A crise na Grécia vista pelos pastores das montanhas

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A grega Christina Koutsospyrou e o britânico Aran Hughes

Hoje no DocLisboa, To the Wolf: o olhar de Christina Koutsospyrou e de Aran Hughes sobre um modo de vida em vias de extinção

"No Norte da Europa, parecem achar que a Grécia é uma estância de veraneio e não lhes passa pela cabeça que possam existir sítios onde ainda existe um modo de vida arcaico como este. Mas existe..."

Christina Koutsospyrou fala da vida difícil nas montanhas da Grécia rural, um modo de vida que a artista e realizadora grega captou, com o seu co-realizador, o britânico Aran Hughes, em To the Wolf. É um dos títulos mais desafiadores do concurso internacional do festival DocLisboa, onde volta a ser exibido hoje (City Alvalade, 21h15); porque não é um documentário tradicional, mas sim uma obra na fronteira entre o cinema documental e a ficção narrativa. "Não inventámos nada", explica ao PÚBLICO Koutsospyrou, de 33 anos, num dos sofás da Culturgest. "Não decidimos nem dirigimos nada, nada veio de nós", completa Hughes, de 30 anos, que veio com a sua parceira apresentar o filme a Lisboa.

Rodado ao longo de dois anos numa aldeia das montanhas Nafpaktia, To the Wolf acompanha duas famílias de pastores que enfrentam dificuldades para sobreviver do modo que sempre conheceram. O filme começou vida como um documentário mais tradicional, "sobre um modo de vida em vias de extinção", como explica Hughes. "Achámos que, se não filmássemos naquela altura, mais tarde já não o poderíamos filmar." A opção por esta aldeia, por estas pessoas, veio através de Christina Koutsospyrou, cujo pai nasceu lá: "Há um café mesmo em frente da casa do meu pai. Passámos lá uma semana de férias, e nessa altura não tínhamos sequer na cabeça fazer um filme." "A ideia original era pegar numa câmara e ir filmar esta gente no café", explica Hughes. "Mas, quanto mais filmávamos, mais interessados ficávamos..."

É inevitável ver To the Wolf como uma alegoria da crise económica que atingiu a Grécia de modo particularmente duro - Aran diz a rir que "hoje as pessoas vêem tudo como uma alegoria da crise". "Não foi isso que nos motivou originalmente. Começámos a filmar em 2010 e a crise ainda não era o que chegaria a ser, foi algo que ganhou peso ao longo dos dois anos seguintes. Foi mais durante a montagem que isso se começou a infiltrar."

Mas a dupla não tem problemas com a leitura do filme como alegórica, como explica Christina. "A nossa intenção sempre foi olhar para estas pessoas como gente. E sentimos que, à medida que o tempo passava, eles se foram tornando em pessoas diferentes, com a pressão psicológica, o stress que iam recebendo da televisão ou da rádio. Eles mudaram muito naqueles dois anos." "Era uma diferença muito mais visível no estado psicológico," completa Aran. "Financeiramente, obviamente que as coisas se tornaram mais difíceis, mas a política passou a influenciar muito o modo como eles pensavam nas coisas."

Apesar de tudo, pelo meio das dificuldades, o sentido de humor absurdista, seco, desconfortável, que aprendemos a identificar com o novo cinema grego que tem feito furor nos festivais, está constantemente presente, no modo como toda a gente no filme fala. "Bem-vindo à Grécia", diz Christina a rir. "É praticamente a única coisa que permite tornar uma vida difícil mais tolerável." "E quanto piores estiverem as coisas mais piadas eles fazem", diz Aran. Mas qualquer semelhança com os filmes dessa "nova vaga" grega é pura coincidência. As referências estão mais do lado de cineastas mais estabelecidos, como Theo Angelopoulos ou Béla Tarr - ou, nas palavras da dupla, do cinema iraniano, "uma grande inspiração". "O modo como eles usam a realidade é muito importante, sentem-se muito confortáveis a usá-la como ponto de partida para outras coisas." E é daí que vem a dimensão "orgânica" de To the Wolf, como explica Aran Hughes. "Limitámo-nos a filmar e depois usámos as técnicas e as linguagens do cinema de ficção durante a montagem. Como se o papel do cineasta fosse pegar na verdade e trabalhá-la para chegar ao âmago daquele local e daquela gente."

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