"Bashar é um canibal refinado, como Hannibal Lecter"

Ammar Abdulhamid é um dissidente sírio, a viver longe de Damasco desde 2005. Diz que ninguém antecipou o nível de violência da resposta do regime, e explica que "o primeiro erro foi pensar que Bashar não ia ser capaz".

O dissidente e activista dos direitos humanos Ammar Abdulhamid não pisa Damasco, a sua cidade, desde 2005, quando teve de fugir do regime de Bashar al-Assad, mas nem por isso vive com menos intensidade uma revolução cuja porta ajudou a abrir. Aos 47 anos sabe que a Síria não vai renascer das cinzas num dia nem num ano. É por isso que gostava de se ocupar das crianças, do ensino de todos os miúdos refugiados, queria que os Estados Unidos ou alguma organização internacional financiasse um grande projecto para dar uma hipótese de futuro aos sírios - há mais de um milhão de crianças refugiadas - e assim à Síria. Entretanto, ele e a mulher, Khawla, com quem iniciou vários projectos nos últimos 14 anos, vão treinando activistas que vêm da Síria para os seus workshops em Gaziantep, a cidade do Sul da Turquia onde esta conversa aconteceu, em Outubro.

No que é que consiste a formação que oferecem aos sírios agora?

Treinamos activistas, é isso que fazemos, focamo-nos principalmente em peacebuilding, ferramentas de mediação e de negociação, resolução de conflito, em pequena escala - a grande escala está para lá do nosso controlo. Há alguns sucessos, tem sido um bom programa até agora. O problema é que o desenvolvimento à escala global destrói o nosso trabalho, cada decisão ou falta de decisão dos líderes mundiais, especialmente do Presidente Barack Obama, mina cada progresso que tenhamos feito até esse momento.

Mas a ideia é que o que estão a fazer sobreviva para lá disso, desta fase, que valha independentemente disso.

Espero que sim, espero que sim. Estou sempre a recordar-me de uma coisa para me aguentar, para continuar a acreditar. Há muito tempo dissemos que ia haver uma revolução e riram-se: "O quê? Os sírios a revoltarem-se? Nem pensar." Algumas das pessoas que nós treinámos, algumas das coisas que dissemos, enfim, foram seguidas, mesmo a uma escala menor, mesmo que seja 1%, nós contribuímos. Um dia, nós, os sírios, vamos encontrar uma forma de voltar a colar as peças. Não num ano ou dois, as nações não se reconstroem assim, sabemos que é trabalho para uma geração. Mas pelo menos agora cada vez mais pessoas começam a compreender isso.

No início da revolução essa já era a minha mensagem. Não antecipem, não apressem, não pensem que vai ser uma vitória rápida. Na verdade, eu queria uma data diferente para a revolução, as condições geopolíticas não ajudavam, e a oposição não estava preparada, esse era o problema. Os sírios estavam prontos há muito tempo, a oposição não. Preferia que tivéssemos sido mais pacientes, que tivéssemos desenvolvido uma estratégia de longo prazo, que antecipasse o que poderia acontecer.

Ninguém antecipou o nível de violência da resposta do regime. O primeiro erro foi pensar que Bashar [al-Assad] não ia ser capaz. Tinha acontecido a Tunísia, o Egipto, a Líbia, os sírios ficaram esperançados e acreditaram, o Presidente Obama dissera que não ia deixar um ditador matar o seu povo, matar os sonhos de democracia e de futuro. Eu sabia que os políticos da oposição tinham muitos problemas, mas não antecipei que fossem tão problemáticos como vieram a ser, tão sectários, tão fanáticos.

Por que é que isso aconteceu?

Problemas identitários. A ideologia, demasiados egos e demasiada ideologia, muito pouca capacidade de construir entendimentos, de construir seja o que for. Há resistência a toda a gente que saiba construir, que possa desenhar o futuro. Por isso é que a nossa estratégia foi construir raízes, construir algo de novo, temos de olhar para a nova geração e trabalhar a partir daí.

É como se os bons não chegassem nunca aos cargos de liderança na oposição. E quando chegam, desistem logo a seguir.

