Expulsão de históricos do PSD nas mãos do Conselho de Jurisdição

Miguel Veiga espera pela sanção, mas vai dizendo que os responsáveis pelo "péssimo resultado do PSD deveriam ter-se demitido". Já Rui Rio e Paulo Rangel escapam ao escrutínio da jurisdição do partido

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O fundador do PSD Miguel Veiga foi um dos mais destacados apoiantes de Rui Moreira NFACTOS/FERNANDO VELUDO

Militantes históricos do PSD como Valente de Oliveira, Miguel Veiga, António Capucho ou Arlindo Cunha podem deixar por estes dias de fazer parte do partido ao qual sempre pertenceram e até ajudaram a fundar se o Conselho de Jurisdição Nacional (CJN) concluir que violaram os estatutos ao terem apoiado ou participado em candidaturas opositoras às do partido.

Os nomes do ex-presidente da Câmara do Porto Rui Rio, que muitos militantes e dirigentes do PSD acusam de ter patrocinado a candidatura de Rui Moreira, e do eurodeputado Paulo Rangel, que é acusado de ter escrito um artigo a defender a polémica Lei de Limitação de Mandatos, não constam da lista que foi enviada aos órgãos do partido - Comissão Política Nacional e Conselho de Jurisdição Nacional - por Luís Artur, do PSD-Porto, uma semana depois das eleições autárquicas.

"Relativamente a Rui Rio e a Paulo Rangel há uma censura política a fazer, mas do ponto de vista jurisdicional não é possível abrir um processo contra eles, mas se alguém entender que sim que o faça", afirma Luís Artur, frisando que "jurisdicionalmente não se julgam coisas implícitas". "Não se trata de uma caça às bruxas e nem estive a olhar para os nomes que coloquei na lista até porque não há militantes de primeira nem militantes de segunda", declara o recém-eleito deputado municipal.

Em declarações ao PÚBLICO, o advogado portuense Miguel Veiga, fundador do PSD, não evidencia qualquer tipo de preocupação por uma eventual participação por ter apoiado publicamente a candidatura independente do agora presidente da Câmara do Porto Rui Moreira.

"A mim tanto se me faz como se me fez, vamos ver como isto se processa e espero ser ouvido", afirma Miguel Veiga, sublinhando que "se houvesse o mínimo de vergonha, aqueles que foram responsáveis pelos péssimos resultados que o PSD teve tinham-se demitido, deviam reconhecer a sua inépcia, para além de outras faltas de qualidade".

Cáustico é também António Capucho, que acusa o partido de "incompetência política" pela derrota eleitoral. O antigo presidente da Câmara de Cascais, que há dois anos pediu a suspensão de militante, embora reconheça que é uma figura que não existe nos estatutos do partido, fala de "desastre eleitoral do PSD a nível concelhio, distrital e nacional" e diz que "os que tiveram responsabilidades deviam ter-se demitido".

A performance neoliberal

Cabeça de lista à Assembleia Municipal de Sintra pela candidatura independente de Marco Almeida e membro da Comissão de Honra de Rui Moreira, o antigo autarca de Cascais entende que o "PSD teria tido resultados fantásticos se tivesse apoiado os candidatos naturais", mas, em vez disso, diz, "preferiu impor candidatos e perdeu por facciosismo dos órgãos competentes". Capucho não poupa o agora ministro do Ambiente e ex-coordenador permanente do PSD, Jorge Moreira da Silva, por ter "pactuado com toda esta fantochada".

Quanto à eventual sanção do partido não se mostra preocupado e promete reagir. A finalizar, lamenta que o "PSD tenha perdido a sua matriz social-democrata" e diz que "com esta performance neoliberal, o partido perdeu também a sua espontaneidade".

O antigo presidente do CJN Amorim Pereira, número dois na lista de Luís Filipe Menezes, considera que "as pessoas que estiveram envolvidas em listas adversárias às do partido deveriam ter a hombridade de sair". E diz que o "procedimento não podia deixar de ser ao nível dos órgãos máximos do partido. Se é purga ou não, não sei porque não tenho conhecimento claro dos casos que estão a ser analisados pelo Conselho de Jurisdição Nacional".

Para Amorim Pereira, "seria muito pior que se virasse a cara para o lado e se fizesse de conta que nada aconteceu". "Isso - argumenta - seria o princípio da descredibilização do partido enquanto aglomeração e pessoas ligadas a determinados princípios". E conclui: "O partido não pode demitir-se de apreciar os casos que são levados ao seu conhecimento e de aplicar os estatutos. Não é bom que o partido passe para a opinião pública a ideia de que reina a indisciplina e a libertinagem".