Nuno Crato usou Matemática para abrir guerra pública com os Politécnicos

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O ministro fez a revelação nas jornadas parlamentares conjuntas do PSD e do CDS-PP ENRIC VIVES-RUBIO

Justificação da exigência na preparação a Matemática e a Português dos candidatos aos cursos de Educação Básica não convence representantes do ensino superior, das associações e sindicatos de professores

O ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato, anunciou ontem que vai tornar obrigatório que os exames de Matemática e de Português do 12.º ano sejam as provas de ingresso na licenciatura em Educação Básica. Uma novidade que marcou o noticiário do dia no sector da Educação, mas que não apanhou de surpresa os representantes dos institutos superiores politécnicos que, aliás, já tinham manifestado o seu parecer negativo e a sua "incompreensão" face à intenção do ministro.

Hoje - e até 2015/2016 - um estudante que queira candidatar-se ao curso de Educação Básica na Escola Superior de Educação de Coimbra, por exemplo, tem como prova de ingressos a de Português, a de Matemática, a de História ou a de Geografia. Isto significa que a nota que obtiver no exame nacional a uma destas disciplinas valerá 50% da nota de candidatura àquele curso (a nota interna do secundário vale os outros 50%).

O ministro anunciou, ontem, "uma primeira versão do decreto" que determina algo de diferente - que, no futuro, haverá necessariamente duas provas de ingresso, o par Matemática e Português. Ou, pelo menos, provas das "áreas da Matemática ou do Português", especificou mais tarde, abrindo assim a hipótese, presume-se, de que a prova seja de Matemática Aplicada às Ciências Sociais e não de Matemática A, por exemplo.

Para o justificar, foi enfático: "Não sei se os senhores deputados têm presente, mas isto é absolutamente extraordinário. É possível, neste momento, que um professor do 2.º ciclo faça todo o seu percurso tendo reprovado a Matemática no 9.º ano de escolaridade, tendo passado o secundário sem ter Matemática (...) e depois fazer uma licenciatura em Educação Básica e ir ensinar Matemática e Português aos nossos jovens no 2.º ciclo. Isto não se pode manter".

Joaquim Mourato, coordenador do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos (que asseguram a grande maioria dos cursos de Educação Básica), não gostou. "Se o ministro o disse, espero que seja verdade. Iremos ver e tentar perceber de que está a falar. Mas gostaria de saber como é que esses alunos que não sabem Matemática fazem o curso, já que por lei - e isto está mais que definido - dos 120 a 125 créditos da licenciatura na área da docência, 30 são precisamente em Matemática e outros tantos em Português", comentou.

Aquele foi um dos argumentos, adiantou Mourato, que os representantes do CCISP usaram para dar parecer negativo ao projecto de alteração, na Comissão Nacional de Acesso ao Ensino Superior (CNAES), à qual cabe definir quais as provas de ingresso adequadas a cada curso. "Por que não tornar obrigatória a prova de Ingresso de Biologia para os alunos que vão ficar com habilitação para a docência de Ciências da Natureza? Porquê Matemática para um Educador de Infância ou para um professor de História? E por que não História para o professor de História?", questionou Mourato.

"Não se entende. Concordamos com o aumento do rigor na formação inicial de professores, mas este ministro o que faz é simplesmente afunilar tudo para a Matemática", lamentou, em declarações ao PÚBLICO, Paula Carqueja, dirigente da Associação Nacional de Professores. Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, disse não ter dúvidas de que a decisão de tornar pública a proposta, "que não é propriamente urgente, visou desviar as atenções do atentado do OE à Educação". A proposta debatida na CNAES prevê a entrada em vigor das novas normas em 2016/17, o que levou os representantes do CCISP a perguntar qual a razão da pressa na publicação da legislação.