Sim, há uma parte disso que é normal. As revoluções não chamam necessariamente pelos melhores, costumam mesmo fazer brilhar os piores. Tenho estado a olhar para uns textos, foi o meu filho que os imprimiu e os encadernou, é um livrinho. Há muita coisa de facto que eu trouxe ao debate há muitos anos e é ridículo que algumas batalhas se estejam a travar agora. Enfim, sobre isso insisto apenas que as revoluções sublinham o pior, mas não acontecem por acaso. São necessárias, destroem o impasse político e social e isso é fundamental. Esta revolução é necessária, com todas as mortes, o futuro não poderia acontecer sem ela.

Agora, de um lado e do outro temos ideologia, às vezes diz-se de esquerda, mas na verdade o que temos são fascistas. E apesar de fascistas isto não deixa de ser uma guerra religiosa, forçada, fabricada ou não, é uma guerra de religião, que se trava segundo códigos religiosos. Às vezes, e cada vez mais agora, é uma guerra entre sunitas e xiitas. Mas mesmo os que se apresentam como seculares, como defensores da secularidade e de uma ideologia moderna, não o são. É um embrulho moderno mas as mentes e os corações estão impregnados com algo que aconteceu há 1400 anos. Acontece o mesmo com o suicídio, com o extremismo, a Al-Qaeda, o que se quiser, o problema é que é tão visível, a realidade é que é um problema maior do que a Síria.

O resto do mundo também diz isso. Mas terá já percebido o que isso quer dizer?

É muito estranho, mais 200 mil mortos, o recurso a armas químicas, centenas de milhares de presos, milhões de refugiados, e o que prende a atenção do mundo é um idiota a comer o coração de um homem. Sim, é sensacional, mas é um louco, é um tipo que se passou, é uma pessoa, um idiota, que viu pessoas a morrer. E no que é que ele é diferente de Bashar al-Assad? Eu acho que o que Bashar faz é como comer o coração do inimigo só que ele o faz como Hannibal Lecter [personagem do filme O Silêncio dos Inocentes], é um canibal refinado, arranca o coração e cozinha-o, antes de o comer.

E a propaganda do regime, esperava que fosse tão eficaz?

É uma máquina de propaganda impressionante porque não é síria. É russa e iraniana, é fascista. Agora, percebemos contra o que estamos a lidar.

Acredita na teoria recente de que os ataques químicos foram orquestrados por parte do regime com o objectivo de forçar a queda de Assad e salvar o regime sem ele, à egípcia? Depois, viriam as negociações e a conferência de Genebra, já este mês.

Não, não acredito. Os russos e os iranianos ainda precisam de Bashar, para já precisam dele, ele não é genial, mas cumpre o seu papel, serve muito bem os seus interesses. Quando já não precisarem dele deixam-no cair, mas esse momento ainda não chegou.

A revolução ainda existe, em paralelo com esta guerra total. Alguma coisa de bem se fez.

Sim, dentro da Síria nós próprios chegámos a fazer coisas que fizeram a diferença. Tivemos um programa de televisão que defendia valores democráticos. As condições geopolíticas e a falta de capacidades da oposição são muito problemáticas, mas isso não quer dizer que muitos sírios isolados não tenham lançado projectos válidos e não estejam a desenvolver um trabalho meritório. A revolução aconteceu porque estava lá, tinha de sair para fora, envolveu muitas pessoas que durante muito tempo foram a base de apoio do regime e isso fez da revolução imparável. Nós esperávamos Damasco, esperávamos Hama, não esperávamos Deraa [a cidade do Sul onde aconteceu a primeira manifestação de grande dimensão, em Março de 2011].

O que é que gostava de poder fazer agora?

Queria ajudar a lançar uma grande fundação de ensino, um projecto megalómano de ensino aos refugiados. Não pode ser um projecto libanês, jordano, turco. Tem de ser um projecto independente, podia ser financiado pelos Estados Unidos, pela ONU, mas tinha de garantir que se conseguia chegar a todas as crianças refugiadas com um ensino não sectário, aberto, de qualidade.

Tínhamos de chegar a um consenso sobre os programas e ensinar, ensinar, ensinar. Se perdermos estas crianças todas vai ser muito mais difícil. E não é só para a Síria, as consequências disso vão-se sentir nos países onde os refugiados estão e nos países para onde eles acabarão por ir, como os europeus. Se conseguíssemos fazer isso já era muito bom. Nós não vamos desistir, isso não é uma possibilidade.