Alunos de Beja em protesto contra a falta de apoio a estudante surdo

Mãe revoltada com a “insensibilidade” do Ministério da Educação mobilizou sozinha a comunidade escolar que rapidamente barrou os acessos à secundária Diogo de Gouveia.

Ministério disponibilizou uma intérprete para dois alunos que estão em escolas diferentes
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Ministério disponibilizou uma intérprete para dois alunos que estão em escolas diferentes Paulo Pimenta

Num espaço de horas, Ilda Santos, mãe de João Martins, aluno surdo de 15 anos que frequenta o 10.º ano da Escola Secundária Diogo de Gouveia, em Beja, mobilizou os alunos daquele estabelecimento de ensino para uma acção de protesto que decorreu nesta terça-feira contra a escassez de intérpretes gestuais nas escolas da cidade.

A reacção dos estudantes foi imediata e expressiva. A anteceder a primeira aula da manhã um grupo de alunos colocou-se à entrada da escola, ao lado de Ilda Santos para sensibilizar os que iam chegando. Sem hesitações, os jovens aderiam ao protesto e uma mole humana barrou totalmente a entrada da Diogo de Gouveia. Vários agentes da PSP postaram-se nas proximidades, mas não se registaram quaisquer incidentes que justificassem a sua intervenção, aliás marcada pela descrição.

"A malta não estava ali para armar confusão", disse Tiago Fernandes, um dos jovens que participou no protesto. "Ameaçaram bater com a nossa cabeça no portão", acrescentou, referindo-se a um episódio, que o PÚBLICO observou, que envolveu alguns funcionários da escola. Foi um momento de tensão que Ilda Santos acabou por sanar.

“Ninguém vai às aulas enquanto os nossos colegas [com necessidades especiais] não tiverem o apoio de que necessitam” gritavam os alunos.

Mariana Parreira que foi colega de João Martins noutro estabelecimento de ensino justificou o seu gesto solidário “porque estes problemas tocam-nos profundamente”. E contou como tem sido difícil ao amigo integrar-se na escola.

“O João só à segunda semana de aulas é que percebeu onde era a casa de banho na escola. Chegava a casa sempre aflito”, conta a mãe. Ilda Santos incentivava-o a pedir apoio aos colegas. "Achas que eles me percebem?" reagia o jovem, explicando que ninguém sabe que o toque no nariz que na língua gestual significa urinar.  “Pensavam que ele tinha comichão no nariz”, explica a mãe.

Técnico a três quilómetros de distância
A ideia do protesto frente à escola que o filho frequenta surgiu-lhe na sequência da resposta que recebeu dos serviços do Ministério da Educação na última sexta-feira. “Ao meu apelo para que fosse colocado mais um intérprete de língua gestual, disseram-me que o rácio é de um técnico para seis alunos com necessidades especiais” referindo que em Beja havia uma intérprete para dois alunos.

Só que, como explicou Ilda Santos ao PÚBLICO, o apoio é partilhado com um aluno surdo que frequenta o 8.º ano noutra escola, distanciada quase três quilómetros da secundária Diogo de Gouveia. A mãe deste aluno, Maria Emídia Colaço, queixa-se, por sua vez, que o filho não é acompanhado nas aulas de História, Geografia, Física e Química. "Enquanto os outros alunos acompanham as explicações dos professores, o meu filho olha para as paredes, pois não percebe nada”.

Das 32 horas de aulas que o filho de Ilda Santos tem por semana, só conta com a presença da intérprete de língua gestual durante 15 horas.

Revoltada com a insensibilidade demonstrada por responsáveis da tutela, esta mãe fez-se acompanhar para uma reunião na Direcção Regional de Educação do Alentejo, em Évora, do filho e da intérprete e foi esta que procurou explicar à funcionária que a recebeu, através dos movimentos das mãos, o que pretendia. “Mas eu não percebo nada” reagiu a interlocutora. “É precisamente esse tipo de resposta que o meu filho me dá quando chega a casa depois das aulas. Não percebe nada do que lá é dito”, conta a mãe.

O protesto dos alunos não foi em vão. Uma hora depois, Ilda Santos foi informada para se deslocar a Évora aos serviços da direcção regional para uma reunião, ainda esta tarde, com um dos seus responsáveis, que se comprometeu a reanalisar o problema.

A concentração dos alunos foi desmobilizada e estes regressaram às aulas com a promessa de voltarem ao protesto se o ministério não enviar mais um intérprete de língua gestual portuguesa como tinha sido “atempadamente” pedido pelos responsáveis do Agrupamento de Escolas nº1 de Beja.

Notícia corrigida às 22h52: a expressão "surdo-mudo" foi substituída pela expressão "surdo".