Para Éric Baudelaire e Masao Adachi, Beirute esqueceu as suas lágrimas

The Ugly One aprofunda o questionamento sobre a memória
Foto
The Ugly One aprofunda o questionamento sobre a memória dr

O trabalho do franco- -americano Éric Baudelaire regressa ao DocLisboa. The Ugly One questiona se a revolução ainda é possível

Um dos grandes acontecimentos do DocLisboa 2012 foi a descoberta de um cineasta: Éric Baudelaire, artista multimédia franco-americano que assinava um objecto desafiador e tocante sobre o reverso do activismo político. Chamava-se The Anabasis of May and Fusako Shigenobu, Masao Adachi and 27 Years Without Images, era um documentário conceptual acompanhando os percursos de Masao Adachi, cineasta que abandonou o cinema para se tornar porta-voz do grupo terrorista Exército Vermelho Japonês, e de May Shigenobu, filha da líder do grupo, que crescera em fuga e na clandestinidade.

Um ano depois, o DocLisboa confirma que aquele filme não fora um fogacho: a primeira ficção de Éric Baudelaire, The Ugly One (City Alvalade, amanhã às 21h15), prolonga e aprofunda o questionamento sobre a memória e o engajamento que estava presente naquele documentário. Reencontramos Beirute, que o Exército Vermelho Japonês usou como base nos anos 1970, e a voz de Masao Adachi, mas desta vez enquadrando uma narrativa ficcional, que encena a tentativa de seis antigos activistas palestinianos confrontarem memórias e convicções com o tempo que passou e a sociedade que mudou. A não ser que seja a história dos actores que os encarnam, improvisando e ensaiando percursos possíveis para as suas personagens.

Na verdade, The Ugly One é uma experiência narrativa e formal que persegue as mesmas coordenadas de The Anabasis of May and Fusako Shigenobu...: é um filme que se constrói enquanto se desenrola, como um documentário que registaria em tempo real a criação de uma narrativa que ganha espessura à nossa frente. Em voz off, Masao Adachi conta uma história que Éric Baudelaire filma em Beirute e trabalha a seu gosto; é uma estratégia que remete directamente para as experiências abstractas do nouveau roman francês, com um forte aroma do Último Ano em Marienbad de Alain Resnais e Alain Robbe-Grillet no modo como tudo se transforma num quebra-cabeças misterioso onde cada porta que se abre questiona mais do que responde. Mas em nenhum momento do filme Éric Baudelaire perde o fio ao que procura perguntar: a revolução ainda é possível, o activismo ainda faz sentido, até onde é que se pode levar o idealismo sem o arrependimento se instalar? É um fecho em ouro para o Doc 2013.