Pela primeira vez, Washington ouviu o que têm a dizer as vítimas dos drones

Filho e netos de mulher morta em 2012 na região tribal paquistanesa foram ao Congresso americano falar do sofrimento que os ataques lançados pela CIA contra a Al-Qaeda estão a causar

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Nabila mostrou aos congressistas o desenho em que recorda o dia em que ficou ferida e perdeu a avó"Não foi um militante [que morreu], foi a minha mãe", disse Rafiq JASON REED/REUTERS

O céu estava "particularmente azul" naquela tarde de 24 de Agosto de 2012 em Tappi, na região paquistanesa do Waziristão do Norte. Mammana Bibi, parteira da aldeia, colhia legumes no quintal, rodeada pelos netos. No dia seguinte começava o Id al-Adha, a festa do fim da peregrinação a Meca, e a família preparava-se para as celebrações. Sem aviso, um míssil atingiu o quintal - o corpo de Mammana ficou desfeito, dois netos ficaram feridos. Um ano depois, os dois sobreviventes, acompanhados pelo pai, foram ao Congresso norte-americano pedir o fim dos ataques com drones, os aviões não-tripulados que se tornaram a principal arma dos Estados Unidos contra a Al-Qaeda.

A audição de terça-feira foi a primeira oportunidade dada às vítimas de mostrarem à opinião pública americana que há rostos por trás das estatísticas, que há sofrimento escondido nos comunicados em que se anuncia a morte de um comandante taliban ou de um operacional da Al-Qaeda. O Waziristão do Norte, região tribal junto à fronteira com o Afeganistão, é um terreno fértil para os extremistas islâmicos e, por isso, um alvo preferencial dos drones - aconteceram ali mais ataques do que em qualquer outra região do Paquistão.

"Enquanto ajudava a minha avó, podia ver e ouvir os drones lá em cima, mas não me preocupei. Por que me havia de preocupar? Nem eu nem a minha avó éramos militantes", contou Zubair, agora com 13 anos, recordando os momentos antes das explosões que lhe cravaram estilhaços na perna. A irmã Nabila, de nove anos, completou a reconstituição: "Ficou tudo negro e não conseguia ver nada, mas ouvi um grito. Não sei se foi a minha avó, porque não a conseguia ver". "Fiquei muito assustada e comecei a correr, mas senti qualquer coisa na mão e quando olhei vi que tinha sangue. Tentei estancá-lo, mas continuava a correr", recordou, antes de mostrar um desenho a lápis em que recorda o ataque.

Os dois irmãos foram levados para o hospital e foi ali que o pai, Rafiq ur Rehman, os encontrou depois de, no regresso a casa, ter descoberto que a família fora bombardeada e o que restava do corpo da mãe tinha já sido sepultado. "Nunca ninguém me explicou por que é que a minha mãe foi atacada. Alguns jornais disseram que o ataque tinha sido contra um carro, mas não há estrada junto à casa da minha mãe. Outros disseram que o ataque foi contra uma casa, mas os mísseis atingiram um campo. Também escreveram que foram mortos quatro, cinco militantes. Mas uma única pessoa morreu - foi Mammana Bibi, avó e parteira da aldeia, que se preparava para celebrar o Id. Não foi um militante, foi a minha mãe".

Secretismo

O lamento de Rafiq, um professor nascido numa família de professores, reforça as denúncias das organizações de direitos humanos que esbarram no secretismo do programa que a CIA opera no Paquistão desde 2004. Os serviços secretos, o Pentágono e a Casa Branca não divulgam estatísticas sobre a operação - entretanto alargada ao Iémen e à Somália - e recusam comentar a morte de civis.

"O secretismo que rodeia o programa dá à Administração americana uma licença para matar", acusou a Amnistia Internacional num relatório divulgado na semana passada. A organização investigou nove dos 45 ataques lançados desde Janeiro de 2012 no Waziristão e concluiu que vários podem configurar "crimes de guerra ou execuções extrajudiciais". O ataque que matou Bibi é um deles.

À falta de estatísticas oficiais, há várias tentativas de fazer um balanço sobre o número de civis mortos nos ataques, lançados a partir de salas de controlo a milhares de quilómetros de distância. Uma investigação recente das Nações Unidas calcula que pelo menos 400 civis foram mortos desde o início da operação, mas o London"s Bureau of Investigation, que há vários anos monitoriza os ataques, diz que os drones mataram entre 308 a 789 inocentes desde 2008 - de um total de mortos que andará entre os 2300 e os 3400. O Paquistão, que depois do aval inicial tem exigido vezes sem conta o fim dos ataques (ainda que seja acusado de os apoiar em segredo), entregou ontem um relatório aos Senado americano em que diz que os "317" bombardeamentos lançados pelos EUA nos últimos seis anos mataram 67 civis e 2160 militantes.

Num discurso em Maio, o Presidente Barack Obama insistiu que as operações da CIA são essenciais no combate à Al-Qaeda - desde a sua chegada à Casa Branca, em 2008, o número de ataques no Paquistão disparou. Mas revelou que estavam já em vigor novas regras para responder às denúncias: os drones só interviriam em caso de "ameaça iminente", quando não houvesse condições para efectuar a captura dos suspeitos e não existisse "outro país em condições de responder à ameaça", e sempre na condição de haver "certeza quase absoluta" de que não havia risco para os civis.

Mas um relatório da Human Rights Watch sobre as operações da CIA no Iémen, divulgado em simultâneo com o da Amnistia, concluiu que as acções da CIA não respeitam as novas regras e alega que vários dos ataques que investigou violam o direito internacional (por terem visado apenas civis) ou as leis da guerra (foram atacados alvos ilegítimos ou usada força desproporcionada).

Alan Grayson, o congressista democrata que convidou a família Rehman a Washington e é um acérrimo opositor das guerras lançadas pelos EUA, apresentou a morte de Mammana como uma prova de que Washington deve pôr fim aos ataques com drones. "Invadir o céu de um país não é diferente de invadir o terreno", disse na audição de terça-feira. Um apelo que dificilmente terá eco no Congresso. Um sinal disso é que os outros quatro congressistas que se sentaram na sala a ouvir o depoimento da Rafiq e dos filhos se limitaram a pedir mais transparência da Administração e a sugerir que os EUA indemnizem as vítimas dos ataques.

Rafiq não perdeu, no entanto, a oportunidade de deixar um apelo: "Peço aos americanos que nos tratem como iguais e se assegurem que o seu Governo nos reconhece os mesmos direitos humanos que garante aos seus cidadãos. Não matamos o nosso gado como os EUA estão a matar seres humanos no Waziristão."

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