África" na "expectativa de ajudar à criação de novas pontes de confiança e entendimento intercomunitário". Isto antes do 11 de Setembro, sim, e do Grande Médio Oriente de Condoleezza Rice.

Ammar teve de deixar a Síria e começar de novo nos EUA, onde já tinha estudado, Astronomia e História. Foi o primeiro sírio a testemunhar no Congresso sobre a ditadura síria, foi ouvido por presidentes e fotografado ao lado de George W. Bush. Durante vários anos, a sua fundação e os seus projectos receberam financiamento de think tanks norte-americanos ligados ao Partido Republicano. É sempre um outsider - "acusavam-me de ser demasiado próximo da Administração Bush, como se não fosse óbvio que eu tinha de falar com quem quer que estivesse no poder"; "não entendem que não seja comunista, nacionalista, socialista", qualquer coisa acabada em "ista"; agora, é um renegado nos EUA também, crítico demolidor do Presidente Obama e da sua gestão da "crise síria".

Em Maio de 2005, a revista Newsweek escolhe Ammar como uma das 43 pessoas que faziam a diferença no mundo árabe. Nesse ano, Ammar escreve vários textos que são planos para "a revolução de jasmim" que sabia estar para vir. Antes, ainda na Síria, é um dos 219 sírios (em nove milhões, o voto não é secreto na Síria, não senhor) a votar "não" no último referendo à presidência de Hafez al-Assad, pai de Bashar, líder incontestado até à morte, em 2000. Ainda na Síria, dá uma entrevista a um jornal israelita - nunca um sírio a viver na Síria o fizera. Antes das fundações e da editora que queria "mudar o Médio Oriente, um livro de cada vez", faz um retiro para decorar o Corãoe oHadith(ditos e acções de Maomé) e chega a ser imã em Los Angeles. Depois, deixou-se de religiões.

Em 2009, é publicado nos EUA um livro com um capítulo dedicado a Ammar (também a Khawla e às actividades da Tharwa): o livro, do académico Joshua Muravchik, chama-se The Next Founders - um pai fundador por cada país do Médio Oriente, Ammar é o sírio.

Ammar está cansado. Quase não o reconhecemos quando veio ao nosso encontro no bar do magnífico hotel Sirehan de Gaziantep. Foi-se abaixo, várias vezes desde o início da revolução, em Março de 2011, teve uns dentes descaídos e demorou muito a decidir tratar disso e nota-se no rosto. Foi coisa de um segundo, o cabelo menos penteado do que nos habituáramos a ver na televisão, aspecto descuidado; quando começámos a falar ali estava Ammar, o irredutível que entrevistámos pela primeira vez, quase por acaso, em 2004, na altura a propósito da "vitimização dos árabes" da obra Considerações sobre a Desgraça Árabe de Samir Kassir, libanês muito crítico de Assad assassinado em 2005, em Beirute. Quase falido, Ammar sobrevive, a tentar aguentar-se, como todos os sírios que recusam desistir da Síria. Vai ter de ser, um dia de cada vez. S.L.